Será que o feminismo passou dos limites?
Será que o feminismo passou dos limites?

Será que o feminismo passou dos limites?

Na última semana, publiquei um artigo aqui no LinkedIn falando sobre superar o medo de escrever e mencionei que toda escrita é autobiográfica.

Pois então, a verdade é que eu estava escrevendo para me ajudar a criar coragem para escrever este artigo.

Eu tenho perfeita consciência que não sou a melhor pessoa para falar sobre esse tema. E também sei que um homem escrever sobre feminismo já soa errado.

Faz algum tempo que estou querendo falar sobre o assunto e tenho percebido, cada vez mais, que precisamos conversar sobre isso.

Então deixa eu te explicar melhor:

Por que decidi falar sobre feminismo?

Só no mundial na Rússia, tivemos duas situações com grande repercussão envolvendo assédio e discussões acerca do feminismo.

A primeira — tenho certeza que você ficou sabendo — foi a dos torcedores brasileiros gritando sobre determinada parte do corpo junto com uma russa. E a segunda, você pode conferir no vídeo abaixo, caso ainda não tenha visto:

Não foram essas situações em si que me motivaram a escrever, mas algumas discussões que presenciei a respeito delas.

Como o fato de muitas pessoas terem achado um exagero, que o ocorrido não foi nada demais e que toda a repercussão foi apenas uma grande tempestade em copo d’água promovida por feministas que haviam passado do limite.

Algumas outras frases específicas, como:

“O feminismo está ficando tão chato que me deixou mais machista.”

Aqui, eu preciso fazer uma confissão, pois falei algo muito parecido há cerca de um ano e meio. Mas, como eu afirmei em um outro artigo: é preciso sentir vergonha do que você fez um ano atrás.

E também a seguinte afirmação, que cheguei a ouvir de mulheres:

O feminismo se tornou o oposto do machismo

Não. Não se tornou.

O feminismo é um movimento que busca unicamente a equidade entre os gêneros, ou seja, direitos iguais entre homens e mulheres.

O machismo, por outro lado, se sustenta em conceitos como o patriarcado para colocar o homem numa posição de superioridade em relação a mulher.

Percebe a diferença? O movimento feminista jamais tentou colocar as mulheres em uma posição mais vantajosa e também nunca declarou guerra aos homens de forma generalizada, mas sim ao sexismo.

É claro que toda causa sempre tem alguns extremistas e, numa era governada pelas mídias sociais, esses grupos acabam ganhando maior destaque. Por isso, é importante entender o seguinte:

Toda generalização é burra

Sempre haverá alguém que levanta a bandeira de um movimento de forma suja e deturpada. O feminismo não está isento disso.

Não devemos afirmar que todo muçulmano é terrorista. Nem que todo padre é pedófilo. Ou que todo morador de rua é bandido. Então por que insistimos que todo feminista é extremista?

“Os estereótipos são numerosos. Os grupos étnicos são estereotipados, os cidadãos de outras nações e religiões são estereotipados, os gêneros e as preferências sexuais são estereotipadas (…) A interpretação mais generosa atribui esse modo de pensar a uma preguiça intelectual: em vez de julgar as pessoas pelos seus méritos e deficiências individuais, nós nos concentramos em uma ou duas informações a seu respeito, que depois inserimos num pequeno número de escaninhos previamente construídos. (Carl Sagan)”

Apenas como exemplo, deixa eu te contar uma situação onde acho que as coisas passaram do limite:

Quando esse cartaz saiu, houve manifestações contra ele e o filme, sugerindo até mesmo boicote ao longa-metragem, pela imagem fazer apologia da violência contra a mulher.

O que não deixa de ser verdade, pois o outdoor mostra explicitamente um homem segurando uma mulher pelo pescoço. Então, porque achei exagero?

  1. Trata-se não apenas de ficção, mas de um filme de heróis, em que sempre há combate físico entre um ou mais vilões e heróis. Caso algum dos personagens seja mulher, ela estará envolvida em lutas;
  2. Se você ver o filme, vai descobrir que a Mística (personagem segurada pelo pescoço) é a grande salvadora e heroína da história. Portanto, se o cartaz faz apologia da violência contra a mulher e a coloca em uma posição inferior, o filme como um todo, não.

(Perdão pelo spoiler, mas se você ainda não viu o filme, não está perdendo nada demais.)

Mas o melhor dessa história foi a postura da Fox. Ao saber do desconforto que causou com a imagem de divulgação do filme, eles simplesmente se desculparam e removeram os materiais que continham essa cena. Nada mais.

E essa atitude é um excelente insight para o nosso último tópico. Mas primeiro quero desmistificar algumas frases típicas que nós, homens, falamos:

Mas só olhar já virou estupro

E não virou. Mas é claro que existe uma grande diferença entre olhar e, bem, isso aqui embaixo:

Mas o Bob Esponja e cia. provavelmente estavam olhando para alguma comida. Percebe a diferença?

Sei que compreender a objetificação da mulher pode não ser tão simples.

Eu, por exemplo, cresci nos anos 90, quando a banheira do Gugu passava de tarde na TV aberta, cervejas eram vendidas em comerciais com mulheres de biquíni e É o Tchan era considerado um entretenimento adequado para crianças.

Ou seja, passei grande parte da minha vida acreditando que tudo isso era normal e, assim, tive muita dificuldade de enxergar que a mulher muitas vezes era transformada em um mero commodity.

E foi ainda mais difícil compreender pelo que o feminismo lutava. Como assim direitos iguais? As mulheres já não estão inseridas no mercado de trabalho e têm direito ao voto?

Pois o buraco é mais embaixo, meu caro.

Quando eu ando na rua de madrugada, eu até tenho medo, mas temo pelos meus bens materiais e não pela minha integridade física. E quando chamo um uber, não me preocupo em compartilhar a rota com ninguém para me precaver.

E esses foram apenas dois exemplos simples que me vieram em mente. Mas posso listar vários outros:

  1. A conta nos restaurantes é sempre entregue ao homem;
  2. Os clássicos fiu-fius na rua;
  3. As piadinhas que mulher não sabe dirigir;
  4. A ideia que toda mulher tem o sonho de se casar;
  5. Culpar a mulher por ser sensual ou por sua vestimenta em casos de assédio.

E a forma que eu encontrei para me policiar e garantir que me tornasse uma pessoa menos machista foi a seguinte:

Vamos abrir mão do protagonismo?

Afirmar que olhar já virou estupro e querer culpar a mulher pela forma como ela veste, ou como ela dança, por exemplo, é um discurso extremamente perigoso. Quase tão perigoso quanto afirmar que a minissaia é um convite aberto.

Dizer isso é de um egocentrismo enorme, porque assumimos que somos protagonistas de absolutamente tudo que acontece ao nosso redor. Até mesmo quando envolve pessoas desconhecidas.

A mulher não pode se vestir de forma mais ousada simplesmente porque ela se sente bem assim? Ou porque ela se sente mais confortável assim? Ou talvez tenha feito uma tatuagem nova?

Os motivos são inúmeros e, muito provavelmente, não foi para você. Nem para mim.

Compreender os limites e ter respeito é fundamental. Portanto, caso esteja na dúvida se deve ou não fazer algo, não faça.

Um exercício muito interessante para detectar se uma situação é sexista, ou não, é inverter os papéis. Troque o homem pela mulher e, caso deixe de fazer sentido ou fique engraçado, provavelmente tem algo de errado.

O filme “Não sou um homem fácil” se propõe a fazer exatamente essa troca de papéis e nos proporciona uma excelente reflexão.

Como você pode ter uma ideia por essa imagem, o filme estereotipa demais. Mas isso facilita a compreensão e ainda rende boas risadas.

E se você acabar ofendendo alguma mulher, mesmo que seja sem querer, ou mesmo que você não enxergue sua atitude como machista, não seja protagonista. Lembre da postura da Fox: não tente se justificar, apenas peça desculpas e procure corrigir sua atitude.

Você pode até não entender sua ação como ofensiva agora, mas talvez se envergonhe dela daqui um tempo. Assim como eu me envergonho hoje da frase que mencionei no início do artigo.

Para finalizar, guardei um reforço de peso para me ajudar na argumentação:

“Como todos viemos de uma mulher, recebemos nossa vida de uma mulher, me pergunto por que nós maltratamos nossas mulheres? Por que nós violentamos nossas mulheres? Odiamos nossas mulheres? Eu acho que está na hora de defendermos nossas mulheres, de curar nossas mulheres e sermos honestos com elas. E se isso não acontecer, teremos uma geração de crianças que odiarão as mulheres. (Tradução livre de Keep Ya Head Up, do rapper 2Pac)”

Há um ano, se eu me deparasse com este artigo, eu com certeza brigaria muito com ele (talvez até com o autor), mas no final acredito que acabaria cedendo e concordando. Então, espero conseguir alcançar alguns novos Dimitris.

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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