Maldição da Residência Hill: uma obra prima e uma verdadeira aula de Storytelling em forma de série
Maldição da Residência Hill: uma obra prima e uma verdadeira aula de Storytelling em forma de série

Maldição da Residência Hill: uma obra prima e uma verdadeira aula de Storytelling em forma de série

Para aprender mais sobre storytelling, um dos melhores métodos é desconstruir e analisar seus conteúdos preferidos. Isso vale para artigos, músicas, filmes e também séries.

É justamente isso o que faremos aqui com a Maldição da Residência Hill — a melhor série produzida pela Netflix que vi até hoje e, claro, uma aula incrível sobre como construir boas narrativas.

Sério mesmo? Uma série sobre uma casa mal-assombrada não pode ser tudo isso.

Pelo menos essa foi uma das ideias que me veio à mente quando minha namorada, Luisa, sugeriu assistirmos à série.

Conhecemos bem esse clichê: um espírito assombra a casa, pessoas morrem, o protagonista insiste em ficar na residência apesar da solução óbvia de abandoná-la, alguns sustos e um final decepcionante.

Filmes e séries de terror não costumam fugir tanto disso, com algumas exceções.

E ainda bem que a Luisa insistiu, porque a Maldição da Residência Hill é uma belíssima exceção, como vamos ver.

Começando pelo fato que boa parte da trama acontece fora da casa, mostrando as cicatrizes e os reflexos da infância traumática dos irmãos Crain.

Caso seja familiar com storytelling e não conheça a série, prometo evitar spoilers e deixar você curioso o bastante para assistir ao primeiro episódio assim que terminar a leitura.

Se assistiu e gostou da série, mas não entende muito sobre storytelling, este artigo vai esclarecer alguns bastidores que justificam todo o sucesso que ela alcançou em 2018.

Agora, se você tem familiaridade com os dois, aproveite a leitura. Será uma forma de relembrar alguns dos melhores momentos da série e ainda aprender mais sobre a arte de contar histórias.

Uma breve sinopse para você que ainda não viu

A série nos apresenta a família Crain: os pais (Olivia e Hugh), seus cinco filhos — Steven, Shirley, Theo, Luke e Nell — e claro, a Residência Hill.

Um detalhe importante é que a narrativa não é linear, mesclando cenas de quando a família ainda morou na casa e os filhos eram crianças, com momentos de todos eles adultos.

Assim, a série não fica presa a mostrar a família Crain sendo assombrada pelas entidades sobrenaturais da residência e foca, principalmente, nas cicatrizes que cada membro da família adquiriu na infância. Além de forçá-los a enfrentar fantasmas de seu passado — tanto no sentido literal, quanto figurado.

No fim das contas, a Maldição da Residência Hill traz várias reflexões sobre o luto, a morte e como uma mesma situação pode afetar as pessoas e despertar emoções diferentes.

Experiência do usuário considerada na construção da narrativa

Hoje em dia, ao produzir qualquer conteúdo, precisamos nos lembrar da experiência do usuário, incluindo sua forma de consumo e a plataforma onde o conteúdo será veiculado.

Se ignorarmos esse fator, tem boa chance das pessoas exercerem a reciprocidade e também ignorarem o que temos a dizer.

Ou, na melhor das hipóteses, existe a possibilidade dos usuários ditarem a forma de consumo daquele material. Um exemplo interessante foi o que aconteceu com o filme O Irlandês, do diretor Martin Scorsese.

Como ele tem 3 horas e meia de duração, quando foi lançado na plataforma da Netflix,várias pessoas acabaram assistindo ao longa-metragem dividindo-o em episódios. E alguns sites até compartilharam instruções para ajudar.

Estamos falando de Martin Scorsese, um dos diretores vivos mais consagrados, e nem mesmo ele conseguiu escapar da experiência do usuário.

No caso da Maldição da Residência Hill, aconteceu algo diferente.

O diretor e roteirista da série, Mike Flanagan, entendeu a importância desse fator logo de cara e considerou a experiência do usuário desde a construção do roteiro.

Conhecendo o costume que temos de assistir a 2 ou 3 episódios em sequência, ele construiu arcos narrativos, quase como pequenos filmes dentro da série, para atender melhor esse formato de consumo.

Não foi à toa que, em 2018, a Netflix declarou que a Maldição da Residência Hill foi uma das séries mais maratonadas da plataforma.


Aqui vale até uma reflexão extra: por que quebramos um filme de três horas em diferentes sessões, mas, quando o conteúdo vem dividido em episódios, maratonamos por 3h ou mais sem maiores problemas? 🤔


Narrativa em círculos concêntricos

Esse é um dos aspectos que separa de vez a série de outros clichês — não apenas do gênero de terror.

Além da narrativa não ser linear, ela ainda segue uma estrutura de círculos concêntricos.

O que é Storytelling em círculos concêntricos?

Pense no primeiro círculo como uma contextualização geral da história e apresentação dos eventos principais. Depois, conforme a narrativa segue, esses eventos são revisitados e aprofundados por diferentes perspectivas.

No caso da Maldição da Residência Hill, são apenas dois eventos, que são apresentados logo no primeiro episódio.

Então, a cada capítulo, conhecemos perspectivas diferentes, enquanto a narrativa é recheada de flashbacks — que respingam como gotas de chuva, ou confete.

Com essa técnica, é possível retratar vários personagens a partir de um único evento e trabalhar um arco de transformação exclusivo para cada um.

Em filmes, é mais difícil encontrarmos esse formato de narrativa com muitos personagens em foco, por um motivo bem simples: falta de tempo para desenvolver cada um deles.

Aqui, como se trata de uma série de 10 episódios, estamos falando de pelo menos cinco círculos — um para cada um dos irmãos Crain.

Steven, Shirley, Theo, Luke e Nell (cada um deles) encaram um conflito particular, que não se resume ao sobrenatural, e terminam a história transformados — com várias mensagens associadas a essas mudanças.

Até então, falamos apenas da trama e da estrutura narrativa, e te garanto que a série já seria incrível sem precisar se aprofundar mais.

Mas disse na introdução que estamos falando da melhor série produzida pela Netflix que já vi; e não foi à toa. Ela não para por aí.

Alegorias e simbolismos muito bem construídos

Toda vez que me recomendam algum filme ou série pelo seu simbolismo, já desenvolvo uma certa desconfiança.

Para mim, um bom filme simbólico precisa funcionar dentro da alegoria criada e também no sentido literal. Se faz sentido apenas no campo virtual ou exige uma pesquisa ao final para entendê-lo, ele já perde alguns pontos.

Com a Maldição da Residência Hill, não é o caso.

Ignore todos os simbolismos e você tem uma série de terror incrível para assistir.

Agora, coloque os simbolismos em cena e temos uma verdadeira obra prima.

Um exemplo é que a série entrega uma metáfora surreal sobre ansiedade — principalmente quando pensamos nela como uma forma de sermos assombrados pelo futuro.

Outro exemplo é a forma elegante como Mike Flanagan estrutura as reflexões sobre a morte, usando os próprios personagens da trama para simbolizar os cinco estágios do luto:

  1. Negação
  2. Raiva
  3. Negociação
  4. Depressão
  5. Aceitação

Dessa forma, os cinco círculos concêntricos e os cinco filhos da família Crain fazem ainda mais sentido.

E como se não bastasse todo o cuidado com a experiência do usuário, a estrutura narrativa construída e os simbolismos, Mike Flanagan ainda teve um cuidado especial com o set.

Cereja do bolo: o set de filmagem

Nesse vídeo que contém spoilers, você pode ver a atriz Carla Gugino comentando:

O set da Maldição da Residência Hill foi o mais extraordinário em que já estive. Eles construíram uma casa real de dois andares em que poderíamos andar por ela toda.”

O principal motivo para isso é um episódio específico, que é todo filmado em plano sequência, sem cortes aparentes, com fortes influências do teatro e transitando entre as duas linhas temporais da série.

Definitivamente, não é fácil encontrarmos produções com esse nível de cuidado e detalhamento.

No final da série, cada detalhe que aparece na tela cumpre uma função específica e até mesmo o arco narrativo dos coadjuvantes é capaz de te emocionar.

Se você já viu a Maldição da Residência Hill, concorda comigo? Ficou com vontade de assistir à série de novo?

Só de escrever esse artigo bateu aquela vontade de revisitar alguns episódios e, pelo menos o primeiro, eu pretendo rever ainda hoje. Resta saber se vou conseguir parar nele. 😅

Se ainda não assistiu, separe a pipoca, prepare-se para tomar alguns sustos e aproveite. Nesse momento, tenho bastante inveja de você. Afinal, você está prestes a assistir a melhor série produzida pela Netflix que já vi — pela 1ª vez.

E claro, agora é a sua vez de me dizer:

Conhece alguma outra série com a narrativa tão bem cuidada e trabalhada quanto a Maldição da Residência Hill? Me diz nos comentários.

Quem sabe ela não aparece por aqui em um próximo artigo?

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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