A genialidade caótica de um clássico instantâneo: Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo

⚠️ Antes de qualquer coisa, um aviso: não leia este texto se você ainda não viu o filme. Sua experiência e sua sensação ao ver “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” valem muito mais que qualquer análise que você possa encontrar na internet, incluindo a minha. Por isso, nem me darei ao trabalho de escrever uma sinopse para apresentar a trama a quem ainda não viu, como costumo fazer. Não é todo dia que surge um filme com os requintes de um clássico instantâneo. Nos últimos anos, colocaria apenas três dos que assisti nessa classificação: Coringa, Parasita e, agora, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. E a produção mais recente, dirigida por Daniel Kwan e Daniel Scheinert, começa fazendo algo que Parasita também soube fazer muito bem: a transição entre diversos gêneros. Do intimista ao complexo e ao besteirol As primeiras cenas nos apresentam a família Wang em sua casa, logo acima da lavanderia que os sustenta e temos vários traços de um drama intimista. Dificuldades financeiras, problemas com a receita federal (IRS), além de relacionamentos conturbados entre os Wang. Enquanto o marido, Waymond, se prepara para pedir o divórcio a Evelyn, ela não consegue admitir a orientação sexual da filha para apresentar sua namorada ao pai, Gong Gong. E ainda existe uma tensão muito grande com a chegada de Gong Gong, anunciando problemas mal resolvidos entre ele e sua filha. Logo depois da situação em que Evelyn apresenta a namorada de sua filha, Joy, ao pai como se fossem amigas, um diálogo que parecia ser um pedido de desculpas da mãe é um prenúncio do estilo de humor que veremos. Em vez disso, ela diz apenas “Você precisa comer melhor. Você está engordando!”. Depois disso, o filme passa a mesclar diálogos profundos e situações complexas, com situações bizarras e trechos dignos de uma comédia besteirol. E faz isso de forma genial, como se estivesse nos anestesiando ou amenizando algumas pancadas de diálogos como o momento em que Waymond diz: “Você tem tantos objetivos não realizados e sonhos que você jamais seguiu. Você está vivendo a pior você.” Sonhos abandonados e vidas não vividas O que parece ser simplesmente um multiverso é uma forma surreal de tratar os “e se” da vida de Evelyn, com cada realidade sendo acessada com uma espécie de serendipidade caótica. Com uma ação inusitada, ela tem acesso a outra realidade e, novamente, as bizarrices têm um papel importante. Dessa vez, para nos desarmar. Quando somos apresentados a uma realidade em que as pessoas têm dedos de salsicha, ou ao Raccacoonie, não nos preocupamos em procurar sentido naquilo.Simplesmente aceitamos e seguimos com a trama. Mas o diretor, Daniel Kwan, fez questão de incluir os dedos de salsicha por outro motivo também: “Esses são os momentos estranhos que tornam a vida tão especial e tornam o peso insuportável da consciência um pouco mais suportável.” — Daniel Kwan, SYFY Wire Niilismo vs. Existencialismo Após acessar todas as suas versões do multiverso, a vilã Jobu Tupaki (Chewbacca?) se torna a personificação do Niilismo na trama, e passa a desacreditar e rejeitar qualquer significado. Baseando-se na ideia de que, com acesso a infinitas possibilidades e realidades, nenhuma delas importa — criando um vazio existencial por excesso de informação. Esse vazio é perfeitamente representado na figura do Everything Bagel. E o melhor é a explicação de como surgiu a ideia dessa rosquinha: “Existe um cálculo científico que você pode fazer para qualquer objeto no universo chamado Raio de Schwarzschild, que transforma o objeto  em um buraco negro quando você o comprime nesse raio (…) a ideia é que, em uma certa densidade, qualquer coisa pode se tornar um buraco negro. Não seria engraçado se ela fizesse isso com um bagel?” — Daniel Kwan, Vulture Na primeira metade do filme, temos a impressão que essa rosquinha foi construída para destruir o mundo e, na segunda metade, entendemos que era para Joy se autodestruir. Mais uma forma de trabalhar com bizarrices para suavizar temas bem mais profundos, quando o vazio existencial por excesso de informação faz da vilã depressiva a ponto de construir algo para se matar. Em contrapartida, o filme também trabalha o Existencialismo na ingenuidade de Waymond. Se Joy personifica o Niilismo após acessar todo o multiverso, é como se o desconhecimento de Waymond permitisse que ele encontrasse significado em pequenos momentos e pequenas coisas. E se o Everything Bagel era a representação perfeita na anulação de qualquer significado, são os Googly Eyes que representam o Existencialismo de Waymond. Aqui, a dualidade entre Niilismo e Existencialismo se torna mais visual do que nunca, com a rosquinha e o olho funcionando quase como um Yin-Yang. Tanto que a Evelyn somente consegue salvar Joy após fixar um Googly Eye em sua testa, ao reconhecer a importância da ingenuidade de seu marido e abraçando o Existencialismo. Além de também fazer alusão ao terceiro olho, que, na tradição hindu, representa o centro da energia sutil da consciência e da espiritualidade, e reforça o objetivo de transmitir paz de espírito para aqueles que aderem à prática. Muito além do multiverso Pelo momento em que foi lançado, a comparação mais comum é com o universo da Marvel e, especialmente, com Dr. Estranho no Multiverso da Loucura. Mas, como os próprios diretores reconhecem, foi a série Rick and Morty que trabalhou os conceitos do multiverso de forma mais parecida com o filme: “Assistir à segunda temporada de Rick and Morty foi doloroso. Eu fiquei tipo ‘eles já fizeram todas as ideias que achávamos originais!’ Foi uma experiência realmente frustrante. Então parei de assistir Rick e Morty enquanto escrevíamos este projeto.” — Daniel Kwan, Vulture Mas se engana quem pensa que Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo é só um filme de multiverso. Além das incontáveis referências, sutis ou escancaradas, desde Ratatouille até Super Smash Bross, o multiverso aqui é uma bela metalinguagem para o momento em que vivemos. Basta dar uma olhada nessa imagem sem o contexto do filme. Ou lembrar do excesso de

O velho, o mar e um dos melhores livros que li nos últimos anos

“Eu sei que isso é o melhor que posso escrever na minha vida toda”. Foi com esse bilhete que Ernest Hemingway entregou a versão original de “O velho e o mar” para seu editor, em 1952. Um ano depois, a obra lhe rendeu o prêmio Pulitzer e, em 1954, foi fator decisivo para a premiação de Hemingway com o Nobel de Literatura. Um clássico que, de alguma forma, me escapou por bastante tempo. Logo depois de ler, se tornou minha nova obsessão literária e entraria sem dificuldades para a lista dos meus cinco livros preferidos de ficção. “O velho e o mar” é um livro que espanta pela simplicidade, além da narrativa direta bem característica de Hemingway. Ao final, você até pode se perguntar se era só isso. Até você parar para digerir os acontecimentos. Se você já conhece a obra, as próximas palavras e parágrafos vão te ajudar a relembrá-la e talvez até te incentivem a reler “O velho e o mar”. Se ainda não conhece, não precisa se preocupar porque não entrego nada da história além da sinopse, para preservar sua experiência e te incentivar a buscar o livro assim que fechar a leitura. “‘O Velho e o Mar’ poderia ter mais de mil páginas, com detalhes de todos os personagens da aldeia: como ganham a vida, como nasceram, como se educaram, se tiveram filhos, etc. Tentei eliminar tudo o que era necessário para transmitir a experiência ao leitor para que, após ler, isso se torne parte de sua experiência e pareça ter realmente acontecido.” — Ernest Hemingway Uma breve sinopse para você que ainda não leu Acompanhamos Santiago, um velho pescador que estava há 84 dias sem pescar grandes peixes e caminhava para perder de vez seu valor em seu vilarejo cubano. Tanto que o garoto, Manolin, que aprendeu como pescar com Santiago e costumava acompanhá-lo no barco, foi forçado pela família a trabalhar com outros pescadores que ainda tinham sorte. O velho, então, se prepara para se isolar mar adentro para colocar toda sua experiência de vida à prova, numa jornada que iria fazer dele um herói quando voltasse, ou matá-lo. “As milhares de vezes que já o demonstrara não significavam nada. Agora ia prová-lo de novo. Cada vez era uma nova vez e, quando o estava fazendo, o velho nunca pensava no passado.” O conflito e os riscos em jogo Analisando friamente, os temas principais que parecem direcionar “O velho e o mar” não são grandes novidades: homem vs. natureza; a busca por se provar válido; e a luta pela redenção. A diferença aqui é a comunhão de Santiago com a natureza e a forma como ele se reconhece na função de pescador. Mesmo acusado de má sorte, ele não depende de ter esperança para preparar o barco e exercer suas funções de pescador — mesmo há quase 3 meses sem sucesso na pescaria. E apesar das principais dificuldades serem impostas pela natureza, não vemos Santiago encará-la como oponente em momento algum. “O velho pensava sempre no mar como sendo la mar, como lhe chamam em espanhol quando verdadeiramente o querem bem (…) Alguns dos pescadores mais novos, aqueles que usam boias como flutuadores para sua linhas e têm barcos a motor (…) ao falarem do mar dizem el mar (…) Falam do mar como de um adversário, de um lugar ou mesmo de um inimigo. Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evitá-lo.” Quando Santiago fisga um Marlin maior que seu barco, ele trava uma batalha com o peixe, ao mesmo tempo em que está em comunhão com ele. Em vez de enxergá-lo como algo a ser vencido, o velho apenas se preocupa se ele seria digno de pescar aquele peixe. Fisgado, o Marlin está preso ao barco, mas também o reboca para ainda mais longe de terra firme. Até que o peixe se torne basicamente uma extensão de Santiago. Solidão ou Solitude? Acompanhado do peixe, de seus pensamentos e do desejo pela presença do garoto Manolin, Santiago está sozinho mar adentro. Numa posição de solidão, isolamento, exclusão e ostracismo, Santiago sempre encontra o caminho para a solitude. “Já não sonhava com tempestades, nem com mulheres, nem com grandes peixes, nem com lutas, nem com provas de força, nem com sua mulher. Sonhava apenas com lugares e os leões na praia.” Essa solitude faz com que “O velho e o mar” transmita uma calmaria em extinção nas nossas vidas hoje. Como ele promove uma verdadeira imersão ao lado de Santiago, as percepções variam, principalmente, sobre a obra trazer uma mensagem otimista ou pessimista. E aqui, vale entendermos a relação do velho pescador com o autor, Ernest Hemingway. A redenção de Santiago ou de Hemingway? Muito do que acompanhamos em “O velho e o mar” vem direto da vivência do escritor: os leões dos sonhos de Santiago, a pescaria e tem ainda uma curiosidade que vale citar. Quando ia pescar, Hemingway costumava levar uma metralhadora — para atirar em possíveis tubarões que arriscassem atacar sua pesca. Mas a principal semelhança aparece mesmo nos 84 dias sem pescar. O aclamado livro “Por quem os sinos dobram” foi publicado pelo autor em 1940. Uma década depois, Hemingway lançou “Do outro lado do rio e entre as árvores” e a recepção pela crítica foi péssima. Os 84 dias sem grandes pescas de Santiago eram os 12 anos de Hemingway sem um grande novo livro. Então, quando ele lança Santiago ao mar na história, pode ter certeza que a experiência de Hemingway é a mesma. Um pescador e um escritor prestes a provarem de novo o que já haviam demonstrado milhares de vezes. Como se a voz do oceano, ou do universo, estivesse lhes perguntando a cada instante: “você está pronto para desistir?”. E a resposta independe das circunstâncias. É sempre um calmo e nobre “não, ainda não terminei por

O dia em que aprendi a fazer bolo (ou quase isso)

Nos tempos de faculdade, não era daqueles alunos populares que o curso inteiro conhece, nem fazia questão de ser. Mas uma história que vivi chegou nesse nível. Um dos cálculos mais complexos que aprendi a fazer durante o curso de Engenharia Elétrica foi o tempo de chegada para a primeira aula. Eram raras as disciplinas que justificavam acordar tão cedo para estar ali na sala assim que o professor chegasse — com exceção dos dias de prova, é claro. A maioria das matérias exigia um timing perfeito, para chegar nos últimos minutos, ou segundos, antes que o relógio batesse 8h e a aula completasse seus primeiros 30 minutos. Porque, quando isso acontecia, todo seu esforço era em vão e você tomava falta naquele dia. Nesse dia, devo ter chegado por volta das 7:55 e, enquanto caminhava para dentro da sala, o olhar do professor sinalizava que eu havia acertado os cálculos naquele dia, mas ele parecia desejar que não. Fui em direção a uma das cadeiras mais ao fundo e, antes mesmo de me sentar, escutei ele me chamar pelo nome. Ele testava o conhecimento dos alunos no melhor estilo primário, com 4 ou 5 fórmulas escritas no quadro, e me perguntou se eu conhecia uma variável específica da segunda fórmula. Para minha sorte, soube responder certo e achei que ele passaria a perguntar para outras pessoas. Que nada. — E essa variável, Dimitri, o que ela significa? — E essa? Depois de responder “não sei” algumas vezes e notar que ele parecia querer provar algo me interrogando, facilitei a vida dele e passei a distribuir “não sei” no automático. Até que ele perguntou: — Você sabe, pelo menos, o que é homogêneo? Respondi que não. — E você sabe fazer bolo? Também não, disse no automático. Então, me lembro que ele citou alguns poucos ingredientes para misturar tudo numa vasilha: farinha, açúcar, ovo. Ele também parecia não saber tão bem como fazer bolo, mas isso pouco lhe interessava. — Se você colocar o dedo num lado da vasilha e provar, vai ter um sabor. Se fizer isso em outro, terá outro sabor. Isso porque o bolo ainda não está homogêneo… Ele prosseguiu dizendo que, após misturar, sim, aquela massa estaria homogênea. Despertando algumas risadas na turma, seu olho até brilhava de satisfação. Provavelmente provou o ponto que gostaria e, até hoje, quando me encontro com colegas de faculdade, é comum eles desenterrarem essa história para me perguntar se aprendi a fazer a bolo. Tanto afeto assim não surge por nada e essa intimidade para me ensinar receitas em plena aula nasceu um pouco antes. Alguns meses atrás, estava sentado diante dele em seu gabinete. Uma espécie de mini escritório reservado para os professores que precisávamos visitar de tempos em tempos para tentar resolver algum problema, que geralmente não se resolvia. Dessa vez, estava pedindo demissão do projeto de iniciação científica que ele coordenava. Havia entrado no meio de maio por conta da experiência que tinha na área de Otimização de Algoritmos e, um mês e meio depois, descobri porque aquela iniciação pagava um pouco mais que as outras, oferecendo uma bolsa de R$ 800. No mês de julho, o mesmo professor que me ensinaria a fazer bolo exigia que os alunos trabalhassem o dobro do tempo por conta das férias: 8 horas em vez de 4. Depois dessa descoberta, prestes a sair de férias, fui direto para seu gabinete e, além da carga horária, também disse que a área em que estava trabalhando no seu laboratório não era exatamente o que imaginava quando entrei. Nessa altura do campeonato, já conhecia alguns professores com aquele perfil: queixo levemente erguido para reforçar a superioridade no olhar e um tom de voz de quem acredita ser inatingível — como se alguém tivesse interesse de atingi-lo de alguma forma. A primeira coisa que ele fez foi ligar para os responsáveis pela bolsa. — O valor já foi depositado na conta do Dimitri? E não tem como retirar? O olhar de superioridade se manteve e, ao confirmar o óbvio, ele desligou o telefone e me deu a seguinte ordem: — Você vai fazer o seguinte: pega a ata que registra os dias de trabalho do pessoal do laboratório e faz um levantamento para mim de quantos dias você trabalhou. Qualquer número menor que um mês, você vai me devolver o valor proporcional aos dias que faltavam. Expliquei que poderia fazer isso sim, mas que estava trabalhando há um mês e meio e que, se fizesse aquela conta, era ele quem precisaria acertar um valor proporcional ao que faltava. Mas claro que isso jamais aconteceria. Se a supremacia não se manteve no olhar, ele precisava confirmá-la no discurso. — Então, tá tudo certo. Até poderíamos nos ajeitar por aqui te colocar em outra área, mas se você não está disposto a trabalhar 8 horas nas férias, você não tem perfil para continuar trabalhando no meu laboratório mesmo não. Pode me devolver a chave do laboratório. O clássico “não é você que está pedindo para sair, sou eu quem estou te demitindo”. Coloquei a chave na mesa e não sei como seria a sensação de remover grilhões — daqueles com bolas de ferro — das pernas, mas esse foi um dos momentos em que experimentei o mais próximo disso. Sobre aquele clichê de comer o pão que o diabo amassou no começo de carreira e tolerar qualquer perrengue… não, obrigado. Nem o pão, nem o bolo.

Batman e a arte de recontar uma história conhecida de forma inédita

Batman e a arte de recontar uma história conhecida de forma inédita

[Atenção! Este texto contém spoilers!] Escrever textos como esse me dá prejuízo. Depois de ler, pesquisar e escrever um texto sobre algumas das principais referências que inspiraram o Batman de Matt Reeves, foi impossível resistir à vontade de voltar aos cinemas. A última vez que isso aconteceu — coincidência, ou não — foi com o Coringa, em 2019. Da mesma forma que Todd Philips trouxe uma versão inédita do Palhaço do Crime para os cinemas, Matt Reeves conseguiu fazer isso com o Batman. No caso do herói, é um pouco mais desafiador, porque preciso reforçar que, contando filmes focados em sua história e algumas participações, como em Esquadrão Suicida, existem 12 filmes com o personagem. E a maioria começa pelo caminho mais óbvio, com o assassinato dos pais de Bruce Wayne sendo o catalisador para ele se tornar o Batman. Na versão de Matt Reeves, não é bem assim e já vamos entrar em detalhes. Enquanto escrevia, também percebi que poderia dissertar e analisar o filme inteiro neste artigo, e acabaria correndo para o ingresso.com para assistir de novo. Então, vamos nos ater a dois momentos principais: a introdução e o desfecho — começando pela primeira aparição do Batman nesse novo universo. União pelas sombras, cicatrizes e traumas Antes do herói, somos apresentados ao vilão do filme, Charada. E se você notar, a primeira aparição dele e do Batman acontecem da mesma forma, com os dois saindo da sombra. O Cavaleiro das Trevas abre a sua participação com um monólogo, chega a dizer que ele é a sombra e usa a escuridão como um disfarce para amedrontar criminosos; então, somos apresentados à sua figura com ele caminhando para sair das sombras. Em vez de um discurso, acompanhamos um Charada ofegante como o prelúdio de seu primeiro crime e sua primeira aparição também acontece com ele saindo da sombra. A diferença é que o antagonista permanece estático e é a mudança de iluminação que o expõe. Isso diz muito sobre o ponto de partida dos dois, porque herói e vilão nascem da descrença nas instituições políticas e no sistema. Foi a mesma Gotham hostil e corruptora que os incentivou a vestir suas máscaras, irem para as ruas e os transformou nos animais noturnos que testemunhamos. Diferente de outros filmes, não vemos o Batman como ídolo ou ícone, mas como uma figura estranha. A cada investigação policial, sua presença causa incômodo e, logo na abertura, o personagem resgatado fica na dúvida se seria salvo ou agredido pelo herói. Temos ainda um Bruce Wayne praticamente inexistente quando tira a máscara, sustentado pelo trauma da morte dos pais e numa eterna busca por vingança. Quando pensamos em Selina Kyle, James Gordon e Alfred, os traumas e cicatrizes deixados pela corrupção e sujeira da cidade são também fortes motivações. Enquanto Selina busca vingar sua mãe e sua amiga; Gordon se esforça por manter a integridade no departamento de polícia; e Alfred, como ex-militar, é atormentado por não ter conseguido salvar os Waynes e ainda ostenta as cicatrizes da culpa de não ter sido a figura paterna que Bruce precisava. Voltando à apresentação visual do Batman, caminhando para fora das sombras, ela é um anúncio simples do que vamos testemunhar nas 3 horas de filme. Sem pressa e no ritmo certo, para permitir o desenvolvimento emocional dos personagens e também o nosso — como telespectadores. A construção visual da narrativa Inspirado no trabalho do Edward Hopper e também nos filmes Noir, várias cenas parecem (ou são) filmadas através de vidros, ou em ambientes hermeticamente fechados — com pleonasmo mesmo, para reforçar a claustrofobia de alguns momentos. Boa parte do filme se passa à noite e, mesmo quando é dia, a luz do sol mal parece fazer efeito e as cenas são desprovidas de cor. Essa dessaturação e ambientação são representações dos próprios personagens, que se prendem às sombras e tem visões estreitas — deturpadas de acordo com cada trauma. E agora sim, podemos falar da genialidade de Matt Reeves para introduzir o assassinato dos Waynes. Uma história conhecida por um ângulo novo O caminho mais fácil, nós já conhecemos. Batman vs. Superman, por exemplo, trouxe uma bela alternativa de trazer a clássica cena sem se preocupar em apresentá-la como inédita. Logo nos créditos de abertura, vemos um casal saindo do cinema com o filho, o cartaz da “A Máscara do Zorro” e nem precisamos esperar o assaltante surgir para saber qual será o desfecho. Antes de entrar na nova versão, vale trazer um exemplo negativo de se trabalhar a origem do Batman como bastidores do personagem. Não sei se você se lembra, mas, em Esquadrão Suicida — a versão desastrosa de 2016 — vemos o Cavaleiro das Trevas perseguir o Pistoleiro, acompanhado de sua filha em um beco, numa perspectiva parecida com a do assassino de seus pais. Se você me perguntar, sabendo do trauma que isso trouxe na vida do Bruce Wayne, não acredito que ele assumiria o risco de proporcionar uma cicatriz parecida com a garota. Pelo menos, não da forma como acontece na cena. Na versão do Matt Reeves, a introdução do assassinato não é explícita e a subjetividade fala mais alto. Ainda na cena do primeiro crime do Charada, descobrimos com o Batman que foi o jovem filho do candidato a prefeito que encontrou seu corpo sem vida. Nessa cena, o silêncio grita. Mesmo sem ver o rosto de Robert Pattinson por baixo da máscara e da maquiagem, o olhar basta e a cumplicidade transcende à tela. São alguns segundos que funcionam como referência para filmes intimistas. Compartilhamos essa cumplicidade entre eles e não precisamos que ninguém nos conte que os pais de Bruce Wayne foram assassinados. O silêncio e o olhar cumprem essa missão. O Batman Noir, o batismo e a esperança Como comentei no artigo sobre as referências que inspiraram o novo Batman, o Matt Reeves abraçou o Noir como um sub-gênero. E quebrando o filme para analisar, encontramos uma narrativa Noir completa e das mais clássicas. Partindo da

Você precisa ser “acima da média” para trabalhar sua marca pessoal?

Essa pergunta do título traz uma dúvida e uma insegurança bem comuns entre as pessoas que desejam começar a compartilhar suas ideias e conteúdos, para construírem sua marca. Posso te adiantar uma coisa: a maioria dos títulos que levanta uma pergunta costuma ter “não” como a resposta mais direta (especialmente os mais sensacionalistas). E aqui, não vai ser tão diferente assim. Então, se você quer a resposta curta, é não. Você não precisa ser um especialista para ensinar o que pratica e compartilhar sua jornada de aprendizado. Porém, quero quebrar essa pergunta em partes com você, porque acredito que ela é um reflexo de alguns outros fenômenos que travam demais quem deseja começar. O que significa ser “acima da média”? Você consegue responder isso de forma definitiva? Acredito que seja bem difícil, porque essa resposta traz um caráter extremamente subjetivo. Além de transmitir uma certa necessidade de validação externa. É a espera por uma chancela que, em algum momento, chegaria como um tapinha no ombro para dizer que “estamos prontos, somos acima da média”. E quando você pensa na sua área de atuação, talvez você tenha se destacado em algum momento e essa chancela surgiu justamente no momento de destaque. Mas se você tivesse aguardado que ela aparecesse antes de começar a trabalhar, ela teria aparecido? Se você me perguntar, acredito que não. Se apenas aguardarmos essa chancela, ela jamais chega. Quem está exigindo essa chancela de você? Esse é outro ponto-chave por um motivo bem simples. Quando comecei a compartilhar minhas ideias no LinkedIn, em 2018, as pessoas que me cobravam por não ser acima da média eram desconhecidos que dificilmente estariam dispostos a colaborar com a minha trajetória de alguma forma. Nessas horas, algumas pessoas costumam exigir e cobrar com uma facilidade absurda, mas têm uma dificuldade gigantesca para reconhecer ou ajudar. Porque apontar o dedo dá menos trabalho e estender o braço. Se for um caso de síndrome do impostor, esse assunto pode se estender um pouco mais. Leia também: A Síndrome do Impostor para Escritores e a cura para colocar suas ideias no papel Mas posso garantir que, se você for transparente e ensinar o que pratica, compartilhar sua jornada de aprendizado é um passo natural para te aproximar de outras pessoas interessadas na sua área de atuação, fortalecer comunidades e também a maneira mais simples de fortalecer sua marca no longo prazo. O que nos leva ao próximo ponto que vale destacarmos na pergunta do título. “Você precisa” Essas duas palavrinhas são tão comuns, mas tão comuns em discursos no ambiente online que passei a tomar um cuidado redobrado com elas. Tanto para usá-las na minha comunicação, quanto nos em que me deparo com elas de alguma forma. E uma coisa que facilitou demais minha vida ao lidar com elas é reformular a frase para transformá-la numa pergunta. Apesar das pessoas apontarem o dedo bem na nossa cara para dizer “você precisa”, muitas vezes, quem faz essa afirmação é que necessita que nós precisemos daquilo. Pode fazer o teste e você vai notar que são poucos os casos que a necessidade realmente parte da gente. Há quem diga que você precisa trabalhar sua marca pessoal, ou será ignorado. E também há diga que você não precisa, e que o seu trabalho vai falar por você. Você precisa escolher entre um desses extremos? Esse é outro mal da internet: o meio-termo parece não existir. De um lado, você pode encontrar especialistas em construção de marca pessoal apontando o dedo na sua cara, para cutucar a ferida, e dizer que você não terá resultados sem investir na sua marca. Do outro, pode ver pessoas exigindo ou removendo a sua chancela de acima da média. Agora, você já sabe. Transforme os dois extremos em perguntas, porque a decisão e as prioridades são suas. Se você acredita que está num momento de investir em outras frentes para se tornar acima da média, vai fundo. E pode ter certeza que isso vai refletir na sua marca pessoal. E se está no momento de focar na sua marca, para dar mais visibilidade ao que você já tem feito e ser reconhecido por isso, não espere chancela alguma. Vai fundo. “Não ser ninguém além de você mesmo num mundo que está fazendo de tudo — noite e dia —, para transformar você em outra pessoa, significa travar a batalha mais difícil que qualquer ser humano pode travar; e nunca parar de lutar.“ — E. E. Cummings Esse é o momento ao final do texto que eu te apresento, ou te lembro, do curso de LinkedIn para Marcas Pessoais — que desenvolvi para te ajudar a construir sua marca na maior rede profissional do mundo sem abrir mão da sua essência e sem apelar para autopromoção. São mais de 9 horas de duração para que você domine os três pilares mais importantes para construir seus resultados (além do LinkedIn como ferramenta): Marca Pessoal O Verdadeiro Networking Produção de conteúdo Eu não ouso dizer que você precisa disso ou daquilo, mas, se quiser construir sua marca na maior rede profissional do mundo, será um prazer ajudar na sua jornada. Clique aqui para conhecer o curso.

Uma rebelião acústica

Uma rebelião acústica

Por muito tempo, tive vontade de escrever um manifesto que resumisse bem minhas principais crenças, enquanto pensava também em um nome para batizar minha newsletter. Até que decidi escrever sobre algo mágico que acontece quando um músico decide pegar um violão e apostar em algo mais intimista.

O Dilema das Fórmulas Prontas e como usá-las a seu favor

O dilema das fórmulas prontas

Quando falamos em fórmulas prontas, especialmente no Marketing Digital, um fenômeno curioso costuma acontecer por conta da generalização e da polarização. Uma forma de se ver é que a fórmula deve ser seguida à risca, como um checklist — marcando etapa por etapa, passo a passo — para garantir uma reprodução fiel. E a outra forma, influenciada por essa primeira, costuma ir direto para o outro extremo. Ao ver uma aplicação tão engessada, a resposta é condenar a fórmula afirmando que quem trabalha com estruturas prontas mata a sua criatividade. Mas adianto que isso só acontece quando insistimos em aplicar algo que não estudamos a fundo. Para te mostrar isso, vamos falar de uma das estruturas mais famosas dentro do Storytelling: a Jornada do Herói. A transformação das fórmulas em checklists Ao pesquisar no Google por “jornada do herói”, você vai encontrar inúmeros textos — inclusive, um que escrevi nos tempos de Rock Content — que simplificam suas 12 etapas em um texto de mil palavras. Essa simplificação é necessária em textos assim, porque a pessoa que faz essa pesquisa quer encontrar um checklist. Então, entregando isso para ela, as chances do texto aparecer melhor posicionado no Google aumentam consideravelmente. Só que esses textos deveriam ser apenas um ponto de partida para compreender a Jornada do Herói, mas se tornaram o final. É daí que nascem os checklists. O que é bem curioso, porque, logo no prefácio do livro que popularizou essa estrutura, “A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Escritores”, o autor Christopher Vogler crava que ela deveria ser usada como uma forma, não uma fórmula. Justamente para evitar sua aplicação como um checklist, mas parece que muitas pessoas não chegaram até essa página do livro. Reprodução VS Inovação Antes de discutirmos se a fórmula mata sua criatividade e te atrapalha de inovar, vale reforçar como elas costumam nascer — numa espécie de engenharia reversa, ou análise em retrospectiva. Rory Sutherland fala sobre esse processo com uma analogia fantástica em seu excelente livro, Alchemy: The Dark Art and Curious Science of Creating Magic in Brands, Business, and Life: “Imagine que você está escalando uma montanha que nunca foi escalada antes. Lá de baixo, é impossível dizer quais encostas são transitáveis (…) Sua escolha envolve muitas tentativas e erros: as rotas são experimentadas e abandonadas; há retrocesso e travessia frequentes. Muitas das decisões que você toma podem basear-se apenas em instinto ou boa sorte. Mas, eventualmente, você chega ao topo e, assim que chega lá, o caminho ideal é aparente. Você pode olhar para baixo e ver qual teria sido o melhor caminho a seguir, e isso agora se torna ‘a rota padrão’. Quando você descreve a rota que você fez para seus amigos montanhistas, você finge que foi a rota que você fez o tempo todo: com o benefício da retrospectiva, você declara que simplesmente escolheu essa rota por meio do bom senso.“ — Rory Sutherland, Alchemy: The Dark Art and Curious Science of Creating Magic in Brands, Business, and Life Esse trecho até poderia ser usado para criticar a fórmula final da escalada por ela desconsiderar as nuances e facilitar o processo. Porém, em vez disso, vejo muito mais sentido em considerarmos que elas existem, mesmo que elas não estejam representadas na estrutura pronta. Só não pense que aquela rota vai funcionar se decidirmos segui-la à risca. E menos ainda que ela funciona para qualquer montanha. Então, ao tentarmos reproduzir a escalada, precisamos acrescentar algumas nuances com nossas próprias tentativas e erros. Mas seguindo a rota traçada, teremos um caminho familiar. Trazendo para a Jornada do Herói, essa familiaridade pode facilitar bastante sua vida quando usada como limitação criativa ao contar uma história e, mais ainda, pela familiaridade com a audiência. Porque, quando descartamos quaisquer estruturas e trabalhamos com algo completamente caótico — escolhendo a total inovação em vez da reprodução —, a estranheza pode afastar as pessoas. Não é à toa que Hollywood continua usando vários elementos da Jornada do Herói em filmes produzidos para ter sucesso numa escala global. Poucas histórias conseguem arrastar tantas pessoas para o cinema quanto essa boa e velha estrutura — temperada com algumas nuances. Então, por que não fazermos o mesmo em nossos trabalhos? Um convite para você que leu até aqui Este texto é uma versão alternativa inspirada em uma das aulas do curso de Escrita Criativa e Storytelling, que está de portas abertas para a 10ª turma. Para que você não fique dependente de fórmulas prontas, falamos sobre elas no começo do curso (módulo 3) — quando cobriremos as principais estruturas para contar boas histórias (não apenas a Jornada do Herói). Depois disso, ainda termos outros 8 módulos para aprofundar no que uma história precisa ter além de uma jornada. Assim, você terá as fórmulas disponíveis no seu arsenal e no seu repertório, para usá-las sempre que precisar, mas sem ficar preso a nenhuma delas. Se você quer desenvolver sua escrita para produzir conteúdos mais autênticos, atrair mais leitores e prender sua atenção, a hora é essa. Porque o curso vai te ensinar isso na prática, com vários exemplos e estudos de caso, seguindo 4 pilares principais: 1. Storytelling2. Experiência do usuário como leitor3. Escrita Criativa4. Copywriting Tudo para que você aprenda como desenvolver uma narrativa capaz de atrair, conectar, envolver e emocionar seus próximos leitores e suas próximas leitoras. E só para não te pegar de surpresa, esta turma será a última que terá direito ao acesso vitalício e as inscrições vão até dia 24/01 — vulgo “próxima segunda”. Se quiser conferir a opinião de quem fez o curso, o depoimento mais recente que recebi foi do Guilherme Tonial: “Um dos melhores cursos que já fiz sobre o tema, com dicas práticas objetivas e principalmente que funcionam. Me ajudou muito a desbloquear minha escrita, principalmente no começo da minha carreira.Esse curso me ajudou a me afirmar como escritor e viver de escrita hoje, atuando como copywriter full-time. Dimitri é um excelente professor, didático com vários exemplos do dia a dia.

Dimitri Vieira | Escreva sua Marca ® ltda | © COPYRIGHT – 2025 | TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

dimitrivieira.com | 2018 – 2025 | eu@dimitrivieira.com