Quando foi a última vez em que você se permitiu decepcionar alguém ou frustrar suas próprias expectativas?

Se tem uma coisa que faço bem (e muito), sem qualquer problema em admitir, é me cobrar.

Sabe aquela história de “feito é melhor que perfeito”? Mesmo tendo um fundo de verdade, ela nunca me atraiu porque reforça também o fazer de qualquer jeito.

Se existe algo sendo feito, pode ser melhorado. E se é possível melhorar, sempre dou um jeito de fazer o que está ao meu alcance para isso.

Profissionalmente, essa inquietude sempre foi um grande diferencial. Dificilmente, você me verá fazendo algo numa zona de conforto de apenas fazer por fazer.

Para facilitar minha vida, é um pesadelo.

O sarrafo está sempre subindo, e eu que me vire para alcançá-lo.

Recentemente, me assustei com o quanto me identifiquei com alguns trechos de uma música que odiei quando foi lançada em 2017 — e me senti estúpido por tê-la odiado na época.


“I don’t like my mind right now / Stacking up problems that are so unnecessary

Eu não gosto da minha mente agora / Empilhando problemas tão desnecessários

(…)

I keep dragging around what’s bringing me down / If I just let go, I’d be set free

Continuo carregando o que está me deixando para baixo / Se eu apenas soltar, ficaria livre”

— Linkin Park, Heavy


Se você conhece a música e o desfecho de Chester Bennington — ex-vocalista do Linkin Park —, não preciso explicar porque me senti estúpido.

Se não, é só reler a letra sabendo que o Chester se matou cinco meses depois de ter lançado a música. Mas, na época, a única coisa que me importava era o ritmo — pop demais pro meu gosto.

Pesado, não é?

Pois é. Por isso me assustei pelo quanto me identifiquei, e continuo me identificando com essa e outras letras do último disco da banda, One More Light.

Não foi bem um movimento consciente, mas precisei passar as últimas semanas mais afastado do LinkedIn e ainda aproveitei para me aventurar no design (contei mais sobre isso aqui).

E como meu problema é justamente com o bendito sarrafo e como abaixá-lo, quero falar com você sobre se permitir decepcionar alguém, ou não corresponder às suas próprias expectativas.

Poderia citar vários exemplos, mas vou trazer apenas dois para não prolongar demais esse desabafo.

A estreia na ficção

Uma coisa que não escondo de ninguém é que tenho o sonho de escrever um livro de contos. Se você me acompanha há mais tempo, é capaz que já tenha me visto falando sobre isso.

Porém, com o “peso de primeiro livro” e o “peso de estreia”, minhas expectativas sempre colocaram o sarrafo lá em cima.

— Ah! Mas você não é especialista em Storytelling?

Pois é. Isso também entra pra conta.

E o resultado?

Tenho incontáveis ideias e esboços de contos anotados. Um finalizado.

Com não ficção, tenho muita facilidade. Mas, no universo da ficção, continua sendo um desafio novo que estou aprendendo como superar.

E se finalizei um, foi porque aceitei o desafio de escrever algo que eu não gostasse.

Aproveitei o prazo final para participar de uma Antologia da Editora Lettre e aceitei que escreveria meu primeiro conto, mesmo que odiasse minha ideia de trama.

Passei a semana passada inteira detestando minha ideia original, enquanto fritava a cabeça para pensar numa forma de melhorar a história. Por fim, o conto nasceu e, para minha surpresa, ficou bem melhor que eu imaginava, viu?

Para você conhecer essa história, dependemos do Maicon Moura — organizador da Antologia —, não cortar meu conto da seleção.

Se você está esperando a moral da história, aqui vai.

Minha ideia original era terrível e eu poderia ter parado ali, mas como aceitei que ela existisse, ela acabou evoluindo para algo bem melhor. E o conto só nasceu porque concordei em não corresponder às minhas próprias expectativas.

O peso de carregar pesos e bandeiras alheias

Essa é mais complicada, porque não existem limites para essas bandeiras e pesos.

Como exemplo, imagino tranquilamente alguns amigos pessoais me condenando por compartilhar um artigo como este que você está lendo.

“Virou coach agora?” e “não sei se você deveria se abrir tanto” são comentários que costumo ouvir.

Ironicamente, são também os únicos comentários que escuto deles.

Há exigências de posicionamento, do que você deveria defender, das referências que deveria citar, das que não deveria, e por aí vai. Não vou me delongar tanto na lista, mas diria que existem mais de 16 + 1 cobranças nessa linha.

Quando você passa a produzir conteúdo com frequência, é comum que as pessoas te vistam o rótulo de influenciador para cobrar que você carregue alguma bandeira — que pode ser desde uma expectativa específica, até algo em que elas acreditam.

Como minhas principais fontes de renda vêm do LinkedIn, acabei cedendo e me dispus a carregar muito mais peso do que deveria.

É tão louco que, se você anuncia que precisa de um tempo das redes sociais para descansar, é comum que lhe coloquem ainda mais peso nas costas: “vem coisa boa por aí”.

Tem um clichê que diz que todas as pessoas que conhecemos estão passando por uma batalha silenciosa de que não sabemos nada. Hoje em dia, isso se tornou ainda mais forte e, às vezes, carregar minhas próprias bandeiras já é pesado o suficiente.

Essa sensação de cansaço e sobrecarga ainda costuma ser fatal para a escrita. Você deixar de escrever por estar sobrecarregado e, logo, fica ainda mais sobrecarregado por não escrever nada.

Se me perguntar a solução, ainda não sei tão bem, mas vale começar frustrando suas próprias expectativas e também das outras pessoas.

Tomando este artigo como exemplo de novo, meu lado marketeiro grita para eu não publicar um texto como esse e, muito provavelmente, você não decidiu me acompanhar para ler desabafos. Acredite se quiser, ainda deixei este artigo descansando por 12 horas, enquanto pensava se cortava ou não esse trecho final.

Porque, se eu finalizasse logo após a parte da ficção, ainda teríamos uma conclusão bem linkediana, com direito a lição de moral. Mas não seria verdadeiro comigo mesmo, nem com você.

E continuo acreditando que existem coisas mais importantes que o marketing e a visibilidade a todo custo — essa é uma bandeira que faço questão de carregar (e praticar).

Quanto ao sobrepeso que acabei acumulando, eu é que não vou continuar empilhando problemas desnecessários. Vou tratar de soltá-los o quanto antes.

Obrigado, Chester, por me lembrar disso.

E obrigado a você que leu até aqui. Se você também anda carregando alguma bandeira ou peso extra, espero que este texto possa te ajudar de alguma forma, assim como o simples ato de escrevê-lo já foi bem terapêutico para mim.

Para fechar, guardei um trecho do Hunter S. Thompson que tem passado bastante pela minha cabeça. Pode fazer sentido para você também.


“Todo mundo está procurando por alguém que possa se levantar contra o vento. É solitário ficar de pé e super lotado se você escolher deitar. Eu me recuso a ser uma âncora para os sonhos de outras pessoas — e me recuso a ancorar meus sonhos em qualquer outra pessoa. Portanto, não tenho escolha a não ser me levantar e mijar no vento. Perdoe minha vulgaridade.”

— Hunter S. Thompson, The Proud Highway


No próximo artigo, prometo fazer meu melhor para trazer algo mais leve.

Ou não.

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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