Dimitri Vieira
Admitir que não sabemos o que vai acontecer é o primeiro passo para encarar qualquer crise
Admitir que não sabemos o que vai acontecer é o primeiro passo para encarar qualquer crise

Admitir que não sabemos o que vai acontecer é o primeiro passo para encarar qualquer crise

Não preciso te lembrar do que estamos vivendo, certo?

O COVID-19 já se tornou um marco em nossas vidas, ao qual vamos nos referir como “antes” e “depois”. Você se lembra como costumávamos frequentar bares e cafeterias? Ah, sim, antes de tudo isso… mas e depois?

Apenas teorias e especulações.

Nada muito sólido, além da certeza de que o mundo que conhecíamos até o início de março não existe mais.

O escritor Nassim Nicholas Taleb classifica eventos assim como Cisnes Negros. Completamente imprevisíveis, têm um efeito gigantesco e, depois, costumam ser racionalizados de maneira inadequada, com o benefício da retrospectiva — no melhor estilo “profeta do fato ocorrido”.

Como o próprio autor afirma, Cisnes Negros dominam a sociedade, a história e as pessoas, justamente porque nos julgamos capazes de compreendê-los devido à essa racionalização.

No instante em que um evento desse porte acontece, não conseguimos prever o que vai acontecer e apenas trabalhamos com hipóteses — que podem se provar verdadeiras, ou não.

Antes que você continue lendo aguardando uma solução, vou logo avisando que esse não será um daqueles artigos com uma lição de moral mastigada ao final.


Dar conselhos a alguém que pergunta o que fazer com sua vida implica algo muito próximo da egomania. Presumir apontar para o objetivo corretamente — apontar com um dedo trêmulo na direção CORRETA — é uma tarefa que apenas um tolo assumiria.”

— Hunter S. Thompson


A ansiedade por um futuro desconhecido

Para não assumir esse papel de tolo sozinho, recorri a um livro que estava na minha lista de leitura há um bom tempo: Man’s Search for Meaning — Em Busca de Sentido, de Viktor E. Frankl.

Pelo título, parece mais um desses livros motivacionais sobre “encontrar o seu propósito”, — eu sei, tive a mesma reação. Mas é muito mais que isso.

Frankl foi um neuropsiquiatra austríaco que não apenas sobreviveu aos campos de concentração nazistas, mas também atuou como médico e salvou outros prisioneiros de cometer suicídio. Além de ser o fundador de uma abordagem psicoterapêutica batizada de Logoterapia.

No livro, ele conta como foi sobreviver a tudo isso e de onde ele tirava sua motivação. Não é uma leitura para quem tem estômago fraco, mas traz ensinamentos incríveis.

Falando sobre crise e confinamento, meu principal dilema tem sido a produtividade, então eu tenho perfeita consciência que não tenho lugar de fala aqui. Mas Viktor Frankl, sim.

Sem comparar as dimensões de cada caso, um bom ponto de partida para compreendermos nosso confinamento é que o ser humano apresenta uma peculiaridade: somente conseguimos viver olhando para o futuro.

E quando esse futuro não é nítido, começam os problemas.

Para complicar, além da pandemia, vivemos também uma infodemia — um grande bombardeio de informações capaz de afetar nossa saúde mental causando confusão, pânico e ansiedade. Não apenas fake news, mas também uma inundação constante de notícias pesadas.

Tudo isso colabora com a falta de nitidez do futuro e ainda o torna abstrato. Não um abstrato artístico interessante de se contemplar, mas complexo e intimidador. 

Para ajudar, Frankl propõe a seguinte forma de aliviarmos o sofrimento e a ansiedade:


“A emoção, quando é sofrimento, deixa de ser sofrimento assim que formamos uma imagem clara e precisa dela.”

— Viktor E. Frankl, Man’s Search for Meaning


Porém, essa é a imagem é tudo o que não temos no momento.

Quer dizer, essa é uma das opções.


“O sofrimento de um homem é semelhante ao comportamento do gás. Se uma certa quantidade de gás for bombeada para uma câmara vazia, ela preencherá a câmara completa e uniformemente, independente do seu tamanho. Assim, o sofrimento preenche completamente a alma humana e a mente consciente, não importa se o sofrimento é grande ou pequeno. Portanto, o “tamanho” do sofrimento humano é absolutamente relativo.”

— Viktor E. Frankl, Man’s Search for Meaning


Não será a resiliência que vai te ajudar

Retornando ao criador do conceito de Cisne Negro, para Nassim Nicholas Taleb, a única forma que uma pessoa cresce em momentos assim é sendo Antifrágil. Outro conceito criado por ele para descrever sistemas e indivíduos que crescem com a adversidade e prosperam sob o efeito de volatilidade, estresses e choques.

E se você me perguntar, diria que o primeiro passo para sermos antifrágeis agora é justamente termos a humildade de admitir que não fazemos a menor ideia do que está por vir.

Essa é justamente a segunda opção.


Forças além do seu controle podem tirar tudo o que você possui, exceto uma coisa: a sua liberdade de escolher como vai reagir à situação. Você não pode controlar o que acontece em sua vida, mas sempre pode controlar o que vai sentir e fazer a respeito do que acontece.”

— Viktor E. Frankl, Man’s Search for Meaning


Escolhendo essa opção, reduzimos o tamanho da câmara e a imagem — antes abstrata, complexa e intimidadora — se torna uma página em branco.

Não digo isso no sentido de tratar a ignorância como uma benção, mas de filtrar a quantidade de informações que temos consumido sobre o COVID-19 e focarmos no que está ao nosso alcance.

A vida que conhecíamos se foi. É hora de repensarmos nossas ambições e desejos para decidirmos quem vamos ser hoje, não “quando tudo passar”. Como você vai contribuir? Como você vai sobreviver? Como você vai prosperar?

Numa visão otimista, pode ser um grande recomeço para todos nós.


“Agora você vai me contar a sua história (…) Escreva tudo. Conte a história um monte de vezes. Conte a sua história durante toda a noite. Quando você compreender que o que está me contando é apenas uma história… não está mais acontecendo… quando você perceber que a história que está me contando não passa de palavrório… quando puder simplesmente amassar tudo e jogar seu passado na lata de lixo, então poderemos descobrir o que você vai ser.”

— Chuck Palahniuk, Monstros Invisíveis

Dimitri Vieira

Dimitri Vieira

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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