Sister Rosetta Tharpe
Sister Rosetta Tharpe

Antes de Chuck Berry, Elvis e Beatles, tivemos Sister Rosetta Tharpe: conheça a Mãe do Rock’n Roll

Antes de escrever este texto, a primeira vez que ouvi falar em Sister Rosetta Tharpe foi há pouco mais de dois meses, quando ouvi sua história no podcast Tales from No Man’s Land, do Frank Turner.

Não demorei muito para ficar obcecado pela sua história, seus inúmeros feitos e, principalmente, pelo fato de ter demorado tanto tempo para conhecê-la — apesar de ser apaixonado pelo Rock’n Roll.

Na maioria dos materiais que falam sobre a origem desse estilo musical, Sister Rosetta é referenciada como sua Madrinha. Porém, como você logo vai ver, ela não esteve presente apenas no “batismo do Rock”, mas desde seus primórdios — ou parto, se preferir.

Por exemplo, sabe quando foi a primeira vez que o termo “Rock’n Roll” apareceu na renomada revista americana Billboard? Foi em maio de 1942, para descrever uma performance dela.

Revista Billboard, edição de 30 de Maio de 1942 — página 25

Quando falamos em artistas de Rock que marcaram a história, alguns nomes costumam aparecer bem rápido na conversa, como Beatles e Rolling Stones.

Numa roda de conversa sobre sua origem, é comum falarmos em Chuck Berry como o Pai do Rock. Talvez até em Elvis Presley, o Rei.

Só que, antes, o Rock’n Roll teve uma Mãe.


“Se você tentar dar outro nome ao Rock’n Roll, você pode chamá-lo de ‘Chuck Berry’.”

John Lennon


“Ele (Chuck Berry) iluminou nossa adolescência e deu vida aos nossos sonhos de sermos músicos.”

Mick Jagger


“Uma longa personificação de Sister Rosetta Tharpe”

Foi como Chuck Berry — o Pai do Rock — descreveu certa vez sua própria carreira.


Quando a cantora lançou seu primeiro disco, Rock Me, o garoto Chuck tinha 12 anos e foi parte de uma geração de crianças que cresceram nas décadas de 40 e 50 acostumadas a ver Sister Rosetta como uma grande estrela da música.

Nessa geração, também estava o pequeno Elvis, ainda com 3 anos, que dificilmente se lembra de ouvir o disco no ano do lançamento, mas não deixou de ser influenciado por ela:


“Elvis adorava Sister Rosetta. Principalmente seu estilo de tocar guitarra, que era muito diferente.”

Gordon Stoker, do Jordanaires, que trabalhou tanto com Sister Rosetta Tharpe, quanto com Elvis Presley.


O início de tudo

Não dá para falar sobre Rock’n Roll sem citar o Blues — que, por sua vez, começou a se desenvolver especialmente do canto dos escravos das lavouras de algodão.

Foi também nessas lavouras, em 1915, que Rosetta Nubin nasceu, na cidade de Cotton Plant, Arkansas, às beiras do rio Mississíppi. Seus pais, Katie Bell e Willis Atkins, eram colhedores de algodão.

Não se sabe muito sobre seu pai, que pouco participou de sua vida, além do fato de que ele sabia cantar.

Enquanto sua mãe — evangelista e incrivelmente apaixonada pela Igreja — foi a pessoa mais presente ao seu lado, até falecer em 1968.

Quando sua filha tinha apenas seis anos, Katie Bell abandonou o pai de Rosetta e elas se tornaram evangelistas viajantes da Igreja de Deus em Cristo.

Desde então, a música, a religião e a rotina de viajar fazendo shows estiveram presentes na vida de Rosetta. Há relatos de que, quando ela tinha 10 anos, já era uma showoman completa, tocando violão, piano e dominando alguns passos de dança.

Seu sobrenome Tharpe surgiu após se casar, em 1934, com o Reverendo Tommy Thorpe — com uma leve pitada de erro de grafia)—, quando ela tinha apenas 19 anos.

Ambos trabalhavam para a mesma igreja: ela fazia os shows, atraía multidões e ele pregava do púlpito.

O casamento não durou muito tempo, pois, além de ter sido arranjado pela mãe de Rosetta, seu marido se aproveitava de seus dons para ganhar dinheiro e se sustentar.

“Sister Rosetta não era nada comum”

Após 4 anos casados, em 1938, ela deixou o Reverendo e foi para a cidade de Nova York. Dessa vez, foi Rosetta quem levou junto sua mãe.

Seu reconhecimento na música não demorou: no mesmo ano, lançou o disco “Rock Me” e recebeu a oportunidade de se apresentar no prestigiado Cotton Club — uma casa noturna para clientes brancos e performers negros.

Por força de um contrato de sete anos que assinou, Rosetta se viu obrigada a cantar qualquer música que sua gravadora, Decca Records, escolhesse.

Por isso, temos registros dela cantando algumas músicas que não fazem qualquer menção a Deus, mas apenas sobre “agradar seu homem” — como Tall Skinny Papa, em que ela repete constantemente:


Eu quero um papai alto e magro. É tudo o que eu preciso.


Claro que um papai alto e magro estava longe de ser tudo o que Rosetta queria ou precisava, mas foi um mal necessário para ela trilhar seu caminho para o sucesso e se ambientar ao universo do Show Business.

Com 25 anos, ela estava entre os melhores músicos populares da época e havia se acostumado a tocar com nomes como Lucky Millinder, Cab Calloway, Duke Ellington e outros.

Após cumprir o contrato, Rosetta havia se estabelecido numa indústria dominada por homens, era rica, famosa, amada por uma legião de fãs e, finalmente, poderia cantar o que bem entendesse.

O que mais a primeira super star gospel da história poderia fazer?

Desafiando a segregação racial, com Marie Knight

Nos anos 40, ela passou boa parte do tempo na estrada e tocando em casas de show lotadas — sempre acompanhada por diferentes quartetos gospel.

Um desses quartetos foram os Jordanaires, que depois ficariam conhecidos como backing vocals de Elvis Presley. Nessa época, eram carinhosamente chamados por Rosetta como “seus quatro pequenos bebês brancos”.

Numa sociedade altamente segregada, negros e brancos tocando juntos era tabu. Mas desde seus primeiros acordes arranhados nas portas das igrejas, Rosetta sempre tocou para unir as pessoas e isso persistiu por toda a sua carreira.

Durante a turnê com os Jordanaires, o grupo de apoio era recebido nos melhores restaurantes e hotéis, enquanto a estrela principal tentava a sorte na porta dos fundos. Ou contava com a ajuda de seus quatro bebês brancos, que pediam um prato extra para viagem e levavam até ela em seu ônibus.

O vencedor do Oscar, Green Book, fornece um bom panorama de como era a rotina de um negro em turnê durante a segregação.

Com a diferença que a história do filme se passa em 1962, às vésperas da assinatura da Lei de Direitos Civis, que decretou o fim da segregação racial americana em 1964.

Ou seja, os tempos de Rosetta eram outros, mas nem isso foi capaz de fazê-la recuar.

E não satisfeita fazendo turnês apenas com quartetos gospel, em 1946, ela pegou a estrada com Marie Knight, sem nenhum acompanhamento além delas próprias — algo completamente inédito para a época.

Há relatos de que elas sozinhas montavam todo o equipamento, depois retornavam aos bastidores para se ajudar na maquiagem e cabelo, e, então, o show era completo. As duas cantavam, se revezavam no piano, Rosetta assumia a guitarra e Marie, a percussão.

De acordo com a historiadora Gayle Wald, elas não eram apenas companheiras de estrada e shows, mas também amantes — um “segredo aberto”, diz Wald.

E retomo a pergunta: o que mais Sister Rosetta Tharpe poderia fazer?

A primeira música de Rock’n Roll da história

Em 1944, a cantora lançou a música Strange Things Happening Everyday, uma forte crítica às hipocrisias religiosas que emplacou o 2º lugar na lista da Billboard de melhores músicas de Rhythm & Blues.

Além desse feito, para muitos historiadores e estudiosos da música, essa foi a primeira música de Rock’n Roll da história.

Não há um consenso sobre um marco zero específico para definir qual hit recebe esse título e, por isso, ele acaba dividido entre Strange Things Happening Everyday e outras três opções:

  • Rock the Joint — Jimmy Preston (lançada em 1949)
  • Rock Awhile — Goree Carter (1949)
  • Rocket “88” — Jackie Brenston (1951)

Se analisarmos pelo ano de lançamento, não há discussão.

Quando a noiva tocou guitarra

Após vários anos na estrada dedicados a desafiar a segregação racial enquanto fazia shows, em 1950, dois grandes promotores da música gospel da época fizeram uma proposta bem inusitada para Sister Rosetta Tharpe:

Combinar uma cerimônia de casamento com um show, e fazer tudo isso no Griffith Stadium, em Washington.

Ela topou de prontidão e faltava apenas um detalhe necessário para a cerimônia: um noivo. Algumas semanas antes do grande dia, Rosetta encontrou Russel Morrisson e resolveu o problema.

O casamento aconteceu em 1951 com tudo o que se tem direito, incluindo a Marcha Nupcial.

O Reverendo Kelsey se dirigiu aos 20 mil pagantes que lotavam o estádio para saber se havia alguma objeção. “Você tem uma aliança, Russel?”, ele também perguntou ao noivo e despertou várias risadas do público.

Os convidados — no caso, os fãs — levaram presentes, pratarias e até uma televisão.

E após o anúncio de “pode beijar o noivo” — pelo menos é o que Kelsey deveria ter dito —, Sister Rosetta pegou sua guitarra.

Terminava o maior casamento que a cidade de Washington havia visto para dar início a um dos primeiros shows em estádio que se tem registro.

A invasão americana

No fim dos anos 50, o Rock’n Roll havia chegado para ficar. Seus principais ídolos eram homens jovens e brancos, e Rosetta, que não lançava mais tantas músicas, seguia reencenando seus hits e parecia caminhar para o final de carreira.

Até que, em 1957, ela recebeu a ligação de um grande fã britânico. O popular trombonista de Jazz, Chris Barber, queria levá-la para a Europa e fecharam um acordo para um mês de turnê.


“Sua guitarra por si só era tão alta quanto a minha banda inteira. Foi apaixonante, totalmente fascinante.”

— Chris Barber


Até então, o público britânico havia visto Blues e Gospel apenas por imitações brancas. Pela primeira vez, eles tinham contato com a música de verdade.

Essa turnê chamou a atenção de todos na Europa, tanto de agentes quanto de novos fãs. Rosetta era uma estrela renascida e agora espalhava sua influência em um novo continente.

A cantora não estava sozinha nessa e vários artistas americanos também passaram a viajar pelo continente europeu para fazer shows.

Entre eles, estava o lendário Muddy Waters, um dos pioneiros na eletrificação do Blues, e que participou ao lado de Rosetta numa série de shows na Inglaterra que ficaram marcados como The American Folk-Blues Festival, entre 1963 e 1966.

Então, antes de toda a Beatlemania e a Invasão Britânica, primeiro aconteceu uma Invasão Americana.

Em 1963, houve somente um show dessa turnê, na cidade de Manchester e, como era algo inédito, pessoas de várias outras cidades se organizaram para prestigiá-lo. Inclusive de Londres, de onde saiu um micro-ônibus transportando, entre outros passageiros, Eric Clapton, Jeff Beck, Keith Richards e Brian Jones.

Quando comecei este artigo, estava preocupado em investigar quem Sister Rosetta havia influenciado. Agora, tenho outra pergunta em mente: quem ela não influenciou?

O ápice dessa Invasão Americana também aconteceu em Manchester, em 1964, com um dos shows mais incomuns e icônicos que se tem registro.

Ele aconteceu numa estação de trem desativada, com o palco montado em uma plataforma e o público na outra, separados pelos trilhos. Rosetta — com 49 anos de vida e mais de 40 de estrada —, que estava acostumada a limusines, chegou ao palco em uma carruagem.

Enquanto desembarcava, ela deixa claro o quanto estava contente ao elogiar o cavalo que a trouxe e ao declarar que “aquele era o momento mais maravilhoso de sua vida”, antes mesmo de colocar os pés no chão.

Por mera formalidade, Sister Rosetta recebeu a ajuda de Cousin Joe para descer e, então, caminharam lentamente de braços dados na direção de sua guitarra. “Está chovendo e as pessoas são muito gentis por ficarem aqui”, ela dava a pista de que a primeira música seria Didn’t it Rain.

Com a alça da guitarra devidamente vestida, a mão esquerda pressionando as cordas junto aos trastes e a direita com a palheta preparada, surgem as primeiras notas.

E quando começa a tocar, Rosetta está completamente entregue ao momento. Cabeça levemente curvada para trás, olhos para cima, às vezes fechados, e ela entra em comunhão com algo que não podemos ver, mas felizmente podemos ouvir.


Sister Rosetta Tharpe não era nada comum, nem simples. Ela era uma grande e bela mulher, e divina, para não mencionar sublime e esplêndida. Ela era uma força poderosa da natureza. Um evangelista que cantava e tocava guitarra.

Ela viajou para a Inglaterra com Muddy Waters e vários outros artistas do Blues no começo dos anos 60. E tenho certeza que vários jovens ingleses resolveram pegar uma guitarra após vê-la tocando.

Bob Dylan


Memórias preciosas

Depois disso, vieram diversos artistas e bandas que se consagraram no cenário do Rock e, hoje, são vistos como grandes referências no universo da música.

Rosetta, por outro lado, não teve últimos dias tão gloriosos quanto merecia. Sua mãe, que acompanhou de perto todos os seus passos, faleceu em 1968 — o que foi um baque gigantesco para ela.

Após ser diagnosticada com diabetes, teve uma perna amputada por complicações da doença, em 1971. E dois anos mais tarde, depois de sofrer um derrame, Sister Rosetta Tharpe não resistiu e acabou falecendo.

No funeral, Marie Knight fez questão de maquiar e vestir sua companheira para garantir que ela estaria o mais glamourosa possível. E prestou uma homenagem como despedida, reencenando uma música de Rosetta que estavam acostumadas a cantar juntar: Precious Memories.


Velhos tempos cantando, alegria trazendo

Daquela terra adorável em algum lugar

Memórias preciosas, como elas permanecem.



Somente 36 anos depois, em 2009, Rosetta ganhou uma lápide e, em 2018, foi integrada ao Hall da Fama do Rock’n Roll, em Cleveland.


Principais referências utilizadas:

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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