Missa da Meia-Noite: uma aula surreal de Storytelling construída com sutilezas e toques de terror
Missa da Meia-Noite: uma aula surreal de Storytelling construída com sutilezas e toques de terror

Missa da Meia-Noite: uma aula surreal de Storytelling construída com sutilezas e toques de terror

Uma das melhores formas de se aprender mais sobre Storytelling é desconstruindo e analisando seus conteúdos preferidos. Se você me acompanha há mais tempo, provavelmente já me viu dizendo isso.

Quando digo conteúdos, vale para músicas, filmes e, claro, séries — como será o caso do texto de hoje.

Antes de começar a falar sobre Missa da Meia-Noite, precisamos falar sobre seu diretor e roteirista.

Mike Flanagan, hoje, é um dos maiores nomes quando se trata de filmes e séries de terror. Sua parceria com a Netflix rendeu as produções Maldição da Residência Hill e Maldição da Mansão Bly.

Depois de apertar o play na Maldição da Residência Hill esperando um clichê sobre mansões assombradas, minhas expectativas foram superadas e ganhei uma nova série preferida entre as produções da Netflix.

Desde então, faço questão de correr para assistir tudo que inclua o nome do diretor.

Já se passaram algumas semanas desde que assisti à Missa da Meia-Noite e confesso que não sei dizer ainda se superou a Residência Hill, ou não. Ainda estou digerindo tudo o que vi e, talvez, até o final deste artigo, eu consiga me decidir.

Antes da sinopse, deixa eu te adiantar que este artigo não terá spoilers.

Mike Flanagan fez um trabalho impecável para entregar cada elemento no momento perfeito.

Então, o mínimo que posso fazer é preservar sua experiência caso ainda não tenha assistido. Além de deixar você curioso o bastante para assistir ao primeiro episódio assim que terminar a leitura.

Uma sinopse para você que ainda não viu

Logo nos primeiros segundos, somos apresentados a Riley Flynn numa situação delicada.

Dirigindo embriagado, ele bate o carro, mata uma jovem e fica preso por 4 anos. Aterrorizado pela imagem da garota deitada no asfalto sem vida, seu período na prisão dura poucos minutos de tela.

Então, vemos que após conquistar sua liberdade, ele retorna para sua cidade natal, Crockett Island — uma ilha em decadência com 127 habitantes que parece caminhar para se tornar uma cidade fantasma.

Também acompanhamos a chegada do Padre Paul Hill à ilha, para substituir o antigo Monsenhor, que estava para retornar de uma viagem para Jerusalém.

E claro, eventos sobrenaturais começam a acontecer entre os membros da comunidade, que têm a religião católica como um forte elo para unir os habitantes.

Riley Flynn e Padre Paul Hill.

Construção natural do sobrenatural

Quem começa a ver Missa da Meia-Noite esperando uma sequência para as Maldições, tem uma quebra de expectativa inevitável.

Em vez de começar com um evento sobrenatural para te deixar tenso, a evolução é lenta e o começo é pacato — tão pacato quanto uma ilha de 127 habitantes seria.

No início, o foco principal é a ambientação e não demoramos a nos sentir como um morador de Crockett Island, frequentando as missas do recém-chegado padre aos domingos.

Mesmo com o ritmo devagar, sentimos uma tensão no ar e aquela clássica sensação de vai dar merda — confirmada aos poucos conforme os eventos sobrenaturais são introduzidos.

E aqui, o ritmo lento é uma peça-chave para construir uma verdadeira experiência imersiva e vivenciarmos cada momento como membros da comunidade.

Porém, outro elemento também é fundamental na construção da tensão.

A dualidade na trama

Enquanto Riley Flynn retorna à ilha como ateu, após buscar por Deus em todas as religiões possíveis enquanto estava preso, temos também a chegada do padre.

Essa é uma dualidade bem evidente na série e, desde o primeiro episódio, traz à tona diversas discussões sobre religião.

Uma sequência incrível também deixa isso claro nos primeiros minutos de série, revezando algumas cenas da celebração da missa com o encontro dos Alcoólicos Anônimos.

Outra dualidade tão importante quanto essa aparece na relação de Riley com outra personagem que acaba de retornar à ilha, Erin Greene.

Enquanto o retorno dele se justifica por ter tirado uma vida, o dela acontece por estar grávida e prestes a dar uma nova vida.

Por conta dessa dualidade, temos discussões incríveis sobre a existência, o significado da vida e o que acontece após a morte.


“O terror nos dá a oportunidade de olhar de verdade para nós mesmos e para as coisas que nos assustam, que nos perturbam, como sociedade e como indivíduos.”

— Mike Flanagan, em entrevista para o NY Times


Riley Flynn e Erin Greene.

O melhor projeto que Flanagan jamais faria

Para quem gosta de uma história de superação, a primeira vez que Mike Flanagan apresentou o projeto de Missa da Meia-Noite foi em 2014.

Na época, ninguém se interessou em produzir a série e ela foi recusada pela própria Netflix.

Enquanto dirigia outros filmes, Flanagan encontrou uma forma de inclui-la como easter egg e um livro com o mesmo título (Midnight Mass) aparece em Hush, de 2016, e Jogo Perigoso, de 2017.

Além da demora para emplacar, também é a produção mais vulnerável do diretor — que trabalha com adaptações na maioria de seus filmes e séries.

Onze anos se passaram desde que ele começou a trabalhar no roteiro da série e muito do que vemos nasce da experiência pessoal de Flanagan.

Quando criança, ele morou por algum tempo numa ilha — Governors Island, que fica na baía de Nova Iorque. Ele também foi coroinha e se assustou com algumas passagens do Antigo Testamento quando decidiu estudá-lo.

Mas a inspiração mais vulnerável vem do período que Mike Flanagan teve problemas com o alcoolismo:


“Meu maior medo não era morrer em um acidente de carro, ao dirigir bêbado. Era que eu mataria outra pessoa e sobreviveria.

— Mike Flanagan, em entrevista para o NY Times


Reflexões surreais que só uma boa história pode entregar

Com esses elementos e tanta inspiração na vida pessoal do diretor, Missa da Meia-Noite entrega uma experiência que só as melhores histórias podem proporcionar.

Seria fácil transformar a trama num conflito direto entre o ateu e os religiosos, ou até mesmo entre o ateu e o padre.

Em vez disso, ele nos permite vivenciar todos os acontecimentos ao lado dos personagens, enquanto a religião entra como uma espécie de subgênero para contextualizar os eventos sobrenaturais.


“Quando falamos sobre a vida após a morte e a alma, estamos falando sobre fantasmas. Não conseguimos evitar ser atraídos pela ideia de que a morte não é o fim, e que veremos as pessoas que perdemos novamente. Essa ideia é uma das coisas que me interessou em primeiro lugar pelo terror, e está por trás tanto das nossas religiões, quanto das nossas ficções de terror.”

— Mike Flanagan, em entrevista para o NY Times


Algumas pessoas até podem entender que a série critica a religião, mas não é bem assim.

As críticas sociais da série são direcionadas ao fanatismo religioso. Principalmente, ao ponto em que podemos chegar quando interpretamos as situações sempre a nosso favor.

Os diálogos são um espetáculo à parte e, sobre o final, vou dizer apenas três palavras.

Surreal. Catártico. Apoteótico.

Geralmente, esses adjetivos são exatos de forma exagerada, mas aqui não.

Só vou parar por aqui para preservar sua experiência com a série, e porque fiquei com vontade de rever o final só de falar sobre ele.

Se ainda não assistiu, pode se preparar para maratonar e, depois, fique à vontade para voltar e me agradecer. Aliás, tenho bastante inveja de você, porque você está prestes a ter a experiência de ver uma das melhores séries da Netflix pela 1ª vez.

Agora, é a sua vez de me dizer.

Conhece alguma outra série com a narrativa tão bem cuidada e trabalhada quanto essa? Me diz nos comentários, que estou curioso para conhecer sua recomendação.

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

Gostou do texto? Então, compartilhe.

Compartilhar no linkedin
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no pinterest
Compartilhar no email

E para receber os próximos textos em sua caixa de entrada, inscreva-se na Newsletter gratuita.

Comentários