Coringa e o Storytelling: as principais técnicas de narrativa que justificam toda a obsessão pelo filme
Coringa e o Storytelling: as principais técnicas de narrativa que justificam toda a obsessão pelo filme

Coringa e o Storytelling: as principais técnicas de narrativa que justificam toda a obsessão pelo filme

Grande filme de 2019 até então, Coringa é um estudo de personagem focado em um dos vilões mais icônicos e imprevisíveis dos quadrinhos. Só que dessa vez, a fantasia se mistura com realidade.

O personagem não enlouquece após cair no ácido, ele descende lentamente até a loucura.

De uma forma tão bem trabalhada que nos faz desenvolver compaixão, empatia e até mesmo identificação com um vilão — algo que não é tão comum no cinema.

A produção do diretor Todd Phillips também fez questão de não entregar nada muito mastigado nas mãos da audiência, além de deixar várias questões em aberto intencionalmente.

Tudo isso incita a discussão em torno do filme e justifica tanto seu sucesso, quanto a obsessão criada em torno de Coringa desde seu lançamento.

E faz também com que a obra se torne uma excelente fonte de estudo sobre Storytelling. Desconstruindo o filme e analisando as principais técnicas de narrativa utilizadas, podemos entender melhor o por quê de toda a repercussão.

Show, don’t tell e a atenção aos detalhes

No momento em que os trailers se encerram e as luzes do cinema se apagam em definitivo, é possível notar a preocupação com os detalhes em Coringa.

Em vez do atual logo da Warner Bros, vemos o que a produtora utilizava nas décadas de 70 e 80 — para assegurar, logo de cara, a ambientação do filme no ano de 1981.

Na transição para a primeira cena, enquanto Joaquin Phoenix surge, o rádio aparece para nos contextualizar:

  • 18.º dia da greve dos lixeiros de Gotham;
  • 10 mil toneladas de lixo se acumulam todos os dias e mesmo as principais regiões da cidade estão parecendo pântanos;
  • pela primeira vez em dez anos, o comissário de saúde declara estado de emergência.

Enquanto isso, temos nosso primeiro contato com Arthur Fleck. Isolado das demais pessoas que conversam na sala, ele finaliza sua maquiagem e ensaia um sorriso.

Por mais que se esforce e force, o sorriso não vem natural. E a lágrima que escorre pelo seu rosto, enquanto ele estica a própria boca com os dedos indicadores, já diz muito.

Socialmente deslocado, Arthur acredita que sua missão é trazer alegria ao mundo, mas não consegue manter um sorriso no próprio rosto.

Isso é o Show, don’t tell na essência. Em vez de apenas falar — como no rádio — o filme mostra e aposta nos detalhes para que possamos construir nossa própria percepção.

Basta lembrar da forma com que somos apresentados à risada patológica do protagonista e temos outro exemplo dessa técnica.

Na sessão de terapia, temos uma breve amostra, que soa como um desabafo, ou uma forma de descarregar as dores acumuladas.

Em seguida, na cena do ônibus, vemos a risada incontrolável se manifestando pela primeira vez — num momento em que Arthur se sentiu reprimido, constrangido e desconfortável.

Não acompanhamos nenhuma conversa ou diagnóstico sobre a risada. Apenas acompanhamos ela surgindo e tiramos nossas próprias conclusões.

A técnica se repete na primeira fantasia de Arthur, quando ele se imagina participando do show de Murray Franklin. E está presente em todo o filme.

Dessa forma, Coringa ultrapassa o que um mero entretenimento ofereceria e se transforma numa experiência de imersão na vida do protagonista.

Importância da música e da dança

A trilha sonora é um elemento que poderia ser apenas um detalhe no filme, mas com o cuidado recebido, ganha a importância de um personagem.

Todas as músicas originais do filme foram compostas e gravadas pela islandesa Hildur Guðnadóttir antes da filmagem, tomando o roteiro como base. Todd Phillips queria que a música tivesse uma participação ativa no set de Coringa e o resultado foi exatamente esse.

Joaquin Phoenix as Arthur Fleck in Warner Bros. Pictures, Village Roadshow Pictures and BRON Creative's <em>Joker</em>.

Na dança, Arthur encontra um ato de libertação. Ele não se relaciona tão bem com nenhum outro personagem da trama, quanto se relaciona com a música.

Compaixão, identificação e fascínio pelo vilão

Sou apenas eu ou o mesmo está ficando mais louco?

Acompanhamos Arthur de perto em toda a história — algumas vezes como um observador e outras, pela perspectiva dele próprio. Estamos imersos na rotina e na mente do protagonista.

Quando ele é espancado, testemunhamos de perto a ponto de sentirmos a sua dor. Quando ele ri, nos sentimos igualmente deslocados e desconfortáveis. E quando ele delira, deliramos junto.

Essa narrativa pela perspectiva de um protagonista delirante remete ainda ao narrador não confiável da literatura. Ou seja, não conseguimos ter certeza do que realmente aconteceu e do que foi apenas fantasia de um paciente psiquiátrico.

Além de nos iludir, essa proximidade facilita nossa conexão com Arthur Fleck. Sentimos compaixão por ele e, em diversos momentos, também nos identificamos com o personagem.

Em qualquer contexto e situação, Arthur é um outsider — ele ri nas horas erradas, não consegue se encaixar na sociedade e está sempre deslocado.

Com o desconforto dessas ocasiões, nos identificamos. Com sua não realização profissional, também. Porque são situações que todos vivenciamos.

Em alguns momentos, a linha entre a identificação e a compaixão se torna tênue. Em outros, ela é mais clara.

Após assassinar os dois primeiros rapazes no metrô — ainda em legítima defesa — Arthur persegue o terceiro e, nesta hora, não há identificação. Apenas compaixão. Nós até entendemos a escolha dele, mas não nos vemos em seu lugar.

Nesse ponto, entra o fascínio pelo vilão. Nós abrimos mão dos nossos instintos por convenções sociais e por um esforço civilizatório, mas o vilão não. Ele vive conforme suas próprias regras e, por isso, se torna tão fascinante.

Quando vemos Arthur perseguir o 3.º rapaz, estamos, ao mesmo tempo, aterrorizados e fascinados.

Depois de cometer os assassinatos e fugir, o protagonista se tranca em um banheiro público e… dança. Naquele momento, ele começa a abraçar as consequências de suas atrocidades como algo natural.

“Às vezes, não sei o que fazer. Na última vez, acabei descontando isso em algumas pessoas. Eu pensei que isso iria me incomodar, mas realmente não me incomodou.”

O conflito como foco principal

Quando vamos ver Coringa, já temos em mente qual será seu desfecho — o próprio título funciona como um spoiler.


“Só é preciso um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático. Essa é a distância entre o mundo e eu: apenas um dia ruim.”

— Alan Moore, Piada Mortal


Em vez de apenas um dia ruim que o leva à loucura, Arthur tem uma vida de dias ruins — um grande conflito que acaba por transformá-lo no Coringa.

A grande maioria dos filmes e histórias se divide em três atos:

  1. Contexto;
  2. Conflito;
  3. Resolução.

E a obra de Phillips foca no 2.º — um ponto-chave para desenvolvermos empatia pelo personagem. Além de prender nossa atenção durante todo o filme, nos deixando sempre ansiosos e angustiados com o que virá na sequência.

A própria apresentação do protagonista se mistura com o conflito, como o filme mesmo anuncia:

Tudo deve ir.

E realmente, tudo se vai.

Seguindo uma premissa bem parecida com a de Clube da Luta, acompanhamos Arthur perder tudo antes de se tornar livre.

O acompanhamento da assistente social, os remédios, o emprego, o sonho de ser comediante e o amparo materno. Ele ainda encontra duas figuras paternas e perde ambas, quando é rejeitado e ridicularizado por Thomas Wayne e Murray Franklin.

Cada um dos pilares que sustentava Arthur vai ruindo, até que ele desaba de vez. E depois de uma vida carregada, cabisbaixa e sofrida, ele dança para se libertar e descende à loucura numa das cenas mais icônicas do filme.

Um reflexo da realidade

Numa música de Ben Caplan, ele diz que a arte funciona como uma lente para focar nossa vista. Não basta olhá-la, precisamos enxergar através dela. Em Coringa, essa lente é um espelho — esférico e côncavo, eu diria.

Embora se passe em 1981, o filme é um grande reflexo da nossa realidade — ampliada e levemente distorcida para se adequar ao universo de Gotham, que representa o caos das grandes metrópoles.

O conflito social retratado em Coringa é fortemente inspirado no contexto atual — principalmente o norte-americano —, em que as elites deixam as pessoas diferentes de lado.

Isso é claramente ilustrado na figura de Thomas Wayne. Retrato tão fiel de Donald Trump que faltou apenas seu slogan de campanha para prefeito ser Make Gotham great again.

No filme, essa tensão social fica bem representada no protesto que acontece na porta de um teatro.

Enquanto as pessoas se aglomeram para protestar, Thomas Wayne e a elite estão isolados assistindo ao filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin. Mais um detalhe que engrandece o trabalho de Phillips, pela ironia da obra de Chaplin — uma forte crítica ao sistema capitalista — se tornar entretenimento para os privilegiados.

Diante do caos da sociedade, Arthur Fleck se torna um agente do caos. Porém, o filme não o isenta de culpa e deixa claro que ele toma as decisões por ele próprio. No embate com Murray Franklin, isso fica evidente.

O Coringa tenta explicar racionalmente por que matou os jovens no metrô e ainda acusa o apresentador de ser “horrível”. Quando Murray retruca, alegando que seu discurso era apenas vitimismo e autopiedade, o vilão apela para a loucura.

“O que você recebe… quando cruza com um doente mental solitário numa sociedade que o abandona e o trata como lixo?”

Diante de toda a polêmica discussão em torno do filme se ele é perigoso por romantizar e incentivar a violência, deixamos passar um ponto muito importante.

Ao culpar Coringa e apontar o dedo para a sociedade, esquecemos que nós somos a sociedade. Nós somos as pessoas desconectadas e desconfiadas que acabam por isolar Arthur Fleck. E nós somos também os potenciais Coringas.

Não basta olhar para a lente. É preciso olhar através dela.

“That’s life and as funny as it may seem

Some people get their kicks

Stompin’ on a dream

But I don’t let it, let it get me down

‘Cause this fine old world it keeps spinnin’ around”

Referências e inspirações:

 

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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