{"id":909,"date":"2020-05-14T13:43:27","date_gmt":"2020-05-14T13:43:27","guid":{"rendered":"https:\/\/dimitrivieira.com\/?p=909"},"modified":"2021-05-18T15:24:56","modified_gmt":"2021-05-18T15:24:56","slug":"johnny-cash-garoto-chamado-sue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dimitrivieira.com\/dimitri26\/johnny-cash-garoto-chamado-sue\/","title":{"rendered":"Johnny Cash, a luta para superar a maior trag\u00e9dia em sua vida e um garoto chamado Sue"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro contato que tive com Johnny Cash, suas m\u00fasicas e sua hist\u00f3ria foi gra\u00e7as ao filme Johnny &amp; June, lan\u00e7ado em 2005 quando eu tinha apenas 13 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi o bastante para iniciar um relacionamento sazonal que tenho com suas m\u00fasicas desde ent\u00e3o. <strong>De tempos em tempos, me vejo investigando sua discografia novamente<\/strong> e toda vez encontro algo in\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma m\u00fasica que ainda n\u00e3o conhecia, ou uma letra que ainda n\u00e3o havia me chamado tanto a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre todos os cantores e compositores que conhe\u00e7o,<strong> Johnny Cash \u00e9 de longe um dos melhores em letras de m\u00fasica \u2014 ao lado do Bob Dylan.<\/strong> A profundidade e o detalhamento que eles entregam s\u00e3o impressionantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dois conseguem tratar assuntos triviais de maneira profunda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E tamb\u00e9m contam hist\u00f3rias completas, com direito at\u00e9 mesmo a reviravoltas, com a mesma facilidade como se estivessem falando de assuntos triviais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Basta tirar um tempo para analisar as letras de m\u00fasicas como <em>Folsom Prison Blues <\/em>ou <em>Hurricane <\/em>para ter um exemplo disso. \u00c9 de dar inveja em qualquer escritor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferente de Bob Dylan, Cash tamb\u00e9m tinha uma performance e uma entrega invej\u00e1veis em todas as m\u00fasicas que escolhia tocar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelo lado de Dylan, \u00e9 bem comum descobrirmos que uma m\u00fasica apresentada por outro artista, na verdade, era dele. Com Cash, acontece o contr\u00e1rio: <strong>qualquer m\u00fasica que ele escolhe tocar, voc\u00ea tem certeza que foi ele quem escreveu.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><p>Dois excelentes exemplos disso s\u00e3o <em>Ring of Fire <\/em>e <em>Hurt <\/em>\u2014 escritas por June Carter e Trent Reznor. Ou ainda <em>A Boy Named Sue<\/em>, que ser\u00e1 o nosso foco aqui.<\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Johnny Cash - A Boy Named Sue (Legendado)\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/C7YmcbpdBcY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 id=\"um-garoto-chamado-sue\" class=\"wp-block-heading\"><em>Um garoto chamado Sue<\/em><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escrita por Shel Silverstein, a m\u00fasica narra a hist\u00f3ria de um garoto que cresceu apenas com sua m\u00e3e, ap\u00f3s seu pai abandon\u00e1-los quando tinha apenas 3 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>As \u00fanicas coisas deixadas por seu pai foram um viol\u00e3o velho, uma garrafa de bebida vazia e seu nome: <\/strong><strong><em>Sue<\/em><\/strong> \u2014 um poss\u00edvel apelido para Susan ou Susanna e, definitivamente, um nome feminino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, o garoto cresceu sofrendo com o <em>bullying <\/em>e as piadas de mau gosto, vendo-se for\u00e7ado a amadurecer mais r\u00e1pido para superar tudo isso e focado em se vingar de seu pai:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cMeu punho ficou forte e minha intelig\u00eancia ficou agu\u00e7ada. Eu vagava de cidade em cidade para esconder minha vergonha, mas fiz um voto para a lua e as estrelas: que eu procuraria em todos os bares at\u00e9 encontr\u00e1-lo e mataria aquele homem que me deu esse nome horr\u00edvel.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse encontro acontece ap\u00f3s Sue encontrar seu pai em um bar e reconhec\u00ea-lo de uma foto antiga que sua m\u00e3e tinha, gra\u00e7as \u00e0 cicatriz em sua bochecha. E os dois come\u00e7am uma briga no melhor estilo dos filmes de faroeste norte-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a diferen\u00e7a que n\u00e3o termina num duelo entre os dois, mas com Sue apontando uma arma para seu pai, que faz a seguinte revela\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>&#8220;Filho, este mundo \u00e9 dif\u00edcil e para um homem triunfar, ele precisa estar preparado. Eu sabia que n\u00e3o estaria l\u00e1 para ajud\u00e1-lo, ent\u00e3o te dei esse nome e me despedi. Sabia que voc\u00ea teria que amadurecer, ou morrer. E foi o nome que ajudou a torn\u00e1-lo forte.<\/em><\/p><p><em>Agora, voc\u00ea acabou de travar uma luta e tanto. Sei que voc\u00ea me odeia e tem o direito de me matar. Eu n\u00e3o te culparia se voc\u00ea o fizesse, mas antes voc\u00ea deveria me agradecer por toda a sua for\u00e7a e resist\u00eancia, porque eu sou o filho da puta que te deu o nome de Sue.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No \u00faltimo ato, <strong>Sue sente-se realizado por confrontar seu pai, o perdoa e desiste de mat\u00e1-lo, finalizando a m\u00fasica com uma reflex\u00e3o sobre como ele batizaria seu filho:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cE se algum dia, eu tiver um filho, acho que vou batiz\u00e1-lo&#8230;<\/em><\/p><p><em>De Biil ou George! Qualquer coisa que n\u00e3o seja Sue! Ainda odeio esse nome!\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso em pouco mais de 3 minutos de m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, vale prestar aten\u00e7\u00e3o na forma como Johnny Cash apresenta esses \u00faltimos versos: \u00e9 s\u00f3 adiantar o v\u00eddeo para 3:23, ou <a href=\"https:\/\/youtu.be\/C7YmcbpdBcY?t=203\">clicar aqui<\/a> se preferir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ele esbraveja tanto, mas tanto, que parece engasgar ao final do v\u00eddeo.<\/strong> Eu disse que a entrega dele era impressionante, mas ser\u00e1 mesmo que tudo isso \u00e9 apenas performance?<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"um-garoto-chamado-johnny\" class=\"wp-block-heading\">Um garoto chamado Johnny<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea tamb\u00e9m assistiu ao filme Johnny &amp; June, provavelmente se lembra que Johnny Cash tinha uma rela\u00e7\u00e3o bastante complicada com seu pai, Ray Cash.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para n\u00e3o prolongar muito a ponto de transformar o artigo em um texto biogr\u00e1fico, vamos dizer que <strong>seu pai era um veterano da Primeira Guerra Mundial, absurdamente conservador e trabalhador \u2014 um retrato t\u00edpico do sulista norte-americano de 1920.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de jamais ter incentivado a carreira na m\u00fasica de Johnny Cash, Ray claramente tinha um filho preferido: Jack Cash, que tinha tudo para se tornar um pastor e <em>o filho bem-sucedido da fam\u00edlia<\/em> \u2014 pelas defini\u00e7\u00f5es de seu pai, \u00e9 claro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, Jack n\u00e3o viveu o bastante para realizar os desejos de seu pai. V\u00edtima de um acidente com uma serra de madeira, ele faleceu em 1944, quando Johnny tinha apenas 12 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ray chegou a se entregar ao alcoolismo e se tornou t\u00e3o amargurado que passou a ressentir seu filho sobrevivente. <strong>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o filho certo. Voc\u00ea deveria ter morrido\u201d foram algumas palavras que marcaram a inf\u00e2ncia de Johnny.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele cresceu sentindo-se desmerecedor de ser ele mesmo e sabia que, por mais que se esfor\u00e7asse, jamais corresponderia ao que seu pai gostaria que ele fosse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu nome de batismo era comum, John, mas <strong>as marcas que seu pai deixou em sua inf\u00e2ncia o fizeram aprender o que era sofrimento, o que era se sentir perdido e deslocado. Ele se tornou o filho que devia ter morrido.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A beleza de Johnny Cash \u00e9 sua capacidade de levar isso para as m\u00fasicas, provando seu valor n\u00e3o apenas para seu pai, mas para uma sociedade incapaz de aceitar pessoas oprimidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele sempre cantou para aqueles que precisavam acreditar em algo para se reerguer e, por fim, construiu uma linda carreira como cantor por causa de Ray Cash, ou apesar dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da mesma forma que, em seu primeiro casamento, Johnny se tornou um pai ausente e viciado. <strong>De tanto evitar se parecer com Ray, nos anos 60 ele caminhava para se tornar um p\u00e9ssimo pai para seus filhos \u2014 em seus pr\u00f3prios moldes.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rela\u00e7\u00e3o entre os dois nunca deixou de ser complicada. Em sua primeira autobiografia, <em>Man in Black<\/em>, lan\u00e7ada em 1975, Cash chega a perdoar seu pai. Mas na segunda, <em>Cash: The Autobiography, <\/em>de 1997, vemos que ele continuava ressentido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, pode-se dizer que ele passou a entender melhor a perspectiva de Ray, mas n\u00e3o a ponto de perdo\u00e1-lo inteiramente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta \u00e0 m\u00fasica <em>A Boy Named Sue<\/em>, <strong>n\u00e3o era sempre que Johnny Cash encerrava sua apresenta\u00e7\u00e3o esbravejando da forma que vimos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era comum ele brincar com a letra e trocar o desfecho da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Johnny Cash - A Boy Named Sue (from Man in Black: Live in Denmark)\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YJ3tFPTUhAE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(3:11 ou <a href=\"https:\/\/youtu.be\/YJ3tFPTUhAE?t=191\">clique aqui<\/a>.)<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cE se algum dia, eu tiver um filho, acho que vou batiz\u00e1-lo&#8230;<\/em><\/p><p><strong><em>em sua homenagem.<\/em><\/strong><em>\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com uma pequena dose de suspense (ou hesita\u00e7\u00e3o), uma \u00fanica frase trocada d\u00e1 um novo sentido para o desfecho da m\u00fasica. Dessa vez, o protagonista vai muito al\u00e9m de compreender seu pai e respeita sua decis\u00e3o a ponto de homenage\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na psican\u00e1lise, atos falhos (ou letras trocadas) s\u00e3o atribu\u00eddas ao subconsciente e recebem o nome de parapraxia. Ou seja, <strong>situa\u00e7\u00f5es como essa, especialmente numa m\u00fasica tocada com tanta frequ\u00eancia, dizem muito mais do que parecem dizer.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda vez que escutamos Johnny Cash tocando <em>A Boy Named Sue<\/em>, estamos diante de muito mais do que uma mera apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que testemunhamos \u00e9 um homem que teve sua inf\u00e2ncia marcada de forma tr\u00e1gica cantando sobre um garoto confrontando seu pr\u00f3prio pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao incorporar Sue, Cash relembra o acidente que matou Jack e levou Ray a transform\u00e1-lo no filho que devia ter morrido. <strong>No confronto final, ele precisa decidir at\u00e9 que ponto ele compreende seu pr\u00f3prio pai e se \u00e9 capaz de perdo\u00e1-lo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em cada performance da m\u00fasica, vemos isso acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na maioria das vezes, ele termina esbravejando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas vezes, ele chega a homenagear Ray.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, na minha vers\u00e3o favorita, ele encontra n\u00e3o apenas o desfecho ideal, mas tamb\u00e9m se re-encontra.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cE se algum dia, eu tiver um filho, acho que vou batiz\u00e1-lo&#8230;<\/em><\/p><p><strong><em>John Carter Cash.<\/em><\/strong><em>\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"A Boy Named Sue (Live at The White House, Washington D.C., April 17, 1970)\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kJ62IkMm1lM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(3:19 ou <a href=\"https:\/\/youtu.be\/kJ62IkMm1lM?t=199\" class=\"rank-math-link\">clique aqui<\/a>.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Basta ouvir para notar a diferen\u00e7a no tom de voz. Sem esbravejar ou hesitar para fazer suspense, ele declama o \u00faltimo verso em absoluta paz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era 17 de Abril de 1970, Cash se apresentava na Casa Branca com seu pai na plateia (um ano antes de se casar com June Carter) e, nesta data, o filho rec\u00e9m nascido do casal, John Carter Cash, tinha pouco mais de um m\u00eas de vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Longe das drogas e mais dedicado do que nunca \u00e0 sua fam\u00edlia e sua f\u00e9, <strong>nascia um novo Johnny Cash.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um \u00fanico verso, podemos acompanhar essa transforma\u00e7\u00e3o acontecendo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro contato que tive com Johnny Cash, suas m\u00fasicas e sua hist\u00f3ria foi gra\u00e7as ao filme Johnny &amp; June, lan\u00e7ado em 2005 quando eu tinha apenas 13 anos. Foi o bastante para iniciar um relacionamento sazonal que tenho com suas m\u00fasicas desde ent\u00e3o. De tempos em tempos, me vejo investigando sua discografia novamente e toda vez encontro algo in\u00e9dito. Uma m\u00fasica que ainda n\u00e3o conhecia, ou uma letra que ainda n\u00e3o havia me chamado tanto a aten\u00e7\u00e3o. Entre todos os cantores e compositores que conhe\u00e7o, Johnny Cash \u00e9 de longe um dos melhores em letras de m\u00fasica \u2014 ao lado do Bob Dylan. A profundidade e o detalhamento que eles entregam s\u00e3o impressionantes. Os dois conseguem tratar assuntos triviais de maneira profunda. E tamb\u00e9m contam hist\u00f3rias completas, com direito at\u00e9 mesmo a reviravoltas, com a mesma facilidade como se estivessem falando de assuntos triviais. Basta tirar um tempo para analisar as letras de m\u00fasicas como Folsom Prison Blues ou Hurricane para ter um exemplo disso. \u00c9 de dar inveja em qualquer escritor. Diferente de Bob Dylan, Cash tamb\u00e9m tinha uma performance e uma entrega invej\u00e1veis em todas as m\u00fasicas que escolhia tocar. Pelo lado de Dylan, \u00e9 bem comum descobrirmos que uma m\u00fasica apresentada por outro artista, na verdade, era dele. Com Cash, acontece o contr\u00e1rio: qualquer m\u00fasica que ele escolhe tocar, voc\u00ea tem certeza que foi ele quem escreveu. Dois excelentes exemplos disso s\u00e3o Ring of Fire e Hurt \u2014 escritas por June Carter e Trent Reznor. Ou ainda A Boy Named Sue, que ser\u00e1 o nosso foco aqui. Um garoto chamado Sue Escrita por Shel Silverstein, a m\u00fasica narra a hist\u00f3ria de um garoto que cresceu apenas com sua m\u00e3e, ap\u00f3s seu pai abandon\u00e1-los quando tinha apenas 3 anos. As \u00fanicas coisas deixadas por seu pai foram um viol\u00e3o velho, uma garrafa de bebida vazia e seu nome: Sue \u2014 um poss\u00edvel apelido para Susan ou Susanna e, definitivamente, um nome feminino. Ent\u00e3o, o garoto cresceu sofrendo com o bullying e as piadas de mau gosto, vendo-se for\u00e7ado a amadurecer mais r\u00e1pido para superar tudo isso e focado em se vingar de seu pai: \u201cMeu punho ficou forte e minha intelig\u00eancia ficou agu\u00e7ada. Eu vagava de cidade em cidade para esconder minha vergonha, mas fiz um voto para a lua e as estrelas: que eu procuraria em todos os bares at\u00e9 encontr\u00e1-lo e mataria aquele homem que me deu esse nome horr\u00edvel.\u201d Esse encontro acontece ap\u00f3s Sue encontrar seu pai em um bar e reconhec\u00ea-lo de uma foto antiga que sua m\u00e3e tinha, gra\u00e7as \u00e0 cicatriz em sua bochecha. E os dois come\u00e7am uma briga no melhor estilo dos filmes de faroeste norte-americanos. Com a diferen\u00e7a que n\u00e3o termina num duelo entre os dois, mas com Sue apontando uma arma para seu pai, que faz a seguinte revela\u00e7\u00e3o: &#8220;Filho, este mundo \u00e9 dif\u00edcil e para um homem triunfar, ele precisa estar preparado. Eu sabia que n\u00e3o estaria l\u00e1 para ajud\u00e1-lo, ent\u00e3o te dei esse nome e me despedi. Sabia que voc\u00ea teria que amadurecer, ou morrer. E foi o nome que ajudou a torn\u00e1-lo forte. Agora, voc\u00ea acabou de travar uma luta e tanto. Sei que voc\u00ea me odeia e tem o direito de me matar. Eu n\u00e3o te culparia se voc\u00ea o fizesse, mas antes voc\u00ea deveria me agradecer por toda a sua for\u00e7a e resist\u00eancia, porque eu sou o filho da puta que te deu o nome de Sue.\u201d No \u00faltimo ato, Sue sente-se realizado por confrontar seu pai, o perdoa e desiste de mat\u00e1-lo, finalizando a m\u00fasica com uma reflex\u00e3o sobre como ele batizaria seu filho: \u201cE se algum dia, eu tiver um filho, acho que vou batiz\u00e1-lo&#8230; De Biil ou George! Qualquer coisa que n\u00e3o seja Sue! Ainda odeio esse nome!\u201d Tudo isso em pouco mais de 3 minutos de m\u00fasica. Agora, vale prestar aten\u00e7\u00e3o na forma como Johnny Cash apresenta esses \u00faltimos versos: \u00e9 s\u00f3 adiantar o v\u00eddeo para 3:23, ou clicar aqui se preferir. Ele esbraveja tanto, mas tanto, que parece engasgar ao final do v\u00eddeo. Eu disse que a entrega dele era impressionante, mas ser\u00e1 mesmo que tudo isso \u00e9 apenas performance? Um garoto chamado Johnny Se voc\u00ea tamb\u00e9m assistiu ao filme Johnny &amp; June, provavelmente se lembra que Johnny Cash tinha uma rela\u00e7\u00e3o bastante complicada com seu pai, Ray Cash. Para n\u00e3o prolongar muito a ponto de transformar o artigo em um texto biogr\u00e1fico, vamos dizer que seu pai era um veterano da Primeira Guerra Mundial, absurdamente conservador e trabalhador \u2014 um retrato t\u00edpico do sulista norte-americano de 1920. Al\u00e9m de jamais ter incentivado a carreira na m\u00fasica de Johnny Cash, Ray claramente tinha um filho preferido: Jack Cash, que tinha tudo para se tornar um pastor e o filho bem-sucedido da fam\u00edlia \u2014 pelas defini\u00e7\u00f5es de seu pai, \u00e9 claro. Por\u00e9m, Jack n\u00e3o viveu o bastante para realizar os desejos de seu pai. V\u00edtima de um acidente com uma serra de madeira, ele faleceu em 1944, quando Johnny tinha apenas 12 anos. Ray chegou a se entregar ao alcoolismo e se tornou t\u00e3o amargurado que passou a ressentir seu filho sobrevivente. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o filho certo. Voc\u00ea deveria ter morrido\u201d foram algumas palavras que marcaram a inf\u00e2ncia de Johnny. Ele cresceu sentindo-se desmerecedor de ser ele mesmo e sabia que, por mais que se esfor\u00e7asse, jamais corresponderia ao que seu pai gostaria que ele fosse. Seu nome de batismo era comum, John, mas as marcas que seu pai deixou em sua inf\u00e2ncia o fizeram aprender o que era sofrimento, o que era se sentir perdido e deslocado. Ele se tornou o filho que devia ter morrido. A beleza de Johnny Cash \u00e9 sua capacidade de levar isso para as m\u00fasicas, provando seu valor n\u00e3o apenas para seu pai, mas para uma sociedade incapaz de aceitar pessoas oprimidas. 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