Em um mundo que decidiu enlouquecer, seja mais gentil
Em um mundo que decidiu enlouquecer, seja mais gentil

Em um mundo que decidiu enlouquecer, seja mais gentil

Último texto de um ano tão particular e extravagante, e também o artigo de número 80 no LinkedIn. Uma abordagem mais reflexiva é inevitável, mas prometo fazer meu melhor para não cair em clichês motivacionais que mais parecem canto de torcida.

Não precisei pensar tanto para decidir sobre o que falar por aqui hoje. A resposta foi uma trilha sonora que me acompanha desde 2018, até marcada na pele, e que parece mesmo ter sido composta especificamente para o ano de 2020.

Quer produzir algo atemporal? Escreva sobre crises e como amenizá-las.

Em 2018, o cantor britânico Frank Turner lançou Be More Kind, um álbum dedicado para falar sobre como o mundo estava enlouquecendo, quando Donald Trump foi eleito.

Dois anos depois, pode-se dizer que o mundo enlouqueceu um pouco mais e o disco, hoje, faz mais sentido do que nunca.

Survival Blues não é uma expressão fácil de traduzir para o português, mas como traduz bem o ano de 2020. Seria algo que compila a melancolia e a melodia de sobrevivência.

E a faixa 21st Century Survival Blues é uma das que mais parece profetizar o que viveríamos este ano — com uma dose de pessimismo que é contornada no decorrer do álbum:


“Eu tenho a ‘melancolia de sobrevivência’ do século 21 — uma condição causada por assistir ao noticiário. As coisas estão quietas por muito tempo e, se eu conheço os seres humanos, elas vão dar errado.

— 21st Century Survival Blues, Frank Turner


Be More Kind sugere o acontecimento de um apocalipse, com algumas doses de revolução, esperança e, principalmente, o desenvolvimento de conexões humanas no lugar do isolamento causado pelas mídias sociais.

Como o próprio Turner diz em seu livro, Try This At Home: Adventures in Songwriting, o primeiro verso de um disco é um dos mais importantes para definir o tom do que virá a seguir:

Não se preocupe se você não sabe o que fazer

Apesar do foco otimista num momento dominado pelo pessimismo, Be More Kind não entrega falsas promessas e foge de chavões motivacionais. Isso fica nítido logo na primeira faixa:


“Don’t worry if you don’t know what to do. I’ve spent a little time in worried shoes. I wore them out through walking, it wasn’t any use. Don’t worry if you don’t know what to do.”

— Don’t Worry, Frank Turner (Essa não deu para traduzir, ou perderia a alegoria construída com worried shoes.)


Em abril deste ano, escrevi um artigo dizendo que ter a humildade de admitir que não fazemos ideia do que está por vir é o primeiro passo para encarar qualquer crise.

Apesar de ter esbarrado com alguns especialistas no mundo pós-pandemia, mantenho minha opinião.

Não no sentido de tratar a ignorância como benção, mas de filtrar a quantidade de informações que consumimos e focar nossas ações no que está ao nosso alcance.

Aqui, é inevitável lembrar também de Victor Frankl:


Forças além do seu controle podem tirar tudo o que você possui, exceto uma coisa: a sua liberdade de escolher como vai reagir à situação. Você não pode controlar o que acontece em sua vida, mas sempre pode controlar o que vai sentir e fazer a respeito do que acontece.”

Em Busca De Sentido, Victor Frankl


Em um mundo que decidiu enlouquecer, seja mais gentil

Em 2011, o escritor australiano Clive James foi diagnosticado com leucemia terminal e passou a escrever poemas que ele próprio batizou de “canções fúnebres”.

Um desses poemas merece maior atenção: Leçons de Ténèbres — principalmente o seguinte trecho:


I should have been more kind. It is my fate

To find this out, but find it out too late.

(Eu deveria ter sido mais gentil. É meu destino

Descobrir isso, mas descobrir tarde demais)”

Leçons de Ténèbres, Clive James


Esses foram os versos que inspiraram a faixa que dá nome ao álbum, ao artigo e uma das músicas que mais tocou nos meus fones de ouvido nos últimos anos.

E é essa a mensagem que o Frank Turner faz ecoar com maestria na canção Be More Kind.


“Começaram a levantar muros ao redor do mundo, 

Como os pêlo arrepiados de um gato encurralado

Nas fronteiras, em nossas cabeças

Entre coisas que podem e não podem ser ditas

Paramos de falar um com o outro

E há algo errado com isso

Be More Kind, Frank Turner


Embora os muros citados sejam uma clara referência aos planos de Trump para construir um muro na fronteira com o México, eles continuam fazendo sentido pensando no isolamento.

Não apenas o isolamento social, mas principalmente o isolamento pelas mídias sociais.

Com elas, criamos personagens. Tanto para nós mesmos, quanto para outras pessoas.

Não é à toa que, em discussões online, encontramos absurdos que jamais seriam ditos para outras pessoas presencialmente — pelo menos não antes da internet.

Além de normalizar esses absurdos, as mídias sociais se tornaram uma máquina para desumanizar desafetos.


“Qualquer historiador amador lhe dirá que, no momento em que qualquer sociedade começa a tratar seus oponentes como menos que humanos, sérios problemas acontecem logo em seguida.

Try This At Home: Adventures in Songwriting, Frank Turner


Antes de procurar, não decida o que encontrar — é a sugestão do cantor, pouco antes de caminhar para o desfecho da música.

Aqui, ele até apela para um clichê afirmando que o interlocutor não está sozinho, mas cria um cenário para ilustrar isso:

O vento nos levou para o mar e onde fica a terra firme é difícil dizer. Enquanto a correnteza nos arrasta pela costa, não temos mais como saber quem está se afogando, ou se eles ainda podem ser salvos.


“Quando você estiver perdido se debatendo

Como um farol vou brilhar

Sejam mais gentis, meus amigos, tentem ser mais gentis

Em um mundo que decidiu

Que vai perder a cabeça

Sejam mais gentis, meus amigos, tentem ser mais gentis.

Be More Kind, Frank Turner


A ideia do farol pode parecer exagerada, romantizada ou até poética demais, mas não deixa de ser verdade. É o resultado de pequenas mudanças, pequenas atitudes e pequenos compartilhamentos.

Na música, o cantor se coloca à disposição como o farol para ajudar o interlocutor. Mas podemos dividir esse papel com ele.

Se for para fechar com meus votos de ano novo: reforço o coro do Frank Turner.

Em um mundo que decidiu enlouquecer, sejamos mais gentis. Sejamos o farol para resgatar quem pudermos ajudar.

Como Turner diz em Lifeboat, agora, existem histórias que merecem ser contadas e vitórias para mais valiosas do que ouro — certamente, falaremos delas para as futuras gerações.

Muito obrigado por ler e me acompanhar até aqui. Em 2021, seguimos juntos para contar e construir essas histórias.

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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