A mentira feita de verdades

Como a internet e a nostalgia te manipulam


🎵 ▶Recomendo ler ouvindo: Impose, do Bad Omens


Durante o Rock in Rio, um amigo me enviou um vídeo que mostrava o palco principal e dizia:

— O que houve com o Rock in Rio? Esse é o Palco Mundo e está completamente vazio.

Quem dera.

Eu estava lá justamente nos dois primeiros dias, dedicados ao rock, e adoraria ter essa tranquilidade pra assistir aos shows tão de perto.

O vídeo, porém, não é exatamente falso. E é aqui onde mora o problema.

O Rock in Rio deste ano realmente não esgotou todos os ingressos.

Houve shows mais vazios, principalmente no começo dos dias. A imprensa registrou apresentações em que era relativamente fácil chegar perto da grade e, no balanço final, quatro das sete datas ainda tinham ingressos disponíveis, mesmo após o festival começar.

Isso é fato.

Porém, mais de 700 mil pessoas passaram pela Cidade do Rock durante os sete dias de festival. No show do Foo Fighters, havia dezenas de milhares de pessoas cantando “My Hero” juntas.

A mentira feita de verdades

“Não esgotou todos os ingressos” é verdade.

“Teve momentos com espaços vazios” também.

“Rock in Rio estava vazio” já é outra coisa.

— Se Stevie Wonder é cego e o amor é cego, Stevie Wonder é o amor? — diria o exercício de lógica.

Só que o problema aqui vai um pouco além de exercício de lógica.

“Não estava lotado, embora houvesse bastante gente, variando por horário, palco e dia” é uma péssima thumbnail.

“FLOPOU” funciona muito melhor.

A mentira feita de verdades — imagem 1

Não sei você, mas tenho a impressão de que passamos boa parte do nosso dia a dia nesse limiar. Entre uma realidade complexa demais para caber numa legenda e uma legenda simples demais para representar a realidade.

A nostalgia mente

O Rock in Rio é o tema perfeito para falar disso, porque existe um ritual que se repete a cada edição.

Alguém olha pro line-up e lança a clássica:

— O Rock in Rio não é mais o mesmo. Não tem mais rock como antigamente.

Antigamente tudo sempre era melhor.

As músicas.

Os filmes.

O futebol.

O LinkedIn.

Ok, talvez essa última seja exagero.

Mas o que é esse “antigamente” do Rock in Rio?

Até hoje, tivemos 11 edições do festival no Rio de Janeiro.

1985…

1991…

2001…

2011, 2013, 2015, 2017, 2019, 2022, 2024 e 2026.

Só que, quando o pessoal fala do Rock in Rio de antigamente, sempre vem com uma foto do Queen ou do AC/DC junto.

A mentira feita de verdades — imagem 2

Ou seja, é uma única edição — a de 1985 — que teve Queen, AC/DC, Iron Maiden, Ozzy Osbourne e Scorpions.

Mas também teve Ney Matogrosso, George Benson, Al Jarreau, James Taylor, Gilberto Gil, Ivan Lins, Elba Ramalho, Alceu Valença e Moraes Moreira.

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Em 1991, tivemos Guns N’ Roses e Judas Priest.

Mas também Prince, George Michael, New Kids on the Block e Run-D.M.C.

E em 2001, tivemos Britney Spears, NSYNC e até mesmo Sandy & Junior.

Pois é, o festival que deixou de ter rock como antigamente teve Dig-dig-joy, dig-joy-popoy em sua terceira edição.

Rock in Rio sempre foi uma marca, nunca foi um festival de rock.

Mas o ponto principal não é o gênero musical do festival.

O “depende” não viraliza

Nossa cabeça gosta de histórias fechadas. A internet gosta ainda mais.

Herói ou vilão.

Sucesso ou fracasso.

Gênio ou picareta.

Rock ou não rock.

Lotado ou vazio.

Nuances exigem aquela coisa desagradável chamada “pensar por alguns segundos”. E nenhuma rede social (ou guru) tem interesse real de que você fique parado tanto tempo.

Polarizar pode até ser uma boa ferramenta de comunicação. Às vezes, didática. Você coloca duas ideias nos extremos para criar contraste, marcar posição e dar uma forma mais clara à mensagem.

O problema começa quando o recurso que usamos para explicar o mundo passa a ser confundido com o próprio mundo.

Uma câmera apontada para alguns metros de grade transforma um evento inteiro em conclusão. Nem precisa falsificar a imagem — apesar de não ser tão difícil fazer isso hoje em dia.

E é uma das coisas que mais precisamos lembrar quando passamos alguns minutos, ou horas, em alguma rede social. Estamos alimentando nossa visão de mundo com uma sucessão infinita de enquadramentos.

Enquadramentos que podem registrar um festival com 700 mil pessoas e, na sua tela, aparece vazio.

1985 pode ter George Benson, Al Jarreau e Ivan Lins, e sobreviver na memória coletiva como a época em que “era rock de verdade”.

Na dúvida, desconfie quando a realidade vier simples demais. Principalmente quando ela só tiver duas cores.

Porque o bom senso raramente viraliza.

Mas isso não significa que ele tenha deixado de existir.

Só significa que, enquanto todo mundo corre para a grade dos extremos, talvez ainda tenha bastante espaço no meio.


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