Sete passageiros e um segredo

As melhores histórias começam disfarçadas de rotina


🎵 ▶Recomendo ler ouvindo: I am disappeared, do Frank Turner.


Um marmanjo de 2m de altura entra no avião.

Parece completamente perdido.

Cabeça baixa para não bater. Ombros tortos para caber no corredor. A expressão meio vazia, meio resignada, de quem já entendeu que, em questão de minutos, vai precisar se dobrar num assento de classe econômica que não parece caber nem em mim.

E olha que tenho só 1,82m.

Mas já tô ali, algumas fileiras atrás, com as costas reclamando e guardando uma hérnia de disco que só descobriria semanas depois.

Naquele avião, eu, ele e outras cinco pessoas vamos para o mesmo evento, em Curitiba — uma dívida da pandemia que tô, finalmente, recuperando.

Sete pessoas indo para o mesmo lugar não é exatamente o tipo de coincidência que pede trilha sonora dramática.

Ainda mais num avião.

Só que, ali, pede.

Porque dessas sete, três vão subir no palco naquela noite.

Os dois artistas de abertura e o principal — o marmanjo desajeitado com 2m de altura, que também atende pelo nome de Frank Turner.

Para o restante do avião, é só mais um voo.

Gente cansada, mochila mal encaixada e o mesmo desejo de chegar logo.

Pra mim, tem alguma coisa de realidade mal-ajambrada.

Como se um pedaço improvável da minha vida tivesse decidido acontecer do jeito menos cinematográfico possível.

Só um voo de classe econômica, minha coluna ameaçando motim e um homem de 2m tentando caber num país que, pelo menos musicalmente, ainda não parece ter entendido muito bem o tamanho dele.

No Brasil, ele circula como se fosse só um desconhecido desajeitado no avião.

Estou vivendo o privilégio de ver meu artista preferido em sua primeira turnê no Brasil.

Em três cidades, em casas de show minúsculas — numa delas, ele toca à tarde em Brasília para menos de 50 pessoas e precisa esvaziar a casa cedo.

Porque tem show do João Gordo depois.

E uma pergunta ronda minha cabeça o tempo inteiro: o que faz um cara que lota arenas na Europa e nos Estados Unidos vir ao Brasil pra tocar em lugares tão pequenos?

Tem artista que, quando cresce, passa a tratar palco pequeno como rebaixamento — como se tocar para pouca gente diminuísse a obra. Já vi shows em estádios feitos com má vontade, como quem cumpre um favor mal remunerado.

Mas o que acontece no pequeno palco que antecede o João Gordo é o contrário. A mesma energia de quem ainda precisa conquistar cada pessoa da sala.

Talvez porque ele se lembre muito bem de quando era exatamente isso.

Só um marmanjo desajeitado carregando o violão pela Inglaterra, fazendo o trampo da forma menos glamourosa possível.

É maravilhoso ver quando alguém cresce sem se perder da própria origem.

Quando o palco aumenta, mas a pessoa não desaprende a tocar como quem ainda precisa merecer estar ali.

E realizar um sonho é bem melhor com filas pequenas e shows intimistas.

“Nunca conheça seus ídolos”, dizem.

PS.: esse evento também ganhou um registro digno no meu Instagram, com direito a algumas e vídeos. Se quiser conferir, o link é esse aqui.

PPS.: não fiquei pra ver o show do João Gordo. Precisaria pagar outro ingresso.

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