O jogo virou e a "fanfic" do momento é a de "um LinkedIn sem fanfics"
O jogo virou e a "fanfic" do momento é a de "um LinkedIn sem fanfics"

O jogo virou e a “fanfic” do momento é a de “um LinkedIn sem fanfics”

“Por que o LinkedIn é uma rede social tão odiada?” era o título de uma matéria da uol, que saiu em agosto de 2021.

Na época, ensaiei escrever algo como resposta, porque o texto generaliza os conteúdos que circulam pelo LinkedIn de uma forma incômoda.


“Com tantos usuários querendo ‘vender o peixe’, o conteúdo do LinkedIn vaza para outras redes sociais com publicações problemáticas, polêmicas ou apenas clichês demais.”

— “Por que o LinkedIn é uma rede social tão odiada?”, Marie Declercq


Também relutei em escrever esse artigo por um motivo que você logo vai entender.

Mas logo reparei que a matéria é reflexo dos conteúdos linkedianos que ganham maior destaque em outras plataformas.

É uma resposta natural odiar o LinkedIn, se você acompanha apenas os prints que circulam pelo Twitter.

Da mesma forma que o deboche da página das Fanfics Corporativas sempre me arrancou boas risadas, sendo um raro motivo que me fazem lembrar que o Facebook ainda existe.

Antes de encerrar a matéria, como numa nota de rodapé, Marie Declercq coloca Murillo Leal como porta-voz para dizer que existem bons conteúdos de pessoas que não defendem esse ‘mundo mágico’ do LinkedIn.

Será que o problema é só esse “mundo mágico”?

As fanfics corporativas não são o problema do LinkedIn

Entre 2018 e 2019, o LinkedIn era facilmente um dos canais em que eu mais consumia conteúdo.

Sabia de cabeça o dia da semana que algumas pessoas que admiro postavam novos artigos, e fazia questão de acompanhar cada publicação.

Nessa época, as histórias mirabolantes de superação já circulavam. Só não haviam sido batizadas como fanfics corporativas ainda.

E mesmo “conteúdos de valor” sendo subjetivos, eles também sempre existiram.

É uma simples questão de escolher o que você prefere consumir — que insistimos em complicar.

Sabe aquela máxima que a culpa nunca é da ferramenta, mas de quem a utiliza?

Por isso, acredito que as fanfics são apenas um reflexo do principal problema por aqui: a Lei do Mínimo Esforço.

Mesmo que existam profissionais incríveis compartilhando conteúdo, boa parte escolhe publicar o que for minimamente trabalhoso e traga o máximo alcance possível.

É por isso que vemos publicações como essa:

Em números, são praticamente imbatíveis. Na métrica de resultado por esforço, mais ainda.

Nessa mesma conta, entram as histórias mirabolantes e vários clichês que viralizam no Twitter e nas Fanfics Corporativas.

No fim das contas, os criadores das histórias mirabolantes, do “clique duas vezes na imagem”, “comenta ‘eu quero'” e cia. estão dançando a mesma música, com coreografias bem parecidas.

Cheguei a escrever sobre conteúdos assim algumas vezes, mas logo entendi que criticar esse comportamento funcionava apenas como posicionamento. Entre os autores, quase não surte efeito.

Maior alcance, menor esforço, a conta fecha e é isso o que produzem.

Em vez de insistir nessa, fiz uma faxina caprichada no meu perfil e limpei as fanfics.

Porém, um novo gênero surgiu.

Um LinkedIn sem fanfics também é uma fanfic

Hoje, tenho a impressão que metade dos conteúdos viralizam são histórias mirabolantes de reviravolta. Enquanto, a outra metade critica essas histórias.

As anti-fanfics, que atacam os excessos e clichês do LinkedIn, se tornaram um nicho de conteúdo.

Num primeiro momento, parecem assuntos que se contrapõem. Mas, se você olha bem, as semelhanças podem assustar.

Templates prontos, temas em alta e uma lição de moral no final — essa é a fanfic.

Troque a lição de moral pelo deboche, ou adicione um X ao que você quer critica, e voi-la.

Clique duas vezes se você não aguenta mais os posts de “clique duas vezes”.

Em alguns casos, também há referência para bons conteúdos no mesmo padrão de nota de rodapé da matéria da Marie Declercq.

“Não escreva fanfics. Você precisa escrever conteúdo real” é quase um mantra.

Num vídeo recente, incorporei um personagem que te ensina a viralizar no LinkedIn e brinquei justamente com essa situação.

— Além das fanfics, tem outro jeito muito mais fácil de viralizar.  É só você criticar e debochar dessas histórias, falando que é tudo utopia e que o negócio mesmo é conteúdo de verdade!

— Aí eu pego, faço um post desse e, no próximo, começo a escrever conteúdo de verdade?

— Não, não, não, não, não. Pode parar com isso, porque esse negócio aí dá muito trabalho e não é garantido que vai viralizar. O segredo é criticar e debochar. Criticar e debochar.

(Para conferir o vídeo na íntegra, é só clicar aqui.)


Um apontar de dedo distante, um anúncio do problema e uma menção à solução. A prática fica em segundo plano.

Eu penso na queda do Facebook e imagino duas pessoas correndo para o LinkedIn ao saber da notícia.

A primeira anuncia: “pode preparar para encontrar lições que o pessoal aprendeu com a queda do Facebook”, enquanto a segunda escreve essas lições. Parece até um trabalho em dupla quando olhamos assim.

No fim das contas, é uma paródia da música que ditava as coreografias anteriores, mas a letra pouco muda.

O que nasceu como um movimento contra algo que não trazia conteúdos reais acabou se tornando uma estratégia bem próxima do que tanto criticava.

O ódio do Twitter e o deboche das Fanfics Corporativas invadiram o LinkedIn, com uma grande diferença: a autopromoção entra em jogo.

Se, antes, era um movimento natural. Hoje, não é mais.

A autopromoção das histórias exageradas ganhou traços auto-depreciativos e ganhamos no deboche. Mas o posicionamento contra os excessos se tornou o novo excesso — com seus próprios toques performáticos.

O jogo virou, a fanfic do momento é a de um LinkedIn sem fanfics, e nasceu uma nova espécie de avatar entre os usuários da rede.

Além do personagem que vive mais reviravoltas em um dia do que a Ilíada completa, ganhamos o personagem que repete esses acontecimentos para atacá-los exaustivamente.

E existe solução, por acaso?

Outra máxima diz que, se você não faz parte da solução… você é parte do problema.

Atacar um inimigo comum é perfeito como porta de entrada para se apresentar aos inimigos de seus inimigos. Se focamos demais nisso, incentivamos a polarização e estamos a um passo de ataques pessoais.

Talvez, esse movimento seja novo no LinkedIn. Fora, certamente não é, e quem acompanha política sabe como pode ser bem perigoso.

Depois de um monólogo com mais de mil palavras discutindo sobre “apontar o dedo sem praticar”, não vou encerrar com o mantra de “você precisa escrever conteúdo real”.

Inclusive, foi por isso que evitei escrever este texto por algum tempo.

Se as fanfics eram a camada original e as anti-fanfics inauguraram uma sub-camada, agora, estaríamos no terceiro nível do subsolo.

Então, este artigo não é exatamente parte da solução.

E, se você quer uma frase de efeito antes de fecharmos, tenho mais perguntas que respostas.

Quando você escreve e compartilha algo com o mundo, o que você valoriza mais: o que tem a dizer ou a quantidade de pessoas que te aplaudiriam por dizer isso?

No que você prefere investir tempo e energia: criticando e reclamando de algo que não acredita, ou nas ideias que você acredita e defende com unhas e dentes?

Como você acredita que pode ajudar as pessoas aqui na rede?

Se quiser ir mais longe, como você quer ser lembrado?

Começando por aí, é uma bela forma de não esquecermos os bons conteúdos numa nota de rodapé — como vem acontecendo.

Antes que eles passem a ser tão utópicos quanto um LinkedIn sem fanfics.

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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