🎵 ▶Recomendo ler ouvindo: It was gonna be you, do Passenger.
Acordei numa manhã qualquer, levantei da cama e H. já estava ali.
Não foi exatamente uma surpresa.
Ela vinha passando cada vez mais tempo por aqui.
Primeiro, aparecia de vez em quando. Depois passou a ficar alguns dias. Sumia. Voltava. Até que, em algum momento, H. passou a saber até onde guardo meus copos.
O problema é que nossa convivência não era exatamente tranquila. Ela tinha opiniões.
Muitas.
Sempre que passávamos tempo demais no sofá vendo alguma coisa:
— Depois você reclama que não faz nada.
Se eu falava que precisava descansar:
— Engraçado. Pra trabalhar, você sempre dá um jeito.
Alguns meses atrás, resolvi voltar para a academia e ela foi comigo.
O agachamento virou uma espécie de desafio particular entre nós dois. Sempre revezávamos o aparelho e, enquanto eu fazia o exercício, ela observava.
De repente, me dava um cutucão e soltava:
— Não vai agachar direito não? Certeza que tá fazendo certo?
Nem dizia exatamente que eu estava fazendo algo errado, e nem precisava. A pergunta fazia o trabalho e, claro, perguntar não ofende.
H. era particularmente talentosa nisso e o mais irritante era que, quase sempre, ela tinha razão.
Seguimos assim por alguns meses.
Ela me provocava e continuávamos convivendo juntos — quase todos os dias.
Há quem veja um relacionamento abusivo aqui, mas entendo que as provocações eram para me ajudar a evoluir.
Naquela última manhã, por exemplo, bastou colocar o pé no chão para ouvir mais uma vez:
— Vai levantar desse jeito mesmo?
Fomos até a academia logo cedo, antes do sol nascer, e o primeiro exercício do dia era o ritual do agachamento.
Coloquei as anilhas na barra, olhei em volta, agachei.
Nada de cutucão.
Nada de comentário sobre meu exercício.
Outra repetição e, de novo, nada.
Mais uma.
Fechei a série e nada de H. se manifestar.
Alonguei minha coluna, estalei o pescoço e nada.
Finalmente, a Hérnia ficou quieta. 1
O tempo ganhou novas unidades nos últimos meses.
Contei dias em alongamentos e semanas em sessões de fisioterapia.
O colchonete no chão da sala virou parte da decoração.
Quem olhasse pela janela poderia imaginar um sujeito estoico e iluminado. Daqueles que começam o dia com ioga antes de agradecer ao universo.
Nada.
Era só os 30 me mandando um alô codificado entre L4 e L5.
Recebi esse diagnóstico num momento profissional fantástico.
Além do trabalho como ghostwriter focado em LinkedIn, estava com um novo projeto com 2 dos meus melhores amigos, 2 contratos fechados para escrever livros e mais algumas ideias.
Felizmente, ser autônomo permite desacelerar quando necessário.
Meti o pé no freio na minha marca pessoal e precisei sair do projeto.
Os primeiros 2 meses foram de sedentarismo completo para desinflamar o nervo — pelo menos, é o que lembro o médico contando.
E a recuperação já começava ali.
A dor nunca chegou a ser absurda. Era só um lembrete constante de algo errado.
E esse algo alimenta muitas incertezas.
Tem uma sensação estranha quando seu corpo deixa muito claro que você não dá conta de alguma coisa. E eu nunca tinha convivido com isso dessa maneira.
De repente, você vê um caso de um cara com sei-lá-quantos parafusos na coluna que parece estar seguindo a vida normalmente.
Se bobear, ainda corre maratona, escala montanha e provavelmente faz crossfit em jejum.
— Pô, no meu caso é só uma hérnia — você pensa.
Coloca o pé no chão e ela responde:
— Opa. Não são duas?
E você segue mancando.
Nas fisios e alongamentos que formaram os últimos meses, escolhi ser “só” prestador de serviços.
Sem novos projetos, nem novos clientes.
Defini a entrega dos 2 livros como prazo pra me habituar à nova colega de quarto.
Livros entregues e H. melhor ambientada.
Vem outro sentimento.
Estranhamente maravilhoso.
Quando você finalmente consegue recuperar a capacidade de fazer um movimento simples que, antes, era banal.
Levantar da cama sem mancar.
Poder voltar para a academia.
Fazer um passeio remando a barco e ficar só com os ombros doendo (e várias picadas de mosquitos).
Voltar a correr e sentir somente o joelho reclamando do sedentarismo no dia seguinte.
Até dá pra tirar uma versão inspiracional dessa história.
Nela, eu diria que a hérnia apareceu para me ensinar a desacelerar, que precisei rever prioridades e meu corpo trouxe a mensagem que minha mente se recusava a ouvir.
Talvez viesse uma frase sobre respeitar seus limites.
Depois, uma foto olhando para o horizonte.
Pode até existir alguma verdade aí.
Mas também existe uma explicação mais simples: ter hérnia de disco é uma merda — que não tive outra escolha, a não ser aprender a conviver com ela.
Hoje, L4 e L5 significam coisas bem diferentes para mim do que significavam no começo do ano.
O colchonete vai continuar no chão da sala por muitos anos, e os alongamentos também.
Mas tá na hora de começar uma nova temporada.




