Análises de filmes e séries – Dimitri Vieira https://dimitrivieira.com Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais Mon, 05 Jun 2023 13:48:47 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 https://dimitrivieira.com/wp-content/uploads/2022/05/cropped-Frame-9-1-80x80.png Análises de filmes e séries – Dimitri Vieira https://dimitrivieira.com 32 32 Ted Lasso: uma piada interna entre amigos que fez história, coleciona prêmios e cases de marketing https://dimitrivieira.com/ted-lasso/ https://dimitrivieira.com/ted-lasso/#respond Mon, 05 Jun 2023 13:48:46 +0000 https://dimitrivieira.com/?p=9343 Ted Lasso já fez história: quebrou recordes com 20 indicações ao Emmy em 2021 e coleciona 2 Emmys de Melhor Série de Comédia, que venceu com sua 1ª e 2ª temporadas.

É uma das melhores séries de comédia que temos hoje. Mais do que isso, como a Isabela Boscov resumiu com perfeição, “meia hora de Ted Lasso todo dia, e o mundo parece melhor”.

No exato momento em que escrevo este texto, o último episódio da 3ª temporada e também da série já está disponível. Chegou a hora da despedida.

Uma escolha corajosa, diga-se de passagem, para finalizar a trama no ápice em vez de prolongar por várias temporadas apostando no retorno financeiro.

Poderíamos conversar sobre ela por várias perspectivas diferentes:

  • a estrutura narrativa da série;
  • sobre como é uma série ambientada no futebol, mas não é nada sobre futebol;
  • a lista de cases de Marketing;
  • se preferir, podemos ir pro lado das lições de vida, carreira e empreendedorismo que aprendemos com Ted Lasso.

Aliás, ainda bem que os caçadores de posts fáceis e motivacionais ainda não descobriram essa série, porque o que renderia de pauta não é brincadeira. Por enquanto, estamos em paz para apreciá-la.

Mas a história de origem de Ted Lasso é um espetáculo à parte no meio de tudo isso.

E acredito que ela também diz muito sobre a série.

Uma piada interna entre amigos que foi longe demais

O protagonista da série nasceu há mais de 20 anos.

Na época, Jason Sudeikis e Brendan Hunt faziam parte de um clube de comédia em Amsterdam, e os dois conversavam bastante sobre futebol.

Brendan Hunt (Coach Beard) e Jason Sudeikis (Ted Lasso).

Com um detalhe: Sudeikis não sabia nada sobre o esporte e foi aprendendo com Hunt, enquanto jogavam FIFA e usando comparações americanas entre times e jogadores europeus.

Geralmente, este seria o momento em que eu apresentaria uma breve sinopse para quem não conhece nada da série. Mas não será necessário, porque a 1ª aparição oficial do Ted Lasso, 7 anos antes da estreia da série, vai facilitar bastante meu trabalho.

Em 2013, a NBC havia acabado de pagar U$ 250 milhões pelos direitos da Premier League para transmitir os jogos nos EUA.

Só havia um grande problema: os americanos não sabiam nada sobre futebol.

Seria necessária uma grande campanha para divulgar a novidade e, como Jason Sudeikis era um rosto bem familiar por conta da sua participação no Saturday Night Live, a emissora decidiu contratá-lo para ser a cara dos anúncios da transmissão da Premier League.

Sudeikis então resgatou a ideia que teve com Brendan Hunt, que também estrelou os comerciais ao seu lado, e o mundo conheceu Ted Lasso.

Um treinador de futebol americano que acaba se tornando treinador de futebol em Londres, com direito a todos os trocadilhos e desencontros possíveis entre — para os americanos — o soccer e o football.

Nessa “1ª edição”, Ted Lasso treina o Tottenham e a campanha rapidamente se tornou um clássico cult, com alguns vídeos publicados atraindo +28 milhões de visualizações orgânicas para a NBC.

Só em 2017 Sudeikis e Hunt uniram-se ao criador de “Scrubs”, Bill Lawrence, para transformar Ted Lasso numa série e, depois de vários “nãos”, conseguiram que a Apple TV apostasse na trama.

E foi somente no dia 14 de agosto de 2020 que a série fez sua estreia e Ted Lasso embarcou num avião para Londres, para treinar o time fictício AFC Richmond.

Entre muitas coisas, Ted Lasso é o trabalho de dois grandes amigos que se conhecem há mais de duas décadas e têm a sorte de trabalhar com o que amam.

Poderia ter sido só uma piada interna.

Poderia ter sido só uma campanha comercial.

Ainda bem que não foi.

E como diria o clichê, o resto é história.


Para os marketeiros e curiosos de plantão

Não resisti e precisei listar alguns dos cases de marketing e feitos colecionados por Ted Lasso, que podem até te convencer que o AFC Richmond jamais foi obra da ficção.

1.

Logo no início da produção da 3ª temporada, a Nike anunciou oficialmente que seria a nova fornecedora esportiva do time fictício e substituiu a fictícia Verani Sports.

2.

A série também fez um acordo com a EA Sports para o AFC Richmond estar no FIFA 23, tendo seus uniformes, jogadores e estádio totalmente licenciados no jogo.

Além, é claro, de seu técnico.

3.

Com o patrocínio da Nike dentro da série, o próximo passo para tornar o AFC Richmond ainda mais real não demoraria tanto assim e, em março de 2023, foi lançada uma coleção oficial dos uniformes da série.

4.

Vídeos como esse, que conta com um dos personagens principais da série, Jamie Tartt, enfrentando um jogador do Borussia Dortmund, Jude Bellingham, no FIFA.

5.

Quantas séries você conhece que ganharam um teaser como esse da Nike anunciando seu último episódio?

6.

Como cereja do bolo, Ted Lasso e AFC Richmond ainda são bastante ativos no Twitter e, se eu usasse a rede, certamente seguiria o técnico americano.

“Alguns anos atrás, embarquei em um avião com o Coach Beard rumo a uma pequena cidade em Londres. Hoje à noite, jogamos nossa última partida. É como falo sobre os filmes de David Lynch. Eu não sei dizer o que está acontecendo, mas com certeza eu não quero que acabe.”

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Dahmer: uma aula de Storytelling para quem tem estômago https://dimitrivieira.com/dahmer-netflix-storytelling/ https://dimitrivieira.com/dahmer-netflix-storytelling/#respond Fri, 07 Oct 2022 12:33:14 +0000 https://dimitrivieira.com/?p=7661 Com 5 dias da série disponível na Netflix, “Dahmer: Um Canibal Americano” atraiu uma audiência de 196,2 milhões de horas assistidas e superou a marca de 63,1 milhões de Round 6 em sua semana de lançamento.

Oficialmente se tornou a estreia de série mais assistida na Netflix e também a maior atração da plataforma de streaming desde a quarta temporada de Stranger Things.

Mas será mesmo que pode ser chamada de “estreia”?

Um gênero e uma história já “validados”

Esta série especificamente produzida pela Netflix, sim, é inédita. Mas a história de Jeffrey Dahmer e seus crimes, não.

Desde que chocou o mundo em 1991, quando foi preso, entre documentários, filmes e séries, foram lançados 8 shows sobre Dahmer.

Com a série “Dahmer: Um Canibal Americano”, 9. E acredite se quiser, enquanto escrevo este artigo, a Netflix estreia em sua plataforma “Conversando com um serial killer: O Canibal De Milwaukee” e chegamos a 10.

Então, é inegável: o gênero de True Crime atrai a obsessão de milhões de pessoas e a própria história de Dahmer também é obsessão à parte “validada”.

E a Netflix, que sempre soube trabalhar com algoritmos para criar suas novas produções, não deixaria passar uma oportunidade como essa. Mas entra também uma dificuldade: como criar uma versão inédita de uma história contada e recontada tantas vezes?

Uma nova visão sobre Dahmer?

Se você já leu algum conteúdo sobre Storytelling ou a arte de contar histórias, certamente se deparou com algo dizendo que a importância das histórias é que elas humanizam ainda mais as marcas e até mesmo as pessoas.

E quando o protagonista é um serial killer que cometeu crimes tão absurdos e hediondos quanto Dahmer? Será que vale mesmo a pena humanizá-lo?

Para mim, esse foi o grande acerto da série dirigida por Ryan Murphy — famoso por American Horror Story.

Ao trazer sua história de infância e as dificuldades enfrentadas pelo serial killer, a produção acaba humanizando ele também. É inevitável. Porém, a série faz o possível para colocá-lo na posição de coadjuvante e tornar as vítimas protagonistas.

Tanto que meus episódios preferidos foram justamente o 6 e o 7, “Silenciado” e “Cassandra”, que colocam Tony Hughes e Glenda Cleveland, que sofreram na mão do assassino, assumindo o protagonismo.

Essa inversão de papéis é fundamental para amenizar o efeito de silenciar e apagar suas vítimas, enquanto Dahmer ganha os holofotes.

Amenizar, mas não evitar, porque convenhamos: qual o nome em destaque no título da série mesmo?

A monstruosidade e a tensão não estão em cenas explícitas

Após ver a série, me deparei com alguns comentários na internet dizendo que ela não é tão pesada assim, porque não tem cenas explícitas. Ou até mesmo comparando com filmes como “Jogos Mortais”, que seriam mais pesados.

Apostar na violência gráfica e explícita seria uma escolha até mais fácil aqui, mas ainda bem que as cenas de assassinatos não são mostradas, viu? Ou seria ainda mais difícil assistir à série, que já é pesada demais da forma que foi produzida.

Em vez disso, a tensão é sempre construída de uma forma absurda com Dahmer atraindo suas vítimas desde o bar, até sua casa, até seu quarto.

Quando estão trancados juntos ali, é como se nós também estivéssemos e, como ele sempre drogava as pessoas para deixá-las desacordadas, não mostrar os detalhes é uma forma da série nos colocar ainda mais na pele de quem sofreu naquela casa.

Depois de entendermos a dinâmica de seus assassinatos, um simples “oi” dito por ele para iniciar conversa no bar consegue causar muito mais medo e desconforto que qualquer cena de “Jogos Mortais”.

E além da monstruosidade dos crimes e pela tensão construída escondendo os detalhes, outro grande vilão muito bem retratado pela série é o preconceito.

Jeffrey Dahmer era gay, morava numa região mais pobre de Milwaukee e a maioria de suas vítimas eram homens negros gays.

Antes de ser finalmente preso em 1991, houveram várias situações que a polícia poderia ter investigado e poupado várias vidas. Mas simplesmente não se importaram.

Em alguns momentos, por Jeff ser branco e um homem negro prestar queixa conta ele. Em outros, por não se preocuparem com a região mais pobre onde ele morava.

Porque ligações para a polícia não faltaram. Uma delas, feita por Glenda Cleveland, é mostrada em sua versão real após o episódio 2, “Não vai, por favor”.

Uma série baseada em fatos reais precisa ser 100% verídica?

Como meus episódios preferidos foram “Silenciado” e “Cassandra”, não poderia deixar de levantar essa discussão por aqui.

“Silenciado”, pra mim, foi o melhor episódio de toda a série. Mas e se eu te falar que é um dos episódios mais fictícios?

Todo o episódio é focado em Tony Hughes e ele começa após o vermos entrando com Dahmer em sua cana ao final do episódio 5. Sabendo o que costumava acontecer com quem entrava ali, conhecemos toda a sua trajetória torcendo para que ele escape.

Além de negro e gay, Tony também era surdo.

Quando conhece Jeffrey, ele estava começando a realizar seu sonho de ter uma carreira como modelo e, na série, os dois desenvolvem o relacionamento romântico mais natural que Dahmer tem na série: encontram-se várias vezes e temos até uma esperança de que ficaria tudo bem.

Porém, durante sua confissão, o assassino disse que não conhecia Tony antes da noite que o assassinou.

Com Glenda Cleveland, acontece algo parecido: a verdadeira Glenda morava no prédio ao lado e foi ela quem ligou inúmeras vezes para a polícia, mas quem morava no apartamento ao lado do de Jeffrey era Pamela Bass.

A Glenda da série é uma mistura dessas duas pessoas.

Quando isso acontece, é comum aparecer discussões sobre a série não se ater aos fatos e a verdade é que não existe mesmo essa necessidade.

Quando são feitas adaptações ou acréscimos que contribuem com a narrativa, costumam ser muito bem-vindos e é o que acontece aqui.

Em 10 episódios, não daria para colocar em foco muitas pessoas que sofreram com Dahmer. Então, a escolha foi centralizar todo o sofrimento dos vizinhos na personagem de Glenda e o mesmo foi feito com as vítimas, no personagem de Tony.

É revoltante, é pesada, mas, se você tiver estômago para passar pelos primeiros episódios, vai ser difícil parar de assistir — mesmo sabendo que todas as respostas já estão no Google.

E vai ser ainda mais difícil não se emocionar com o episódio 6.

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Nope: a sociedade da espetacularização e o universo dos criadores de conteúdo https://dimitrivieira.com/nope-sociedade-da-espetacularizacao/ https://dimitrivieira.com/nope-sociedade-da-espetacularizacao/#respond Fri, 09 Sep 2022 14:46:34 +0000 https://dimitrivieira.com/?p=7573 ⚠ Esse texto contém spoilers de “Não! Não olhe!”, do Jordan Peele.

É um privilégio ser contemporâneo de um diretor e roteirista como Jordan Peele.

Logo com seu primeiro filme, “Corra”, levou o Oscar de melhor roteiro original. E com “Nós”, deixou ainda mais nítido que era um dos principais nomes da nova geração do cinema.

Ao lançar “Nope” — “Não! Não olhe!” no Brasil (provavelmente porque “Não olhe pra cima” foi usado no ano passado) — Jordan Peele já estava no patamar de “preciso ver tudo o que ele lançar” para muita gente.

Eu sou uma dessas pessoas.

E não vou mentir: como a barra estava bem alta, principalmente por causa de “Corra”, não saí tão maravilhado assim com o filme de imediato. Mas, depois de alguns dias e digerir um pouco melhor, as alegorias que ele constrói na trama me acertaram em cheio.

Por um motivo simples: as críticas e reflexões que ele levanta sobre Hollywood também encaixam com perfeição no universo da criação de conteúdo.

Um soco na cara dos clichês?

A história de “Nope” se passa nos arredores de Hollywood, num dos cenários mais gastos por eles: os faroestes.

Depois de explorarem esse gênero ao máximo, hoje em dia é cada vez mais raro vermos novas produções nesse estilo ou ambiente. Mais raro ainda é vermos alguma abordagem inédita ali.

O excelente “Ataque dos Cães” é uma rara exceção e o novo filme de Jordan Peele, também. Ainda mais quando ele acrescenta um OVNI à trama e tem um protagonista interpretado por Daniel Kaluuya, que foge completamente do que se imaginaria de um “cowboy protagonista de faroestes”.

Quando nos traz essa visão diferente de um gênero tão gasto, ele dá pista de qual seria a principal temática do filme. Afinal, quem foi que gastou tanto assim os faroestes? Não foi Hollywood? Ou talvez, os criadores de conteúdo?

Além disso, vale uma menção honrosa para a forma como ele brinca com um clichê em um dado momento do filme.

Num dos momentos mais tensos de “Nope”, Jordan Peele nos entrega um alienígena de forma bem previsível. Então, literalmente, dá um murro na cara do clichê.

A espetacularização de tudo

“Um filme sobre espetáculo, e sobre nossa relação sombria com o espetáculo.”

Foi assim que Jordan Peele resumiu “Nope” em sua entrevista para Today. Mas ele também detalhou um pouco mais:

“Quando estamos dirigindo, estamos no trânsito e acontece um acidente que deixe o trânsito mais lento, isso acontece porque todos estão tentando espiar aquele espetáculo horrível.”

Então ele decidiu fazer um filme justamente sobre esse tema e, claro, encontrou uma forma mais discreta de dizer isso na abertura citando a Bíblia: “Lançarei sobre ti imundícies abomináveis, te envergonharei e farei de você um espetáculo.” 

O OVNI da trama, na verdade, é um mero pretexto para nos mostrar a relação das pessoas com a sua “espetacularização”. E como cada um busca, à sua maneira, a fama, o reconhecimento e o retorno financeiro a partir do que poderiam tirar dele.

Visibilidade instantânea a qualquer custo

O repórter do TMZ é a personificação perfeita pelo retorno imediato e a qualquer custo, mas mirando sempre no mínimo custo possível.

Seu único objetivo é ser o primeiro a criar algum registro do espetáculo que as pessoas tanto desejam ver. Seja um novo evento, seja a morte de uma celebridade, ou uma novidade.

Se precisar, pode ter certeza que apelaria para teorias mirabolantes com gravações de má qualidade.

Exploração para retorno imediato (inclusive dos próprios traumas)

No caso de Jupe, ele já havia explorado um trauma da própria vida para transformar em um espetáculo que lhe trouxesse dinheiro: o episódio em que um macaco atacou todo o elenco de um sitcom e ele foi o único a escapar ileso.

Após fazer isso com a própria vida e ver que dava retorno, ele não hesita em fazer também com OVNI e cria uma experiência que as pessoas precisavam pagar para testemunhar aquilo.

Busca idealista pela grande cena

No extremo oposto dos dois primeiros, Holst, o diretor de fotografia que vai até a fazenda para registrar o OVNI com uma câmera mecânica, busca uma única coisa: o registro da grande cena e do grande espetáculo.

Enquanto Jupe e o repórter do TMZ estão dispostos a arriscar a própria vida — desde que tenham um registro monetizável disso —, Holst está disposto a fazer o mesmo para capturar a versão perfeita do espetáculo, mesmo que ninguém veja.

No próprio filme, ele comenta antes que sempre guardava algumas versões de suas filmagens apenas para ele. É a personificação do desejo de se criar uma versão idealista e perfeita, que ninguém jamais verá.

Luta por reconhecimento e justiça históricos, além da fama

No caso de Emerald, ela deseja sim a fama e o reconhecimento, mas para conquistar justiça histórica.

Se a história ignorou o homem negro no cavalo no primeiro registro cinematográfico da história, ela poderia garantir que o primeiro registro de um OVNI seria feito por ela.

Em vez de tentar qualquer registro para ser a primeira, ela faz questão de ter uma prova irrefutável antes de buscar a fama.

Fama como consequência

OJ é um caso à parte na alegoria. Seu grande desejo é seguir com o legado de seu pai e continuar trabalhando ali na fazenda.

O personagem de Daniel Kaluuya mostra quase um desprezo pela espetacularização dos eventos e tem um respeito enorme pelos animais. É esse respeito, inclusive, que facilita que ele descubra que, para não ser levado pelo OVNI, bastava não olhar diretamente para ele.

Sem OJ na história, o desejo dos personagens registrarem aquilo para que outras pessoas pudessem testemunhar poderia acabar num desastre ainda maior.

E na criação de conteúdo?

Daria para fechar com uma pergunta a la quiz de internet: “quem é você na criação de conteúdo?”.

Mas raramente veríamos alguém dizendo que são o personagem do Jupe, ou o repórter do TMZ.

O que vemos de uma forma bem generalizada, na prática, é uma bela corrida até o pote do outro lado do arco-íris — que seria de biscoitos, nesse caso.

O exemplo mais imediato é a morte da Rainha Elizabeth II, e a enxurrada de posts e ensinamentos sobre tudo a partir disso. Desde lições de vida até ensinamentos sobre marketing.

Talvez, você não esteja lendo esse texto assim que foi publicado e o exemplo mais recente seja outro.

Mas essa é a beleza do trabalho que Jordan Peele fez aqui: ele constrói um grande espelho para a nossa “sociedade da espetacularização” e a forma como produzimos e consumimos um conteúdo.

Gastamos e sacrificamos um tema, ou talvez até nós mesmos, ao máximo — enquanto estiver trazendo algum retorno.

Até quando?

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A genialidade caótica de um clássico instantâneo: Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo https://dimitrivieira.com/tudo-em-todo-lugar-ao-mesmo-tempo/ https://dimitrivieira.com/tudo-em-todo-lugar-ao-mesmo-tempo/#respond Mon, 22 Aug 2022 14:05:20 +0000 https://dimitrivieira.com/?p=7250 ⚠ Antes de qualquer coisa, um aviso: não leia este texto se você ainda não viu o filme.

Sua experiência e sua sensação ao ver “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” valem muito mais que qualquer análise que você possa encontrar na internet, incluindo a minha.

Por isso, nem me darei ao trabalho de escrever uma sinopse para apresentar a trama a quem ainda não viu, como costumo fazer.

Não é todo dia que surge um filme com os requintes de um clássico instantâneo.

Nos últimos anos, colocaria apenas três dos que assisti nessa classificação: Coringa, Parasita e, agora, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

E a produção mais recente, dirigida por Daniel Kwan e Daniel Scheinert, começa fazendo algo que Parasita também soube fazer muito bem: a transição entre diversos gêneros.

Do intimista ao complexo e ao besteirol

As primeiras cenas nos apresentam a família Wang em sua casa, logo acima da lavanderia que os sustenta e temos vários traços de um drama intimista.

Dificuldades financeiras, problemas com a receita federal (IRS), além de relacionamentos conturbados entre os Wang.

Enquanto o marido, Waymond, se prepara para pedir o divórcio a Evelyn, ela não consegue admitir a orientação sexual da filha para apresentar sua namorada ao pai, Gong Gong.

E ainda existe uma tensão muito grande com a chegada de Gong Gong, anunciando problemas mal resolvidos entre ele e sua filha.

Logo depois da situação em que Evelyn apresenta a namorada de sua filha, Joy, ao pai como se fossem amigas, um diálogo que parecia ser um pedido de desculpas da mãe é um prenúncio do estilo de humor que veremos.

Em vez disso, ela diz apenas “Você precisa comer melhor. Você está engordando!”.

Depois disso, o filme passa a mesclar diálogos profundos e situações complexas, com situações bizarras e trechos dignos de uma comédia besteirol.

E faz isso de forma genial, como se estivesse nos anestesiando ou amenizando algumas pancadas de diálogos como o momento em que Waymond diz:

“Você tem tantos objetivos não realizados e sonhos que você jamais seguiu. Você está vivendo a pior você.”

Sonhos abandonados e vidas não vividas

O que parece ser simplesmente um multiverso é uma forma surreal de tratar os “e se” da vida de Evelyn, com cada realidade sendo acessada com uma espécie de serendipidade caótica.

Com uma ação inusitada, ela tem acesso a outra realidade e, novamente, as bizarrices têm um papel importante. Dessa vez, para nos desarmar.

Quando somos apresentados a uma realidade em que as pessoas têm dedos de salsicha, ou ao Raccacoonie, não nos preocupamos em procurar sentido naquilo.Simplesmente aceitamos e seguimos com a trama.

Mas o diretor, Daniel Kwan, fez questão de incluir os dedos de salsicha por outro motivo também:


“Esses são os momentos estranhos que tornam a vida tão especial e tornam o peso insuportável da consciência um pouco mais suportável.”

Daniel Kwan, SYFY Wire


Niilismo vs. Existencialismo

Após acessar todas as suas versões do multiverso, a vilã Jobu Tupaki (Chewbacca?) se torna a personificação do Niilismo na trama, e passa a desacreditar e rejeitar qualquer significado.

Baseando-se na ideia de que, com acesso a infinitas possibilidades e realidades, nenhuma delas importa — criando um vazio existencial por excesso de informação.

Esse vazio é perfeitamente representado na figura do Everything Bagel.

E o melhor é a explicação de como surgiu a ideia dessa rosquinha:


“Existe um cálculo científico que você pode fazer para qualquer objeto no universo chamado Raio de Schwarzschild, que transforma o objeto  em um buraco negro quando você o comprime nesse raio (…) a ideia é que, em uma certa densidade, qualquer coisa pode se tornar um buraco negro. Não seria engraçado se ela fizesse isso com um bagel?”

Daniel Kwan, Vulture


Na primeira metade do filme, temos a impressão que essa rosquinha foi construída para destruir o mundo e, na segunda metade, entendemos que era para Joy se autodestruir.

Mais uma forma de trabalhar com bizarrices para suavizar temas bem mais profundos, quando o vazio existencial por excesso de informação faz da vilã depressiva a ponto de construir algo para se matar.

Em contrapartida, o filme também trabalha o Existencialismo na ingenuidade de Waymond.

Se Joy personifica o Niilismo após acessar todo o multiverso, é como se o desconhecimento de Waymond permitisse que ele encontrasse significado em pequenos momentos e pequenas coisas.

E se o Everything Bagel era a representação perfeita na anulação de qualquer significado, são os Googly Eyes que representam o Existencialismo de Waymond.

Aqui, a dualidade entre Niilismo e Existencialismo se torna mais visual do que nunca, com a rosquinha e o olho funcionando quase como um Yin-Yang.

Tanto que a Evelyn somente consegue salvar Joy após fixar um Googly Eye em sua testa, ao reconhecer a importância da ingenuidade de seu marido e abraçando o Existencialismo.

Além de também fazer alusão ao terceiro olho, que, na tradição hindu, representa o centro da energia sutil da consciência e da espiritualidade, e reforça o objetivo de transmitir paz de espírito para aqueles que aderem à prática.

Muito além do multiverso

Pelo momento em que foi lançado, a comparação mais comum é com o universo da Marvel e, especialmente, com Dr. Estranho no Multiverso da Loucura.

Mas, como os próprios diretores reconhecem, foi a série Rick and Morty que trabalhou os conceitos do multiverso de forma mais parecida com o filme:


“Assistir à segunda temporada de Rick and Morty foi doloroso. Eu fiquei tipo ‘eles já fizeram todas as ideias que achávamos originais!’ Foi uma experiência realmente frustrante. Então parei de assistir Rick e Morty enquanto escrevíamos este projeto.”

Daniel Kwan, Vulture


Mas se engana quem pensa que Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo é só um filme de multiverso.

Além das incontáveis referências, sutis ou escancaradas, desde Ratatouille até Super Smash Bross, o multiverso aqui é uma bela metalinguagem para o momento em que vivemos.

Basta dar uma olhada nessa imagem sem o contexto do filme.

Ou lembrar do excesso de informação criando o vazio existencial

O Niilismo de Multiverso, que conhecemos com a Joy, é o Niilismo Moderno que vivemos.


“Nas últimas décadas, estivemos nesse lugar realmente perigoso como uma sociedade onde estamos mergulhados no pós-modernismo, mas não há nada de cura no pós-modernismo. É um lugar tão desconstrutivo e desestabilizador para existir.”

Daniel Kwan, SYFY Wire


Mas, claro, os Daniels precisavam encontrar algo para balancear tanto caos e tanto ruído, e foi justamente nesse contraponto que eles trouxeram uma cena que já nasceu icônica.

Sobre a suposta ingenuidade de Waymond:

“Quando escolho ver o lado bom das coisas, não estou sendo ingênuo. É estratégico e necessário. É como aprendi a sobreviver a qualquer coisa.”

E como Daniel Scheinert disse, um dos grandes desafios ao escrever o filme foi encontrar uma forma de levar a audiência até o fundo do poço e, após chegar lá, como fariam para tirar o público de lá. Por consequência, como tirar eles próprios de lá.


“Que desafio terapêutico criamos para nós mesmos!”

Daniel Scheinert, SYFY Wire

Um belíssimo exercício terapêutico, a atuação da vida de Michelle Yeoh e, na minha opinião, o filme do ano até agora em 2022.

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Batman e a arte de recontar uma história conhecida de forma inédita https://dimitrivieira.com/batman-e-a-arte-de-recontar-uma-historia/ https://dimitrivieira.com/batman-e-a-arte-de-recontar-uma-historia/#respond Fri, 18 Mar 2022 13:33:47 +0000 https://dimitrivieira.com/?p=6834 [Atenção! Este texto contém spoilers!]

Escrever textos como esse me dá prejuízo.

Depois de ler, pesquisar e escrever um texto sobre algumas das principais referências que inspiraram o Batman de Matt Reeves, foi impossível resistir à vontade de voltar aos cinemas.

A última vez que isso aconteceu — coincidência, ou não — foi com o Coringa, em 2019.

Da mesma forma que Todd Philips trouxe uma versão inédita do Palhaço do Crime para os cinemas, Matt Reeves conseguiu fazer isso com o Batman.

No caso do herói, é um pouco mais desafiador, porque preciso reforçar que, contando filmes focados em sua história e algumas participações, como em Esquadrão Suicida, existem 12 filmes com o personagem.

E a maioria começa pelo caminho mais óbvio, com o assassinato dos pais de Bruce Wayne sendo o catalisador para ele se tornar o Batman.

Na versão de Matt Reeves, não é bem assim e já vamos entrar em detalhes.

Enquanto escrevia, também percebi que poderia dissertar e analisar o filme inteiro neste artigo, e acabaria correndo para o ingresso.com para assistir de novo.

Então, vamos nos ater a dois momentos principais: a introdução e o desfecho — começando pela primeira aparição do Batman nesse novo universo.

União pelas sombras, cicatrizes e traumas

Antes do herói, somos apresentados ao vilão do filme, Charada.

E se você notar, a primeira aparição dele e do Batman acontecem da mesma forma, com os dois saindo da sombra.

O Cavaleiro das Trevas abre a sua participação com um monólogo, chega a dizer que ele é a sombra e usa a escuridão como um disfarce para amedrontar criminosos; então, somos apresentados à sua figura com ele caminhando para sair das sombras.

Em vez de um discurso, acompanhamos um Charada ofegante como o prelúdio de seu primeiro crime e sua primeira aparição também acontece com ele saindo da sombra.

A diferença é que o antagonista permanece estático e é a mudança de iluminação que o expõe.

Isso diz muito sobre o ponto de partida dos dois, porque herói e vilão nascem da descrença nas instituições políticas e no sistema. Foi a mesma Gotham hostil e corruptora que os incentivou a vestir suas máscaras, irem para as ruas e os transformou nos animais noturnos que testemunhamos.

Diferente de outros filmes, não vemos o Batman como ídolo ou ícone, mas como uma figura estranha. A cada investigação policial, sua presença causa incômodo e, logo na abertura, o personagem resgatado fica na dúvida se seria salvo ou agredido pelo herói.

Temos ainda um Bruce Wayne praticamente inexistente quando tira a máscara, sustentado pelo trauma da morte dos pais e numa eterna busca por vingança.

Quando pensamos em Selina Kyle, James Gordon e Alfred, os traumas e cicatrizes deixados pela corrupção e sujeira da cidade são também fortes motivações.

Enquanto Selina busca vingar sua mãe e sua amiga; Gordon se esforça por manter a integridade no departamento de polícia; e Alfred, como ex-militar, é atormentado por não ter conseguido salvar os Waynes e ainda ostenta as cicatrizes da culpa de não ter sido a figura paterna que Bruce precisava.

Voltando à apresentação visual do Batman, caminhando para fora das sombras, ela é um anúncio simples do que vamos testemunhar nas 3 horas de filme.

Sem pressa e no ritmo certo, para permitir o desenvolvimento emocional dos personagens e também o nosso — como telespectadores.

A construção visual da narrativa

Inspirado no trabalho do Edward Hopper e também nos filmes Noir, várias cenas parecem (ou são) filmadas através de vidros, ou em ambientes hermeticamente fechados — com pleonasmo mesmo, para reforçar a claustrofobia de alguns momentos.

Boa parte do filme se passa à noite e, mesmo quando é dia, a luz do sol mal parece fazer efeito e as cenas são desprovidas de cor.

Essa dessaturação e ambientação são representações dos próprios personagens, que se prendem às sombras e tem visões estreitas — deturpadas de acordo com cada trauma.

E agora sim, podemos falar da genialidade de Matt Reeves para introduzir o assassinato dos Waynes.

Uma história conhecida por um ângulo novo

O caminho mais fácil, nós já conhecemos.

Batman vs. Superman, por exemplo, trouxe uma bela alternativa de trazer a clássica cena sem se preocupar em apresentá-la como inédita.

Logo nos créditos de abertura, vemos um casal saindo do cinema com o filho, o cartaz da “A Máscara do Zorro” e nem precisamos esperar o assaltante surgir para saber qual será o desfecho.

Antes de entrar na nova versão, vale trazer um exemplo negativo de se trabalhar a origem do Batman como bastidores do personagem.

Não sei se você se lembra, mas, em Esquadrão Suicida — a versão desastrosa de 2016 — vemos o Cavaleiro das Trevas perseguir o Pistoleiro, acompanhado de sua filha em um beco, numa perspectiva parecida com a do assassino de seus pais.

Se você me perguntar, sabendo do trauma que isso trouxe na vida do Bruce Wayne, não acredito que ele assumiria o risco de proporcionar uma cicatriz parecida com a garota. Pelo menos, não da forma como acontece na cena.

Na versão do Matt Reeves, a introdução do assassinato não é explícita e a subjetividade fala mais alto.

Ainda na cena do primeiro crime do Charada, descobrimos com o Batman que foi o jovem filho do candidato a prefeito que encontrou seu corpo sem vida.

Nessa cena, o silêncio grita.

Mesmo sem ver o rosto de Robert Pattinson por baixo da máscara e da maquiagem, o olhar basta e a cumplicidade transcende à tela.

São alguns segundos que funcionam como referência para filmes intimistas.

Compartilhamos essa cumplicidade entre eles e não precisamos que ninguém nos conte que os pais de Bruce Wayne foram assassinados.

O silêncio e o olhar cumprem essa missão.

O Batman Noir, o batismo e a esperança

Como comentei no artigo sobre as referências que inspiraram o novo Batman, o Matt Reeves abraçou o Noir como um sub-gênero.

E quebrando o filme para analisar, encontramos uma narrativa Noir completa e das mais clássicas.

Partindo da visão de mundo pessimista e ambientação em uma cidade opressora, passando pelos personagens corruptíveis, pelo protagonista violento, até o desfecho pessimista.

O antagonista prova seu ponto e o personagem principal conclui ser incapaz de solucionar todo esse caos.

Se filmes como Chinatown ou Seven vieram à sua cabeça, não é mera coincidência.

E se você assistiu ao filme, sabe que essa cena abaixo marca o desfecho do que seria o Batman Noir.

Assim, fica ainda mais marcante a inspiração no trabalho do Edward Hopper e, quando lembramos que essa cena abre o trailer, aquele primeiro frame se torna quase um manifesto do que veríamos no filme.

Após o Charada ser preso, entramos numa espécie de ato final que abraça de vez o gênero de super-herói. Mas, ainda assim, Matt Reeves soube fazer isso de maneira maravilhosa.

Com a inundação de Gotham, temos uma espécie de batismo do Batman para reconstrução da cidade.

Após entender que não poderia ser apenas vingança e que precisava ser esperança, temos provavelmente a sequência do filme com mais cor.

Quando o Batman aciona o sinalizador com a luz vermelha alaranjada, ele aciona a esperança para a cidade de Gotham.

Quando ele estende o braço para ajudar o jovem, que encontrou o pai assassinado, ele estende o braço para si mesmo — resgatando-se do trauma da parte de seus pais.

Minutos depois de vilões atacarem o Batman e tentar remover sua capa, a composição da cena na água faz com que os cidadãos de Gotham se tornem sua capa.

A prévia da primeira aparição do herói se cumpre e o Batman caminha para fora das sombras.

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Principais referências de Batman: entenda a origem do sucesso do filme de Matt Reeves https://dimitrivieira.com/referencias-batman-matt-reeves/ https://dimitrivieira.com/referencias-batman-matt-reeves/#respond Wed, 09 Mar 2022 13:02:36 +0000 https://dimitrivieira.com/?p=6808 [Atenção! Este texto contém spoilers!]

A nova versão do Batman, que chegou aos cinemas em 2022, superou todas as expectativas que eu tinha para o filme.

E um dos principais pontos positivos foram as referências usadas por Matt Reeves na construção do novo universo do Homem Morcego.

Por isso, em vez de apenas escrever um artigo analisando e desconstruindo a história, decidi primeiro falar apenas sobre as fontes de inspiração do longa-metragem.

Se você me acompanha há mais tempo, talvez se lembre que fiz a mesma coisa com Coringa, em 2019, analisando primeiro as referências e, depois, a construção narrativa do filme.

Repetindo a dose com o Batman, você vai notar que algumas referências são bem explícitas e outras, mais interpretativas.

O catálogo completo de filmes do Batman

Contando filmes focados em sua história e algumas participações, como em Esquadrão Suicida, existem 12 filmes sobre o herói.

Então, não se trata de uma história desconhecida e alguns eventos estão bem desgastados por excesso de repetição.

Por exemplo, quantas vezes você já assistiu à morte dos pais de Bruce Wayne em um filme ou série?

Nessa versão, é notável que houve uma preocupação de recontar o que era conhecido de forma inédita.

Em vez de focar no Bruce Wayne como protagonista e nos apresentar o assassinato como a origem do Batman, a versão de Matt Reeves começa direcionando a atenção para o Homem Morcego — dois anos após ter começado a combater o crime de Gotham.

Mesmo que o incidente seja mencionado no filme, é de forma menos óbvia.

Pela atmosfera sombria do filme e versões mais realistas dos personagens, também é possível acreditar em algumas inspirações na trilogia de Christopher Nolan. 

Nirvana e Kurt Cobain

Se você assistiu ao trailer do filme e conhece Nirvana, provavelmente a trilha sonora te chamou a atenção desde os primeiros segundos.

Something in the way e a voz de Kurt Cobain ditam o tom do trailer — até as composições originais compostas por Michael Giacchino assumirem.

Diferente de Esquadrão Suicida, que entrega uma série de músicas famosas para gerar a sensação de algo épico sendo construído, aqui, a música cumpre um papel na narrativa.

“No início, quando estava escrevendo, comecei a ouvir Nirvana, e havia algo sobre (a música) Something in the Way — que está no primeiro trailer —, que faz parte da voz desse personagem (…) ele é uma espécie de viciado em drogas. Sua droga é seu vício por esse desejo de vingança. Ele é como uma versão Kurt Cobain do Batman”.

Matt Reeves

Vale lembrar que Coringa fez algo bem parecido, ao trabalhar com músicas, principalmente com That’s Life, do Frank Sinatra.

E por ser uma música que fala muito sobre isolamento, Something in the way ajudou a construir uma ambientação perfeita para o Bruce Wayne e para outros personagens — também movidos por vingança.

Noir e Neo-Noir

Bem comuns nas décadas de 40 e 50, os filmes Noir tinham raízes na 2ª Guerra Mundial e refletiam desilusão da época, com uma visão de mundo pessimista. São ambientados em cidades sujas, opressoras e recheadas de problemas sociais.

Os personagens são corruptíveis e isso também se reflete no protagonista, que costuma ser violento, individualista e com uma conduta moral questionável.

Apesar de muitos filmes noir terem um detetive como protagonista, não é uma obrigação nesse estilo.

Outro traço marcante é a presença da Femme Fatale, uma personagem com objetivos dúbios e que oscila entre aliada, interesse amoroso e antagonista no decorrer da trama.

Vários filmes resgataram esse mesmo estilo mais tarde e podem ser classificados como Neo-Noir, como Chinatown, Taxi Driver, Drive, Sin City e Blade Runner 2049.

O Batman, de Matt Reeves, abraça o Neo-Noir como um sub-gênero e traz vários desses elementos na construção da narrativa.

Inclusive, se você se lembra de Taxi Driver, os monólogos introdutórios do Homem Morcego lembram bastante os do protagonista, Travis Bickle.

Nighthawks, de Edward Hopper

Antes de entrar em detalhes, preciso agradecer à Isabela Boscov e aproveitar a deixa para te apresentar ao trabalho dela, caso você ainda não conheça.

Foi graças à análise dela sobre o Batman que fiquei conhecendo esta referência e, facilmente, é uma das mais fascinantes.

O trabalho do pintor Edward Hopper ficou marcado por representações realistas da solidão contemporânea, como acontece em Nighthawks.

Finalizada em 1942, a pintura capta um sentimento parecido com o que inspirou o nascimento dos filmes Noir e, por serem contemporâneos, esse estilo de filme e o trabalho de Hopper se influenciaram.

De um lado, Hopper traz elementos visuais e figurinos bem presentes nesses longa-metragens.

Do outro, inúmeros filmes utilizaram suas pinturas como referências para construção dos cenários e filmagem.

Se você pesquisar, vai encontrar inúmeros exemplos de quadros de Hopper que influenciaram o cinema. Mas vou aproveitar para citar apenas um aqui: Ridley Scott, com Blade Runner.

“Eu mostrava constantemente uma reprodução desta pintura (Nighthawks) para a equipe de produção para ilustrar o visual e o humor que eu procurava.”

Ridley Scott

Para exemplificar sua influência em Batman, bastaria um print do primeiro frame do trailer do filme:

E além dessa cena específica, a filmagem através de vidros em vários momentos, ao lado desta construção sombria em ambientes fechados, quase claustrofóbicos, podem tranquilamente ter bebido na fonte de Hopper.

O assassino do Zodíaco e o trabalho de David Fincher

A inspiração para a construção do Charada como um serial killer veio direto do assassino do Zodíaco, que aterrorizou o norte da Califórnia na década de 60. Tanto visualmente, quanto pela comunicação com a polícia e a imprensa usando enigmas.

Com uma atualização e adequação do personagem ao universo das redes sociais.

O que inclui, por exemplo, uma live com um personagem precisando decifrar uma charada para sobreviver — no estilo Jogos Mortais. E também a criação de uma comunidade de seguidores do vilão.

Além do caminho óbvio de se inspirar no filme Zodíaco, do David Fincher, também é possível notar algumas semelhanças com Seven, do mesmo diretor. Principalmente pelo fato do assassino se entregar após completar os assassinatos que havia planejado.

E fiz questão de deixar esse tópico para o final para trazer um contraponto.

Em Zodíaco, a obsessão de Robert Graysmith, vivido por Jake Gyllenhaal, para desvendar quem era o serial killer e o fato dele não ser descoberto levam a um desfecho em tom pessimista.

Se você viu Seven, acho improvável que tenha se esquecido da cena final, também com um forte tom pessimista.

Além de ser característica de vários filmes Noir e Neo-Noir, são marcas que ficam no nosso imaginário e ajudam a tornar essas obras inesquecíveis.

No caso de Batman, apesar da inspiração no gênero, ainda estamos falando de um filme de super-herói e o final escolhe um caminho diferente — para enaltecer o personagem e desviar desse pessimismo.

E o Matt Reeves soube fazer isso de maneira maravilhosa, mas esse é um papo para quando formos desconstruir a construção narrativa do filme.

Enquanto isso, você notou mais alguma referência no filme?

Aproveita para me contar nos comentários 🙂

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Missa da Meia-Noite: uma aula surreal de Storytelling construída com sutilezas e toques de terror https://dimitrivieira.com/missa-da-meia-noite-storytelling/ https://dimitrivieira.com/missa-da-meia-noite-storytelling/#respond Thu, 14 Oct 2021 14:44:47 +0000 https://dimitrivieira.com/?p=5223 Uma das melhores formas de se aprender mais sobre Storytelling é desconstruindo e analisando seus conteúdos preferidos. Se você me acompanha há mais tempo, provavelmente já me viu dizendo isso.

Quando digo conteúdos, vale para músicas, filmes e, claro, séries — como será o caso do texto de hoje.

Antes de começar a falar sobre Missa da Meia-Noite, precisamos falar sobre seu diretor e roteirista.

Mike Flanagan, hoje, é um dos maiores nomes quando se trata de filmes e séries de terror. Sua parceria com a Netflix rendeu as produções Maldição da Residência Hill e Maldição da Mansão Bly.

Depois de apertar o play na Maldição da Residência Hill esperando um clichê sobre mansões assombradas, minhas expectativas foram superadas e ganhei uma nova série preferida entre as produções da Netflix.

Desde então, faço questão de correr para assistir tudo que inclua o nome do diretor.

Já se passaram algumas semanas desde que assisti à Missa da Meia-Noite e confesso que não sei dizer ainda se superou a Residência Hill, ou não. Ainda estou digerindo tudo o que vi e, talvez, até o final deste artigo, eu consiga me decidir.

Antes da sinopse, deixa eu te adiantar que este artigo não terá spoilers.

Mike Flanagan fez um trabalho impecável para entregar cada elemento no momento perfeito.

Então, o mínimo que posso fazer é preservar sua experiência caso ainda não tenha assistido. Além de deixar você curioso o bastante para assistir ao primeiro episódio assim que terminar a leitura.

Uma sinopse para você que ainda não viu

Logo nos primeiros segundos, somos apresentados a Riley Flynn numa situação delicada.

Dirigindo embriagado, ele bate o carro, mata uma jovem e fica preso por 4 anos. Aterrorizado pela imagem da garota deitada no asfalto sem vida, seu período na prisão dura poucos minutos de tela.

Então, vemos que após conquistar sua liberdade, ele retorna para sua cidade natal, Crockett Island — uma ilha em decadência com 127 habitantes que parece caminhar para se tornar uma cidade fantasma.

Também acompanhamos a chegada do Padre Paul Hill à ilha, para substituir o antigo Monsenhor, que estava para retornar de uma viagem para Jerusalém.

E claro, eventos sobrenaturais começam a acontecer entre os membros da comunidade, que têm a religião católica como um forte elo para unir os habitantes.

Riley Flynn e Padre Paul Hill.

Construção natural do sobrenatural

Quem começa a ver Missa da Meia-Noite esperando uma sequência para as Maldições, tem uma quebra de expectativa inevitável.

Em vez de começar com um evento sobrenatural para te deixar tenso, a evolução é lenta e o começo é pacato — tão pacato quanto uma ilha de 127 habitantes seria.

No início, o foco principal é a ambientação e não demoramos a nos sentir como um morador de Crockett Island, frequentando as missas do recém-chegado padre aos domingos.

Mesmo com o ritmo devagar, sentimos uma tensão no ar e aquela clássica sensação de vai dar merda — confirmada aos poucos conforme os eventos sobrenaturais são introduzidos.

E aqui, o ritmo lento é uma peça-chave para construir uma verdadeira experiência imersiva e vivenciarmos cada momento como membros da comunidade.

Porém, outro elemento também é fundamental na construção da tensão.

A dualidade na trama

Enquanto Riley Flynn retorna à ilha como ateu, após buscar por Deus em todas as religiões possíveis enquanto estava preso, temos também a chegada do padre.

Essa é uma dualidade bem evidente na série e, desde o primeiro episódio, traz à tona diversas discussões sobre religião.

Uma sequência incrível também deixa isso claro nos primeiros minutos de série, revezando algumas cenas da celebração da missa com o encontro dos Alcoólicos Anônimos.

Outra dualidade tão importante quanto essa aparece na relação de Riley com outra personagem que acaba de retornar à ilha, Erin Greene.

Enquanto o retorno dele se justifica por ter tirado uma vida, o dela acontece por estar grávida e prestes a dar uma nova vida.

Por conta dessa dualidade, temos discussões incríveis sobre a existência, o significado da vida e o que acontece após a morte.


“O terror nos dá a oportunidade de olhar de verdade para nós mesmos e para as coisas que nos assustam, que nos perturbam, como sociedade e como indivíduos.”

— Mike Flanagan, em entrevista para o NY Times


Riley Flynn e Erin Greene.

O melhor projeto que Flanagan jamais faria

Para quem gosta de uma história de superação, a primeira vez que Mike Flanagan apresentou o projeto de Missa da Meia-Noite foi em 2014.

Na época, ninguém se interessou em produzir a série e ela foi recusada pela própria Netflix.

Enquanto dirigia outros filmes, Flanagan encontrou uma forma de inclui-la como easter egg e um livro com o mesmo título (Midnight Mass) aparece em Hush, de 2016, e Jogo Perigoso, de 2017.

Além da demora para emplacar, também é a produção mais vulnerável do diretor — que trabalha com adaptações na maioria de seus filmes e séries.

Onze anos se passaram desde que ele começou a trabalhar no roteiro da série e muito do que vemos nasce da experiência pessoal de Flanagan.

Quando criança, ele morou por algum tempo numa ilha — Governors Island, que fica na baía de Nova Iorque. Ele também foi coroinha e se assustou com algumas passagens do Antigo Testamento quando decidiu estudá-lo.

Mas a inspiração mais vulnerável vem do período que Mike Flanagan teve problemas com o alcoolismo:


“Meu maior medo não era morrer em um acidente de carro, ao dirigir bêbado. Era que eu mataria outra pessoa e sobreviveria.

— Mike Flanagan, em entrevista para o NY Times


Reflexões surreais que só uma boa história pode entregar

Com esses elementos e tanta inspiração na vida pessoal do diretor, Missa da Meia-Noite entrega uma experiência que só as melhores histórias podem proporcionar.

Seria fácil transformar a trama num conflito direto entre o ateu e os religiosos, ou até mesmo entre o ateu e o padre.

Em vez disso, ele nos permite vivenciar todos os acontecimentos ao lado dos personagens, enquanto a religião entra como uma espécie de subgênero para contextualizar os eventos sobrenaturais.


“Quando falamos sobre a vida após a morte e a alma, estamos falando sobre fantasmas. Não conseguimos evitar ser atraídos pela ideia de que a morte não é o fim, e que veremos as pessoas que perdemos novamente. Essa ideia é uma das coisas que me interessou em primeiro lugar pelo terror, e está por trás tanto das nossas religiões, quanto das nossas ficções de terror.”

— Mike Flanagan, em entrevista para o NY Times


Algumas pessoas até podem entender que a série critica a religião, mas não é bem assim.

As críticas sociais da série são direcionadas ao fanatismo religioso. Principalmente, ao ponto em que podemos chegar quando interpretamos as situações sempre a nosso favor.

Os diálogos são um espetáculo à parte e, sobre o final, vou dizer apenas três palavras.

Surreal. Catártico. Apoteótico.

Geralmente, esses adjetivos são exatos de forma exagerada, mas aqui não.

Só vou parar por aqui para preservar sua experiência com a série, e porque fiquei com vontade de rever o final só de falar sobre ele.

Se ainda não assistiu, pode se preparar para maratonar e, depois, fique à vontade para voltar e me agradecer. Aliás, tenho bastante inveja de você, porque você está prestes a ter a experiência de ver uma das melhores séries da Netflix pela 1ª vez.

Agora, é a sua vez de me dizer.

Conhece alguma outra série com a narrativa tão bem cuidada e trabalhada quanto essa? Me diz nos comentários, que estou curioso para conhecer sua recomendação.

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Do anonimato ao sucesso mundial: como o Storytelling, a Construção de Marca e o Marketing trabalharam juntos em La Casa de Papel https://dimitrivieira.com/la-casa-de-papel-marketing-e-storytelling/ https://dimitrivieira.com/la-casa-de-papel-marketing-e-storytelling/#respond Wed, 14 Jul 2021 15:10:37 +0000 https://dimitrivieira.com/?p=4805 Preciso confessar: tenho um sério problema com hypes.

Se aparece uma série nova e, imediatamente, vejo todas as pessoas falando sobre ela nas redes sociais, minha reação é não querer assistir.

Então, quando uma série é muito comentada, acabo assistindo apenas depois de um tempo.

Breaking Bad, por exemplo, fechou sua última temporada em 2013 e só fui começar a ver a série dois anos depois.

Com La Casa de Papel, foi bem parecido.

Primeiro, tive preguiça da série. Agora, depois de maratonar as 4 temporadas nas últimas semanas, entrei para o time que fala sobre ela nas redes sociais.

Um detalhe que pode passar despercebido é que, antes do sucesso, a série fracassou.

Hoje, La Casa de Papel é a produção da Netflix mais vista na história da França, Itália, Argentina, Chile, Brasil e Portugal.

Porém, quando foi lançada, os episódios eram transmitidos apenas em um canal de TV aberta na Espanha, Antena 3. A série não emplacou, sua audiência caiu muito desde a estreia e todo o elenco se despediu quando terminaram as filmagens da 2ª temporada.

Terminava ali a série espanhola.

Foi nesse momento que a Netflix comprou a série e a adicionou ao seu catálogo.

No início, não houve qualquer ação de marketing. Apenas uma capa a mais para as pessoas navegarem e encontrar na plataforma de streaming.

Por isso, nem os mais otimistas do elenco esperavam que a série se transformasse no fenômeno que se tornou.

E, se ela não precisou de marketing, foi porque o próprio Storytelling e a construção narrativa de La Casa de Papel cumpriram esse papel.

Se você ainda não assistiu, prometo evitar spoilers para preservar sua experiência com a série e te incentivar a abrir a Netflix assim que terminar a leitura.

Se já assistiu e gostou, este artigo vai esclarecer alguns bastidores que justificam o sucesso da produção espanhola.

Vamos desconstruir juntos alguns princípios do Storytelling usados na série, que ajudaram na construção do fenômeno mundial que La Casa de Papel se tornou.

Uma breve sinopse para quem não viu

Um grupo de oito ladrões e seu líder, que atende pelo nome de Professor, decide executar o maior roubo da história — ao invadir a Casa da Moeda da Espanha — após cinco meses reunidos planejando e antecipando tudo o que poderia acontecer durante o roubo.

A narrativa mostra sempre duas fases diferentes: o planejamento e a execução do roubo, além de trazer alguns flashbacks com lembranças dos personagens.

Dessa forma, temos sempre um paralelo entre o que foi pensado e o que, de fato, aconteceu.

Se pensarmos em “filmes de assalto” famosos, existe um certo clichê de um roubo espetacular acompanhado de um plot twist — uma reviravolta na trama que leva a história para outra direção.

Claro que existem exceções, mas os 11, 12 ou 13 homens e seus segredos não me deixam mentir.

Só que, em La Casa de Papel é diferente.


“Por muito tempo, havia uma regra não escrita de que os filmes de ação eram vazios e superficiais, e os filmes mais íntimos e sensíveis eram chatos. Nós mesclamos os dois conceitos.”

— Álex Pina, Criador Produtor Executivo e Roteirista


Os personagens

O roubo espetacular e a reviravolta podem impressionar, mas não criam uma conexão entre o público e o filme (ou série). Uma forma de se fazer isso é com os personagens.

E a série aproveita muito bem o tempo maior de tela, se comparada a um filme, para mostrar os bastidores dos personagens no momento certo.

Logo de cara, sabemos que eles estão envolvidos com a invasão da Casa da Moeda. Aos poucos, conhecemos o passado de cada um e o qual foi a motivação para fazê-los roubar a Casa da Moeda.

Uma prova de como a narrativa faz isso bem e no timing perfeito é Berlim — interpretado por Pedro Alonso. Ao nos apresentar seu passado, La Casa de Papel transforma um dos personagens mais desprezíveis da trama em um dos mais queridos pelo público.

Cada um dos personagens principais tem, pelo menos, uma qualidade e uma fraqueza apresentadas. Da mesma forma que os admiramos, nos identificamos com eles.

Nesse caso, o melhor exemplo é o Professor. Um gênio, idealista e com uma capacidade de planejamento fora de série. Ao mesmo tempo, apresenta vários traços do típico nerd, com dificuldades para interagir e socializar.

Esse é um dos primeiros passos da série para nos fazer enxergar que ela vai além de apenas um roubo.

Mas não é isso que nos deixa vidrados diante da tela para maratonar os episódios.

O conflito

La Casa de Papel é um verdadeiro duelo de xadrez entre o grupo liderado pelo Professor e a polícia, com a possibilidade constante de algo dar errado e comprometer o plano.

Esse é o conflito externo da série, com a disputa entre personagens.

Além dele, acompanhamos e conhecemos também os conflitos internos dos protagonistas.

E o ponto-chave da série: o conflito extra-pessoal.

Com o roubo, o grupo não está interessado apenas no dinheiro. E quando invadem a Casa da Moeda, eles não declaram guerra apenas contra a polícia, mas contra o sistema.

A luta, então, se torna filosófica — contra injustiças da sociedade.

Quando o Professor faz as contas de quanto os bancos da Espanha faturaram no ano anterior e pergunta se era justo, isso fica evidente.

Na própria história, o grupo de ladrões entende que, se roubassem a instituição Casa da Moeda sem maltratar os reféns e expondo suas fraquezas, a opinião pública ficaria a favor deles.


“Imaginem uma partida de futebol da Copa: Brasil contra Camarões. Quem ganha? Melhor ainda, quem vocês querem que ganhe? Camarões? Se perceberem, instintivamente, o ser humano sempre fica do lado dos mais fracos, dos perdedores. Então, se a gente quer mostrar para o mundo as nossas fraquezas, as nossas feridas, que estamos quase nos rendendo, vamos criar uma comoção.”

— Trecho parafraseado do vídeo a seguir.


Nesse ponto, a série já teria uma trama fantástica e conseguiria prender bastante a atenção de qualquer pessoa que apertasse o play ao encontrá-la no catálogo da Netflix.

Mas provavelmente não teria se tornado o fenômeno mundial que se tornou.

A simbologia

La Casa de Papel tem uma cor marcante, com o vermelho aparecendo tanto nos macacões do grupo, quanto na fotografia da série.

Tem também um escudo, ou uma máscara, com o rosto de Salvador Dalí.

E um hino, com a canção Bella Ciao — que representou a resistência antifascista italiana e foi resgatada pela série.

Depois de se identificar com os personagens e comprar sua causa — pela resistência e luta contra o sistema —, as pessoas passaram a usar a simbologia de La Casa de Papel em suas próprias causas e manifestações, com direito a trilha sonora.

Em agosto de 2019, mais de 80 imigrantes retidos em navio desembarcaram na Itália cantando Bella Ciao.

Torcidas de futebol se inspiraram na série.

A fantasia dos assaltantes se transformou em uniforme para protestos e manifestações.

E no fim das contas, os mesmos princípios e ideias que funcionam no desenvolvimento da trama de La Casa de Papel construíram a marca e fizeram o marketing da série.

Foi o próprio público quem fez o sucesso de La Casa de Papel.

Porque as pessoas que encontraram a capa da produção espanhola no catálogo da Netflix, quando ela foi adicionada por lá sem qualquer ação de marketing, fizeram questão de espalhar a palavra do Professor e seu grupo de ladrões.


“Cada pessoa pode usar um macacão vermelho, a máscara de Dalí e a ‘Bella Ciao’ para sua própria luta.”

— Jesús Colmenar, Diretor e Produtor Executivo da série


Se você já viu La Casa de Papel, concorda comigo? Ficou com vontade de assistir à série de novo?

Se ainda não assistiu, vale separar a pipoca para o final de semana e maratonar a série. Inclusive, uma dica extra: acostume-se a pausar os episódios no meio em vez de parar de ver apenas no final. Porque praticamente todos os episódios exploram demais a técnica de cliff hanger — deixando o final em aberto para te incentivar a começar o próximo episódio. 

E claro, agora é a sua vez de me dizer:

Conhece alguma outra série (ou filme) que a narrativa foi tão bem trabalhada a ponto de dispensar o marketing? Me conta aí nos comentários.

Quem sabe ela não aparece por aqui em um próximo artigo?

Principais referências utilizadas:

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Parasita: o que tem de tão diferente no filme que fez história no Oscar 2020? https://dimitrivieira.com/parasita-oscar-2020/ https://dimitrivieira.com/parasita-oscar-2020/#respond Mon, 10 Feb 2020 11:19:37 +0000 https://dimitrivieira.com/?p=775 Quando comecei a escrever este texto no domingo, a cerimônia do Oscar ainda não tinha acontecido. Meu objetivo final com o artigo era pontuar que a Academia ainda não estava preparada para reconhecer um filme como Parasita e te convidar para assistir, pela incrível experiência que ele proporciona.

Quebrei a cara, mas por um belo motivo. Foi um daqueles momentos em que faz bem estar errado. Além da premiação ter facilitado consideravelmente meu trabalho de “vender” o filme por aqui.

O grande vencedor do Oscar 2020 — que levou para casa os prêmios de melhor filme, roteiro original, filme internacional e direção — é um filme daqueles que não saem da sua cabeça tão fácil.

Se você me perguntar, Parasita está facilmente entre os melhores filmes da década, acompanhado por Coringa. Não à toa, também escrevi sobre ele por aqui.

Como assisti ao filme sul-coreano no último sábado, ainda estou de certa forma em estado de choque processando os acontecimentos. E a melhor forma de fazê-lo é colocando as ideias no papel — pelo menos é o que funciona para mim.

A sinopse do grande vencedor do Oscar 2020 é bem simples:

“Toda a família de Kim Ki-woo está desempregada, vivendo em um porão sujo e apertado, mas uma obra do acaso faz com que ele comece a dar aulas de inglês à Park Da-hye, filha de uma família bem rica. Fascinados com a vida luxuosa destas pessoas, toda a família bola um plano para se infiltrar também na família Park. No entanto, os segredos e mentiras necessários à ascensão social custam caro a todos.”

O segredo está na linda construção da trama e como cada elemento do filme é trabalhado de forma planejada. Tudo o que vemos na tela tem um sentido para estar ali, ou mesmo um forte simbolismo.

Confesso que precisei me conter para evitar spoilers neste texto e preservar sua experiência com o filme, caso ainda não tenha visto.

A vontade era dissecar a obra inteiro, mas, para não estragar sua experiência, faremos isso apenas com a introdução.

O começo no subsolo

Todo grande filme traz uma abertura marcante e aqui não é diferente. Logo na primeira sequência, o diretor Bong Joon-ho mostra alguns componentes que serão fortes temas no filme.

A primeira imagem que vemos, ainda com os créditos iniciais aparecendo, é de uma pequena janela.

Em seguida — com o movimento da câmera — mergulhamos no subsolo e somos apresentados ao protagonista, Kim Ki-woo, em sua residência.

Nesses poucos segundos, sabemos que ele mora em um semi-porão. Um tipo de residência comum na Coreia do Sul, característico por ser metade acima do solo e metade abaixo. Kim Ki-woo e sua família estão sempre em uma posição inferior, sendo forçados a olhar para cima para ter um pequeno vislumbre do que é estar acima do solo.

Enquanto o protagonista procura pelo ponto da casa onde é possível usar o wi-fi do vizinho, somos apresentados à sua irmã mais nova, sua mãe e seu pai.

Ki-woo encontra um ponto de acesso à internet no local mais elevado da casa: bem ao lado da privada — uma pequena amostra do simbolismo que a água terá no filme.

Logo depois, vemos que a família Kim se sustentava à base de subempregos que estavam a seu alcance, como dobrar caixas de pizza.

Após receber o pagamento, eles se reúnem para jantar e comemorar o telefone reinstalado, agora que conseguiram pagar a conta, quando o pai anuncia “olha aquele desgraçado de novo”. Um bêbado se aproximava da janela do sub-porão para urinar.

Novamente, temos um indício do simbolismo da água.


“Neste filme, a água (incluindo a urina) representa infortúnio e desastre. Infelizmente, a água sempre flui de cima para baixo, nunca o contrário. A água flui do bairro rico para o bairro pobre. Esse é um elemento realmente trágico deste filme.

Bong Joon-ho


Alegorias e simbolismos muito bem construídos

Quando ouço dizer que um filme é bom pelo seu simbolismo, já desenvolvo uma certa desconfiança.

Na minha opinião, um bom filme simbólico precisa funcionar dentro da alegoria criada e também no sentido literal. Se faz sentido apenas no campo virtual ou exige uma pesquisa ao final para entendê-lo, ele já perde alguns pontos comigo.

Com Parasita, não é o caso. O filme funciona perfeitamente sem os simbolismos, mas fica ainda mais rico com eles. E por mais que não sejam tão simples, a construção é tão fluida e bem feita, que eles acabam surgindo naturalmente.

A água é o melhor exemplo para evitar spoilers, mas fique de olho nas escadas e rampas que elas também são muito mais que estruturas físicas em Parasita.

Agora, como a construção é tão bem feita?

Pistas, recompensas e armas escondidas

Existe um artifício narrativo chamado Arma de Checkhov:


“Se uma arma está pendurada na parede no primeiro ato, no próximo, ela deve ser disparada. Caso contrário, nem a pendure lá.”

— Anton Checkhov


Basicamente, essa ideia de esconder a arma pode ser aplicada de duas maneiras.

A primeira e mais simples é levá-la ao pé da letra. Você apresenta algo de forma desinteressada, como quem não quer nada. Depois que o interlocutor já se esqueceu desse elemento, ele é resgatado para contribuir com a resolução da trama.

A segunda — e mais complexa — é trazer um sentido para tudo o que aparece na tela e nos diálogos. Além de usar falas e elementos simples para dar pistas do que está por vir.

Parasita trabalha das duas formas, principalmente da segunda. Toda vez que uma personagem sugere que algo vai acontecer, pode ter certeza, é um indício do que está por vir.

E assim, quando a recompensa chega, em forma de uma quebra de expectativa ou de uma surpresa, ela acontece de forma natural e não prejudica o andamento do roteiro.

Transição entre diversos gêneros

Graças à essa naturalidade, o filme transita entre inúmeros gêneros com enorme facilidade. 

Nas primeiras cenas no semi-porão, Parasita dá indícios que seria um drama familiar. Depois entra na comédia, enquanto a família Kim encaixa uma série de falcatruas para se infiltrar como trabalhadores na casa dos Park.

Quando finalmente estão infiltrados, temos uma nova virada com um crescimento constante da tensão.

Para o suspense.

Para o thriller.

E ainda com elementos de terror.

Críticas sociais e a batalha entre classes

O que também acompanha a tensão crescendo aos poucos são as críticas sociais.

Elas começam bem sutis e mais focadas no conflito entre pobres e ricos. Mas não param por aí.

“O que realmente diferencia este filme de outros que lidam com ricos e pobres é que você raramente vê os pobres brigando entre si. É algo triste, mas também engraçado e tolo ao mesmo tempo.”

Bong Joon-ho

Nos momentos em que a tensão cresce, Bong Joon-ho transita entre gêneros e usa principalmente a comédia para inserir temas como a disputa e a desigualdade entre classes.

Assim, Parasita pega o público desprevenido para discutir temas que as pessoas não estão tão dispostas a discutir abertamente no dia a dia. E o melhor, faz isso sem tomar partido.


“Se o filme for um teste de Rorschach de quem você identifica como parasita e hospedeiro, é um teste em que você provavelmente vai falhar.”

Leah Greenblatt

Test Request GIF

Ainda que seja mais simples enxergarmos a família Kim como os parasitas da trama, uma vez que tudo começa com eles se infiltrando na casa e na vida dos Parks. Da mesma forma que um parasita faz com seu hospedeiro.

Porém, como o próprio diretor afirma:


“Em termos de trabalho, os ricos podem ser considerados parasitas. Eles agem como sanguessugas e se aproveitam do trabalho de outras pessoas para tudo, desde dirigir até tarefas domésticas. Embora paguem em dinheiro, vivem do trabalho de outras pessoas.

Bong Joon-ho


A tensão segue crescendo e te deixa atormentado para acompanhar o desfecho de toda a história. E quando esse desfecho finalmente chega, ele faz jus a todo o filme.

A cena final é um espetáculo à parte. Um último tapa na cara caprichado, dado com o mesmo carinho e cuidado usados em todo o roteiro.

E assim, Parasita é tudo o que você ouviu sobre o filme até agora e um pouco mais. Digno de todos os prêmios que recebeu, ele proporciona uma experiência única.

Divertido. Engraçado. Perturbador. Inesquecível.

Quando os créditos tomam a tela preta e retomamos a realidade, vem o choque do quanto toda a trama é surreal — e ao mesmo tempo, real. Por mais bizarra que ela seja, o desfecho deixa escancarado que bizarro mesmo é a realidade.

Essa é a parte mais assustadora. 

Notas finais

Como mencionei na introdução, comecei a escrever este antes do Oscar e não acreditava que Parasita levaria o Melhor Filme. Havia apostado minhas fichas em 1917, junto da maioria das críticas e reviews, e acabei quebrando a cara hehe.

Então, precisei fazer alguns ajustes — principalmente na conclusão.

Em vez de criticar, vale parabenizar a Academia pelo feito inédito. É um forte indício de que o Oscar está deixando de seguir os mesmos padrões de sempre e a vitória de Parasita pode tranquilamente se tornar um marco na história.

Parabéns também ao Bong Joon-ho pelo incrível feito. E muito obrigado por ter aberto meus olhos para o cinema coreano. A partir de hoje, certamente prestarei mais atenção nos próximos trabalhos do diretor e seus conterrâneos.

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Coringa e o Storytelling: as principais técnicas de narrativa que justificam toda a obsessão pelo filme https://dimitrivieira.com/coringa-e-o-storytelling/ https://dimitrivieira.com/coringa-e-o-storytelling/#respond Wed, 30 Oct 2019 12:48:19 +0000 https://dimitrivieira.com/?p=562 Grande filme de 2019 até então, Coringa é um estudo de personagem focado em um dos vilões mais icônicos e imprevisíveis dos quadrinhos. Só que dessa vez, a fantasia se mistura com realidade.

O personagem não enlouquece após cair no ácido, ele descende lentamente até a loucura.

De uma forma tão bem trabalhada que nos faz desenvolver compaixão, empatia e até mesmo identificação com um vilão — algo que não é tão comum no cinema.

A produção do diretor Todd Phillips também fez questão de não entregar nada muito mastigado nas mãos da audiência, além de deixar várias questões em aberto intencionalmente.

Tudo isso incita a discussão em torno do filme e justifica tanto seu sucesso, quanto a obsessão criada em torno de Coringa desde seu lançamento.

E faz também com que a obra se torne uma excelente fonte de estudo sobre Storytelling. Desconstruindo o filme e analisando as principais técnicas de narrativa utilizadas, podemos entender melhor o por quê de toda a repercussão.

Show, don’t tell e a atenção aos detalhes

No momento em que os trailers se encerram e as luzes do cinema se apagam em definitivo, é possível notar a preocupação com os detalhes em Coringa.

Em vez do atual logo da Warner Bros, vemos o que a produtora utilizava nas décadas de 70 e 80 — para assegurar, logo de cara, a ambientação do filme no ano de 1981.

Na transição para a primeira cena, enquanto Joaquin Phoenix surge, o rádio aparece para nos contextualizar:

  • 18.º dia da greve dos lixeiros de Gotham;
  • 10 mil toneladas de lixo se acumulam todos os dias e mesmo as principais regiões da cidade estão parecendo pântanos;
  • pela primeira vez em dez anos, o comissário de saúde declara estado de emergência.

Enquanto isso, temos nosso primeiro contato com Arthur Fleck. Isolado das demais pessoas que conversam na sala, ele finaliza sua maquiagem e ensaia um sorriso.

Por mais que se esforce e force, o sorriso não vem natural. E a lágrima que escorre pelo seu rosto, enquanto ele estica a própria boca com os dedos indicadores, já diz muito.

Socialmente deslocado, Arthur acredita que sua missão é trazer alegria ao mundo, mas não consegue manter um sorriso no próprio rosto.

Isso é o Show, don’t tell na essência. Em vez de apenas falar — como no rádio — o filme mostra e aposta nos detalhes para que possamos construir nossa própria percepção.

Basta lembrar da forma com que somos apresentados à risada patológica do protagonista e temos outro exemplo dessa técnica.

Na sessão de terapia, temos uma breve amostra, que soa como um desabafo, ou uma forma de descarregar as dores acumuladas.

Em seguida, na cena do ônibus, vemos a risada incontrolável se manifestando pela primeira vez — num momento em que Arthur se sentiu reprimido, constrangido e desconfortável.

Não acompanhamos nenhuma conversa ou diagnóstico sobre a risada. Apenas acompanhamos ela surgindo e tiramos nossas próprias conclusões.

A técnica se repete na primeira fantasia de Arthur, quando ele se imagina participando do show de Murray Franklin. E está presente em todo o filme.

Dessa forma, Coringa ultrapassa o que um mero entretenimento ofereceria e se transforma numa experiência de imersão na vida do protagonista.

Importância da música e da dança

A trilha sonora é um elemento que poderia ser apenas um detalhe no filme, mas com o cuidado recebido, ganha a importância de um personagem.

Todas as músicas originais do filme foram compostas e gravadas pela islandesa Hildur Guðnadóttir antes da filmagem, tomando o roteiro como base. Todd Phillips queria que a música tivesse uma participação ativa no set de Coringa e o resultado foi exatamente esse.

Joaquin Phoenix as Arthur Fleck in Warner Bros. Pictures, Village Roadshow Pictures and BRON Creative's <em>Joker</em>.

Na dança, Arthur encontra um ato de libertação. Ele não se relaciona tão bem com nenhum outro personagem da trama, quanto se relaciona com a música.

Compaixão, identificação e fascínio pelo vilão

Sou apenas eu ou o mesmo está ficando mais louco?

Acompanhamos Arthur de perto em toda a história — algumas vezes como um observador e outras, pela perspectiva dele próprio. Estamos imersos na rotina e na mente do protagonista.

Quando ele é espancado, testemunhamos de perto a ponto de sentirmos a sua dor. Quando ele ri, nos sentimos igualmente deslocados e desconfortáveis. E quando ele delira, deliramos junto.

Essa narrativa pela perspectiva de um protagonista delirante remete ainda ao narrador não confiável da literatura. Ou seja, não conseguimos ter certeza do que realmente aconteceu e do que foi apenas fantasia de um paciente psiquiátrico.

Além de nos iludir, essa proximidade facilita nossa conexão com Arthur Fleck. Sentimos compaixão por ele e, em diversos momentos, também nos identificamos com o personagem.

Em qualquer contexto e situação, Arthur é um outsider — ele ri nas horas erradas, não consegue se encaixar na sociedade e está sempre deslocado.

Com o desconforto dessas ocasiões, nos identificamos. Com sua não realização profissional, também. Porque são situações que todos vivenciamos.

Em alguns momentos, a linha entre a identificação e a compaixão se torna tênue. Em outros, ela é mais clara.

Após assassinar os dois primeiros rapazes no metrô — ainda em legítima defesa — Arthur persegue o terceiro e, nesta hora, não há identificação. Apenas compaixão. Nós até entendemos a escolha dele, mas não nos vemos em seu lugar.

Nesse ponto, entra o fascínio pelo vilão. Nós abrimos mão dos nossos instintos por convenções sociais e por um esforço civilizatório, mas o vilão não. Ele vive conforme suas próprias regras e, por isso, se torna tão fascinante.

Quando vemos Arthur perseguir o 3.º rapaz, estamos, ao mesmo tempo, aterrorizados e fascinados.

Depois de cometer os assassinatos e fugir, o protagonista se tranca em um banheiro público e… dança. Naquele momento, ele começa a abraçar as consequências de suas atrocidades como algo natural.

“Às vezes, não sei o que fazer. Na última vez, acabei descontando isso em algumas pessoas. Eu pensei que isso iria me incomodar, mas realmente não me incomodou.”

O conflito como foco principal

Quando vamos ver Coringa, já temos em mente qual será seu desfecho — o próprio título funciona como um spoiler.


“Só é preciso um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático. Essa é a distância entre o mundo e eu: apenas um dia ruim.”

— Alan Moore, Piada Mortal


Em vez de apenas um dia ruim que o leva à loucura, Arthur tem uma vida de dias ruins — um grande conflito que acaba por transformá-lo no Coringa.

A grande maioria dos filmes e histórias se divide em três atos:

  1. Contexto;
  2. Conflito;
  3. Resolução.

E a obra de Phillips foca no 2.º — um ponto-chave para desenvolvermos empatia pelo personagem. Além de prender nossa atenção durante todo o filme, nos deixando sempre ansiosos e angustiados com o que virá na sequência.

A própria apresentação do protagonista se mistura com o conflito, como o filme mesmo anuncia:

Tudo deve ir.

E realmente, tudo se vai.

Seguindo uma premissa bem parecida com a de Clube da Luta, acompanhamos Arthur perder tudo antes de se tornar livre.

O acompanhamento da assistente social, os remédios, o emprego, o sonho de ser comediante e o amparo materno. Ele ainda encontra duas figuras paternas e perde ambas, quando é rejeitado e ridicularizado por Thomas Wayne e Murray Franklin.

Cada um dos pilares que sustentava Arthur vai ruindo, até que ele desaba de vez. E depois de uma vida carregada, cabisbaixa e sofrida, ele dança para se libertar e descende à loucura numa das cenas mais icônicas do filme.

Um reflexo da realidade

Numa música de Ben Caplan, ele diz que a arte funciona como uma lente para focar nossa vista. Não basta olhá-la, precisamos enxergar através dela. Em Coringa, essa lente é um espelho — esférico e côncavo, eu diria.

Embora se passe em 1981, o filme é um grande reflexo da nossa realidade — ampliada e levemente distorcida para se adequar ao universo de Gotham, que representa o caos das grandes metrópoles.

O conflito social retratado em Coringa é fortemente inspirado no contexto atual — principalmente o norte-americano —, em que as elites deixam as pessoas diferentes de lado.

Isso é claramente ilustrado na figura de Thomas Wayne. Retrato tão fiel de Donald Trump que faltou apenas seu slogan de campanha para prefeito ser Make Gotham great again.

No filme, essa tensão social fica bem representada no protesto que acontece na porta de um teatro.

Enquanto as pessoas se aglomeram para protestar, Thomas Wayne e a elite estão isolados assistindo ao filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin. Mais um detalhe que engrandece o trabalho de Phillips, pela ironia da obra de Chaplin — uma forte crítica ao sistema capitalista — se tornar entretenimento para os privilegiados.

Diante do caos da sociedade, Arthur Fleck se torna um agente do caos. Porém, o filme não o isenta de culpa e deixa claro que ele toma as decisões por ele próprio. No embate com Murray Franklin, isso fica evidente.

O Coringa tenta explicar racionalmente por que matou os jovens no metrô e ainda acusa o apresentador de ser “horrível”. Quando Murray retruca, alegando que seu discurso era apenas vitimismo e autopiedade, o vilão apela para a loucura.

“O que você recebe… quando cruza com um doente mental solitário numa sociedade que o abandona e o trata como lixo?”

Diante de toda a polêmica discussão em torno do filme se ele é perigoso por romantizar e incentivar a violência, deixamos passar um ponto muito importante.

Ao culpar Coringa e apontar o dedo para a sociedade, esquecemos que nós somos a sociedade. Nós somos as pessoas desconectadas e desconfiadas que acabam por isolar Arthur Fleck. E nós somos também os potenciais Coringas.

Não basta olhar para a lente. É preciso olhar através dela.

“That’s life and as funny as it may seem

Some people get their kicks

Stompin’ on a dream

But I don’t let it, let it get me down

‘Cause this fine old world it keeps spinnin’ around”

Referências e inspirações:

 

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