O dia em que aprendi a fazer bolo (ou quase isso)

Nos tempos de faculdade, não era daqueles alunos populares que o curso inteiro conhece, nem fazia questão de ser. Mas uma história que vivi chegou nesse nível.

Um dos cálculos mais complexos que aprendi a fazer durante o curso de Engenharia Elétrica foi o tempo de chegada para a primeira aula. Eram raras as disciplinas que justificavam acordar tão cedo para estar ali na sala assim que o professor chegasse — com exceção dos dias de prova, é claro.

A maioria das matérias exigia um timing perfeito, para chegar nos últimos minutos, ou segundos, antes que o relógio batesse 8h e a aula completasse seus primeiros 30 minutos. Porque, quando isso acontecia, todo seu esforço era em vão e você tomava falta naquele dia.

Nesse dia, devo ter chegado por volta das 7:55 e, enquanto caminhava para dentro da sala, o olhar do professor sinalizava que eu havia acertado os cálculos naquele dia, mas ele parecia desejar que não. Fui em direção a uma das cadeiras mais ao fundo e, antes mesmo de me sentar, escutei ele me chamar pelo nome.

Ele testava o conhecimento dos alunos no melhor estilo primário, com 4 ou 5 fórmulas escritas no quadro, e me perguntou se eu conhecia uma variável específica da segunda fórmula. Para minha sorte, soube responder certo e achei que ele passaria a perguntar para outras pessoas. Que nada.

— E essa variável, Dimitri, o que ela significa?

— E essa?

Depois de responder “não sei” algumas vezes e notar que ele parecia querer provar algo me interrogando, facilitei a vida dele e passei a distribuir “não sei” no automático.

Até que ele perguntou:

— Você sabe, pelo menos, o que é homogêneo?

Respondi que não.

— E você sabe fazer bolo?

Também não, disse no automático.

Então, me lembro que ele citou alguns poucos ingredientes para misturar tudo numa vasilha: farinha, açúcar, ovo. Ele também parecia não saber tão bem como fazer bolo, mas isso pouco lhe interessava.

— Se você colocar o dedo num lado da vasilha e provar, vai ter um sabor. Se fizer isso em outro, terá outro sabor. Isso porque o bolo ainda não está homogêneo…

Ele prosseguiu dizendo que, após misturar, sim, aquela massa estaria homogênea. Despertando algumas risadas na turma, seu olho até brilhava de satisfação. Provavelmente provou o ponto que gostaria e, até hoje, quando me encontro com colegas de faculdade, é comum eles desenterrarem essa história para me perguntar se aprendi a fazer a bolo.

Tanto afeto assim não surge por nada e essa intimidade para me ensinar receitas em plena aula nasceu um pouco antes.

Alguns meses atrás, estava sentado diante dele em seu gabinete. Uma espécie de mini escritório reservado para os professores que precisávamos visitar de tempos em tempos para tentar resolver algum problema, que geralmente não se resolvia.

Dessa vez, estava pedindo demissão do projeto de iniciação científica que ele coordenava. Havia entrado no meio de maio por conta da experiência que tinha na área de Otimização de Algoritmos e, um mês e meio depois, descobri porque aquela iniciação pagava um pouco mais que as outras, oferecendo uma bolsa de R$ 800.

No mês de julho, o mesmo professor que me ensinaria a fazer bolo exigia que os alunos trabalhassem o dobro do tempo por conta das férias: 8 horas em vez de 4.

Depois dessa descoberta, prestes a sair de férias, fui direto para seu gabinete e, além da carga horária, também disse que a área em que estava trabalhando no seu laboratório não era exatamente o que imaginava quando entrei.

Nessa altura do campeonato, já conhecia alguns professores com aquele perfil: queixo levemente erguido para reforçar a superioridade no olhar e um tom de voz de quem acredita ser inatingível — como se alguém tivesse interesse de atingi-lo de alguma forma.

A primeira coisa que ele fez foi ligar para os responsáveis pela bolsa.

— O valor já foi depositado na conta do Dimitri? E não tem como retirar?

O olhar de superioridade se manteve e, ao confirmar o óbvio, ele desligou o telefone e me deu a seguinte ordem:

— Você vai fazer o seguinte: pega a ata que registra os dias de trabalho do pessoal do laboratório e faz um levantamento para mim de quantos dias você trabalhou. Qualquer número menor que um mês, você vai me devolver o valor proporcional aos dias que faltavam.

Expliquei que poderia fazer isso sim, mas que estava trabalhando há um mês e meio e que, se fizesse aquela conta, era ele quem precisaria acertar um valor proporcional ao que faltava. Mas claro que isso jamais aconteceria.

Se a supremacia não se manteve no olhar, ele precisava confirmá-la no discurso.

— Então, tá tudo certo. Até poderíamos nos ajeitar por aqui te colocar em outra área, mas se você não está disposto a trabalhar 8 horas nas férias, você não tem perfil para continuar trabalhando no meu laboratório mesmo não. Pode me devolver a chave do laboratório.

O clássico “não é você que está pedindo para sair, sou eu quem estou te demitindo”.

Coloquei a chave na mesa e não sei como seria a sensação de remover grilhões — daqueles com bolas de ferro — das pernas, mas esse foi um dos momentos em que experimentei o mais próximo disso.

Sobre aquele clichê de comer o pão que o diabo amassou no começo de carreira e tolerar qualquer perrengue… não, obrigado.

Nem o pão, nem o bolo.

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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