Se não respeitarmos nossas vidas além das redes sociais e do trabalho, ninguém mais vai
Se não respeitarmos nossas vidas além das redes sociais e do trabalho, ninguém mais vai

Se não respeitarmos nossas vidas além das redes sociais e do trabalho, ninguém mais vai respeitar

Faz um bom tempo desde a última vez que abri o LinkedIn e apertei o botão publicar e, para voltar de vez, nada melhor do que explicar por que decidi dar uma sumida nessas últimas semanas.

Na verdade, não sei exatamente quantas semanas foram e prefiro nem conferir pelo LinkedIn, porque me dei uma meta de somente abri-lo para publicar o texto. Mas, se você conferir minha última publicação, certamente elas já inteiraram um mês.

Calma que este não será um artigo falando sobre o perigo das redes sociais fazendo referência ao documentário da Netflix. Não preciso estar ativo por aqui para imaginar que você se deparou com inúmeros posts assim.

Neste texto, as mídias sociais são apenas parte da obra.

Uma parte, aliás, que ganhou muito mais importância do que deveria, como o coadjuvante engraçadinho que ganha um filme solo e te decepciona.

O privilégio do home office

Desde que a quarentena começou e passei a trabalhar em home office, comecei a viver diante de alguma tela. Um privilégio gigantesco, diga-se de passagem, pois mantive meu trabalho como CLT e não precisei abrir mão de nenhum projeto pessoal.

Um privilégio gigantesco que me permitiria escapar das horas perdidas no trânsito e ainda estender meu dia.

Só que essas horas continuaram perdidas entre um monitor, um computador e um celular.

Agora que o clássico papo sobre clima dentro dos elevadores não é mais possível para quebrar o gelo, comentar sobre como passamos a trabalhar mais tempo de casa se tornou o gancho perfeito numa videoconferência.

A previsão do tempo de hoje é de algumas horas extras.

E até daria para culpar o regime CLT pelo meu sumiço e colocar um ponto final, mas seria o caminho mais fácil.

Até porque nunca houve ninguém me cobrando trabalhar horas a mais.

O que houve foi uma grande comoção para nos adaptarmos à nova realidade e o tal do novo normal exigia alguns minutinhos extras ao final de cada dia.

Nos pequenos intervalos, de volta às redes sociais

As mídias sociais se tornaram o grande alento para interação depois que o confinamento começou, foi o que disseram.

E por força do hábito, sempre conferia o que havia de novo no feed do LinkedIn, ou do Instagram. Escolha sua rede preferida.

Depois de rolar o feed por tempo o bastante, você já faz ideia do que vai encontrar por lá.

Escolha também a sua referência favorita.

O filme da marmota, que atende pelo nome oficial de Feitiço do Tempo, em que Bill Murray acorda sempre na mesma manhã para reviver o mesmo dia.

Ou a música Everyday is Exactly the Same, da banda norte-americana Nine Inch Nails.

Rola a tela até um print da última ação de marketing que bombou na internet.

Se você apertou o play na música, tem uma boa chance do Trent Reznor ter começado a cantar agora: I believe I can see the future.

Rola a tela até outro print dessa mesma ação, e outro, e outro. É mais uma questão de bater o ponto e marcar presença, nem o texto parece mudar.

Ctrl C + Ctrl V + O que você achou?

O verdadeiro dilema das redes é a dicotomia. Você gostou do documentário: sim ou não? Você gostou deste texto: sim ou não? E nem precisa terminar de ler. Nesse ponto, é bem provável que tenha uma opinião formada, mesmo sem saber qual rumo ele pode tomar.

Rola a tela até uma história surreal de alguém que começou do absoluto zero, teve uma epifania, mudou drasticamente sua vida e… ah, é mais um curso online.

Ou mais uma edição das fanfics corporativas.

Às vezes, fica difícil separar esses dois gêneros.

Seja resiliente o bastante e você se depara com uma agulha no palheiro, um conteúdo digno de se compartilhar. Ele costuma aparecer depois que você encontra pelo menos três conteúdos sobre resiliência, ou a buzzword de sua preferência.

Rola o feed até uma imagem que apresenta uma nova funcionalidade. Ela diz que basta clicar duas vezes, e eu atendo.

Um clique no ícone quadrado para mostrar os aplicativos abertos e outro, para arrastar para cima e me livrar das redes sociais pelas próximas horas, ou minutos.

Por força do hábito, esse foi o feed que me acostumei a ver.

Uma nova forma de fechar o expediente

De volta ao trabalho, não é tão difícil saber que já são 19h. Nem precisa consultar relógio algum. Em vez de badaladas, é só contar três notificações de lives começando no Instagram.

Fim do expediente e essa é a hora do dia que vem a lembrança que não publiquei nada na semana anterior, enquanto continuo acumulando uma legião de documentos sem título no Google Drive.

Meus últimos artigos foram todos rascunhos.

Só que essa é a hora do dia que a última coisa que quero ver na minha frente é uma tela — apesar de manter o celular a um esticar de braço.

Por força do hábito, passei tanto tempo imerso nessa rotina de escrita, produção de conteúdo e redes sociais que não sei dizer quando foi a última vez que havia me dado uma folga.

De tanto falar em gerar valor e servir ao leitor, fui esquecendo de fazer isso para mim. Até mesmo minhas férias anteriores como CLT foram dedicadas para intensificar a atuação por aqui.

E de tanto me pressionar a postar com frequência e interagir na mesma intensidade, minha obsessão por ser mais produtivo foi matando a minha criatividade e isso até me pareceu uma bela ideia de pauta.

Mas eu já havia vivenciado e escrito isso em agosto de 2019.

Aliás, uma das grandes vantagens de escrever é a oportunidade constante de encontrar seus erros, atuais ou antigos.

Dessa vez, o erro era atual.

Todo dia era exatamente o mesmo, meu agosto se resumiu a exaustão e passei o mês praticamente em branco.

Rola a tela até o post que diz: “quem não é visto não é lembrado… quando falta motivação, você precisa se garantir na disciplina.”

Se você apertou o play na música e pulou algumas linhas, tem uma boa chance do Trent Reznor ter acabado de cantar: I think I used to have a voice, now I never make a sound, I just do what I’ve been told.

Mais um tema que poderia escrever sobre: ser um workaholic pode — e vai — te levar ao esgotamento profissional. Então, me lembrei de novembro de 2018 e que não era a primeira vez que uma experiência de vida me dava essa ideia.

Essa foi a deixa.

Por força, escolhi mudar o hábito

E setembro foi o mês da clareza.

Aproveitei meus 10 dias de férias do CLT — emendados com mais alguns de férias das redes sociais —, para desativar todas as notificações possíveis, absorver tudo isso e parei de me cobrar.

Recuperei velhos hábitos que vinham fazendo falta, como praticar exercícios físicos. E depois de muito tempo obcecado em repassar conhecimento, lendo livros de não ficção — principalmente aqueles de como fazer tal coisa — voltei a ler ficção.

Tudo que pudesse ser rotulado como produtivo, risquei da minha lista do que fazer. Risquei, inclusive, a própria lista do que fazer.

Aqui, você pode até dizer que esse texto não passa da lamúria de um privilegiado procrastinador e não estaria inteiramente errado. Mas voltaríamos ao tópico da dicotomia das mídias sociais.

Também seria fácil demais culpar as redes sociais.

Só que, do mesmo jeito que ninguém nunca me cobrou horas a mais no CLT, não havia ninguém me forçando a clicar nas notificações de mensagem recebida, você foi marcado em uma foto ou @fulano fez uma nova publicação. Escolha sua preferida.

Agora que os 10 dias livres se passaram, chegou a hora de recuperar outro velho hábito que vinha fazendo falta: escrever e publicar.

Mas pretendo me manter de férias de algumas coisas que jamais deveriam ter se tornado rotina. Então, estou voltando sem essa paranoia de me cobrar: nem jornada de trabalho além das oito horas, nem de postar e interagir a todo instante.

O verdadeiro dilema não é das redes, nem do regime CLT.

O verdadeiro dilema é nosso.

Se não respeitarmos nossa vida além das redes sociais e do trabalho, ninguém mais vai respeitar.

Rola a tela até a moral da história

Foi nesse período de improdutividade que encontrei um resumo ideal para tudo isso e não, não foi com o documentário da Netflix.

Numa noite de insônia, fui desenterrando vídeos antigos de shows e acabei descobrindo que um dos que fui em 2014 foi gravado e transformado em DVD.

Diante dessa descoberta, foi inevitável perder mais algumas horas de sono para reviver e rever toda a gravação de cabo a rabo.

E um detalhe importante é que tenho um certo hobby: colecionar trechos curtos de gravações das minhas músicas preferidas ao vivo. Então, antes de ir em um show, é bem comum que eu já tenha algum trecho-alvo para gravar.

Porém, dessa vez, foi impossível gravar o trecho que eu mirava.

Porque, logo antes de tocá-la, o cantor Mike Rosenberg — também conhecido como Passenger — contou a história de quando tocou num festival na Alemanha para 15 mil pessoas.

Na época, era o maior show em sua carreira e ele brincou que passou a maior parte do show tocando de olhos fechados, por nervosismo.

Num determinado momento, decidiu abrir os olhos na expectativa de encontrar 15 mil rostos olhando para ele de volta. Mas encontrou 15 mil celulares.

Prosseguiu dizendo que nos reunimos em shows para ouvir música e compartilhar sentimentos, mas não existe mais essa união porque cada um está assistindo ao show através de uma tela.

E se não tomarmos cuidado, acabamos nos esquecendo de viver de verdade.

Depois, enquanto ensaiava os primeiros acordes da música que eu tanto queria gravar, ele reforçou a importância da tecnologia, das redes sociais e de fazer seus próprios registros, mas principalmente de saber o momento de guardar o celular.

Foi impossível sacar o celular do bolso depois disso e, durante os 3 minutos de música, ninguém gravou um segundo sequer.

Sei que esse discurso não é inovador e pode soar como algo bem óbvio. Mas, às vezes, insistimos em esquecer do óbvio.

O resumo ideal que encontrei?

Digamos que decidi reviver e estender aqueles 3 minutos por mais tempo e tenho me preocupado cada vez mais em manter o celular no bolso.

E se você me perguntar, o trecho que eu queria tanto gravar não era de Let Her Go, mas de Scare Away the Dark:

Well, we wish we were happier, thinner and fitter

We wish we weren’t losers and liars and quitters

We want something more not just nasty and bitter

We want something real not just hashtags and Twitter

It’s the meaning of life and it’s streamed live on YouTube

But I bet Gangnam Style will still get more views

We’re scared of drowning, flying and shooters

But we’re all slowly dying in front of fucking computers

Sou um escritor e produtor de conteúdo, especializado em Escrita Criativa, Storytelling e LinkedIn para Marcas Pessoais. Minhas maiores paixões sempre foram a música, o cinema e a literatura. Escrevendo textos na internet, consegui unir o melhor desses três universos, e o que era um hobby acabou me transformando em LinkedIn Top Voice e, hoje, se tornou minha profissão.

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