Johnny Cash, a luta para superar a maior tragédia em sua vida e um garoto chamado Sue
Johnny Cash, a luta para superar a maior tragédia em sua vida e um garoto chamado Sue

Johnny Cash, a luta para superar a maior tragédia em sua vida e um garoto chamado Sue

O primeiro contato que tive com Johnny Cash, suas músicas e sua história foi graças ao filme Johnny & June, lançado em 2005 quando eu tinha apenas 13 anos.

Foi o bastante para iniciar um relacionamento sazonal que tenho com suas músicas desde então. De tempos em tempos, me vejo investigando sua discografia novamente e toda vez encontro algo inédito.

Uma música que ainda não conhecia, ou uma letra que ainda não havia me chamado tanto a atenção.

Entre todos os cantores e compositores que conheço, Johnny Cash é de longe um dos melhores em letras de música — ao lado do Bob Dylan. A profundidade e o detalhamento que eles entregam são impressionantes.

Os dois conseguem tratar assuntos triviais de maneira profunda.

E também contam histórias completas, com direito até mesmo a reviravoltas, com a mesma facilidade como se estivessem falando de assuntos triviais.

Basta tirar um tempo para analisar as letras de músicas como Folsom Prison Blues ou Hurricane para ter um exemplo disso. É de dar inveja em qualquer escritor.

Diferente de Bob Dylan, Cash também tinha uma performance e uma entrega invejáveis em todas as músicas que escolhia tocar.

Pelo lado de Dylan, é bem comum descobrirmos que uma música apresentada por outro artista, na verdade, era dele. Com Cash, acontece o contrário: qualquer música que ele escolhe tocar, você tem certeza que foi ele quem escreveu.

Dois excelentes exemplos disso são Ring of Fire e Hurt — escritas por June Carter e Trent Reznor. Ou ainda A Boy Named Sue, que será o nosso foco aqui.

Um garoto chamado Sue

Escrita por Shel Silverstein, a música narra a história de um garoto que cresceu apenas com sua mãe, após seu pai abandoná-los quando tinha apenas 3 anos.

As únicas coisas deixadas por seu pai foram um violão velho, uma garrafa de bebida vazia e seu nome: Sue — um possível apelido para Susan ou Susanna e, definitivamente, um nome feminino.

Então, o garoto cresceu sofrendo com o bullying e as piadas de mau gosto, vendo-se forçado a amadurecer mais rápido para superar tudo isso e focado em se vingar de seu pai:

“Meu punho ficou forte e minha inteligência ficou aguçada. Eu vagava de cidade em cidade para esconder minha vergonha, mas fiz um voto para a lua e as estrelas: que eu procuraria em todos os bares até encontrá-lo e mataria aquele homem que me deu esse nome horrível.”

Esse encontro acontece após Sue encontrar seu pai em um bar e reconhecê-lo de uma foto antiga que sua mãe tinha, graças à cicatriz em sua bochecha. E os dois começam uma briga no melhor estilo dos filmes de faroeste norte-americanos.

Com a diferença que não termina num duelo entre os dois, mas com Sue apontando uma arma para seu pai, que faz a seguinte revelação:

“Filho, este mundo é difícil e para um homem triunfar, ele precisa estar preparado. Eu sabia que não estaria lá para ajudá-lo, então te dei esse nome e me despedi. Sabia que você teria que amadurecer, ou morrer. E foi o nome que ajudou a torná-lo forte.

Agora, você acabou de travar uma luta e tanto. Sei que você me odeia e tem o direito de me matar. Eu não te culparia se você o fizesse, mas antes você deveria me agradecer por toda a sua força e resistência, porque eu sou o filho da puta que te deu o nome de Sue.”

No último ato, Sue sente-se realizado por confrontar seu pai, o perdoa e desiste de matá-lo, finalizando a música com uma reflexão sobre como ele batizaria seu filho:

“E se algum dia, eu tiver um filho, acho que vou batizá-lo…

De Biil ou George! Qualquer coisa que não seja Sue! Ainda odeio esse nome!”

Tudo isso em pouco mais de 3 minutos de música.

Agora, vale prestar atenção na forma como Johnny Cash apresenta esses últimos versos: é só adiantar o vídeo para 3:23, ou clicar aqui se preferir.

Ele esbraveja tanto, mas tanto, que parece engasgar ao final do vídeo. Eu disse que a entrega dele era impressionante, mas será mesmo que tudo isso é apenas performance?

Um garoto chamado Johnny

Se você também assistiu ao filme Johnny & June, provavelmente se lembra que Johnny Cash tinha uma relação bastante complicada com seu pai, Ray Cash.

Para não prolongar muito a ponto de transformar o artigo em um texto biográfico, vamos dizer que seu pai era um veterano da Primeira Guerra Mundial, absurdamente conservador e trabalhador — um retrato típico do sulista norte-americano de 1920.

Além de jamais ter incentivado a carreira na música de Johnny Cash, Ray claramente tinha um filho preferido: Jack Cash, que tinha tudo para se tornar um pastor e o filho bem-sucedido da família — pelas definições de seu pai, é claro.

Porém, Jack não viveu o bastante para realizar os desejos de seu pai. Vítima de um acidente com uma serra de madeira, ele faleceu em 1944, quando Johnny tinha apenas 12 anos.

Ray chegou a se entregar ao alcoolismo e se tornou tão amargurado que passou a ressentir seu filho sobrevivente. “Você não é o filho certo. Você deveria ter morrido” foram algumas palavras que marcaram a infância de Johnny.

Ele cresceu sentindo-se desmerecedor de ser ele mesmo e sabia que, por mais que se esforçasse, jamais corresponderia ao que seu pai gostaria que ele fosse.

Seu nome de batismo era comum, John, mas as marcas que seu pai deixou em sua infância o fizeram aprender o que era sofrimento, o que era se sentir perdido e deslocado. Ele se tornou o filho que devia ter morrido.

A beleza de Johnny Cash é sua capacidade de levar isso para as músicas, provando seu valor não apenas para seu pai, mas para uma sociedade incapaz de aceitar pessoas oprimidas.

Ele sempre cantou para aqueles que precisavam acreditar em algo para se reerguer e, por fim, construiu uma linda carreira como cantor por causa de Ray Cash, ou apesar dele.

Da mesma forma que, em seu primeiro casamento, Johnny se tornou um pai ausente e viciado. De tanto evitar se parecer com Ray, nos anos 60 ele caminhava para se tornar um péssimo pai para seus filhos — em seus próprios moldes.

A relação entre os dois nunca deixou de ser complicada. Em sua primeira autobiografia, Man in Black, lançada em 1975, Cash chega a perdoar seu pai. Mas na segunda, Cash: The Autobiography, de 1997, vemos que ele continuava ressentido.

Então, pode-se dizer que ele passou a entender melhor a perspectiva de Ray, mas não a ponto de perdoá-lo inteiramente. 

De volta à música A Boy Named Sue, não era sempre que Johnny Cash encerrava sua apresentação esbravejando da forma que vimos.

Era comum ele brincar com a letra e trocar o desfecho da história.

(3:11 ou clique aqui.)

“E se algum dia, eu tiver um filho, acho que vou batizá-lo…

em sua homenagem.

Com uma pequena dose de suspense (ou hesitação), uma única frase trocada dá um novo sentido para o desfecho da música. Dessa vez, o protagonista vai muito além de compreender seu pai e respeita sua decisão a ponto de homenageá-lo.

Na psicanálise, atos falhos (ou letras trocadas) são atribuídas ao subconsciente e recebem o nome de parapraxia. Ou seja, situações como essa, especialmente numa música tocada com tanta frequência, dizem muito mais do que parecem dizer.

Toda vez que escutamos Johnny Cash tocando A Boy Named Sue, estamos diante de muito mais do que uma mera apresentação.

O que testemunhamos é um homem que teve sua infância marcada de forma trágica cantando sobre um garoto confrontando seu próprio pai.

Ao incorporar Sue, Cash relembra o acidente que matou Jack e levou Ray a transformá-lo no filho que devia ter morrido. No confronto final, ele precisa decidir até que ponto ele compreende seu próprio pai e se é capaz de perdoá-lo.

Em cada performance da música, vemos isso acontecendo.

Na maioria das vezes, ele termina esbravejando.

Algumas vezes, ele chega a homenagear Ray.

E, na minha versão favorita, ele encontra não apenas o desfecho ideal, mas também se re-encontra.

“E se algum dia, eu tiver um filho, acho que vou batizá-lo…

John Carter Cash.

(3:19 ou clique aqui.)

Basta ouvir para notar a diferença no tom de voz. Sem esbravejar ou hesitar para fazer suspense, ele declama o último verso em absoluta paz.

Era 17 de Abril de 1970, Cash se apresentava na Casa Branca com seu pai na plateia (um ano antes de se casar com June Carter) e, nesta data, o filho recém nascido do casal, John Carter Cash, tinha pouco mais de um mês de vida.

Longe das drogas e mais dedicado do que nunca à sua família e sua fé, nascia um novo Johnny Cash.

Em um único verso, podemos acompanhar essa transformação acontecendo.

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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