Johnny Cash, a luta para superar a maior tragédia em sua vida e um garoto chamado Sue

O primeiro contato que tive com Johnny Cash, suas músicas e sua história foi graças ao filme Johnny & June, lançado em 2005 quando eu tinha apenas 13 anos. Foi o bastante para iniciar um relacionamento sazonal que tenho com suas músicas desde então. De tempos em tempos, me vejo investigando sua discografia novamente e toda vez encontro algo inédito. Uma música que ainda não conhecia, ou uma letra que ainda não havia me chamado tanto a atenção. Entre todos os cantores e compositores que conheço, Johnny Cash é de longe um dos melhores em letras de música — ao lado do Bob Dylan. A profundidade e o detalhamento que eles entregam são impressionantes. Os dois conseguem tratar assuntos triviais de maneira profunda. E também contam histórias completas, com direito até mesmo a reviravoltas, com a mesma facilidade como se estivessem falando de assuntos triviais. Basta tirar um tempo para analisar as letras de músicas como Folsom Prison Blues ou Hurricane para ter um exemplo disso. É de dar inveja em qualquer escritor. Diferente de Bob Dylan, Cash também tinha uma performance e uma entrega invejáveis em todas as músicas que escolhia tocar. Pelo lado de Dylan, é bem comum descobrirmos que uma música apresentada por outro artista, na verdade, era dele. Com Cash, acontece o contrário: qualquer música que ele escolhe tocar, você tem certeza que foi ele quem escreveu. Dois excelentes exemplos disso são Ring of Fire e Hurt — escritas por June Carter e Trent Reznor. Ou ainda A Boy Named Sue, que será o nosso foco aqui. Um garoto chamado Sue Escrita por Shel Silverstein, a música narra a história de um garoto que cresceu apenas com sua mãe, após seu pai abandoná-los quando tinha apenas 3 anos. As únicas coisas deixadas por seu pai foram um violão velho, uma garrafa de bebida vazia e seu nome: Sue — um possível apelido para Susan ou Susanna e, definitivamente, um nome feminino. Então, o garoto cresceu sofrendo com o bullying e as piadas de mau gosto, vendo-se forçado a amadurecer mais rápido para superar tudo isso e focado em se vingar de seu pai: “Meu punho ficou forte e minha inteligência ficou aguçada. Eu vagava de cidade em cidade para esconder minha vergonha, mas fiz um voto para a lua e as estrelas: que eu procuraria em todos os bares até encontrá-lo e mataria aquele homem que me deu esse nome horrível.” Esse encontro acontece após Sue encontrar seu pai em um bar e reconhecê-lo de uma foto antiga que sua mãe tinha, graças à cicatriz em sua bochecha. E os dois começam uma briga no melhor estilo dos filmes de faroeste norte-americanos. Com a diferença que não termina num duelo entre os dois, mas com Sue apontando uma arma para seu pai, que faz a seguinte revelação: “Filho, este mundo é difícil e para um homem triunfar, ele precisa estar preparado. Eu sabia que não estaria lá para ajudá-lo, então te dei esse nome e me despedi. Sabia que você teria que amadurecer, ou morrer. E foi o nome que ajudou a torná-lo forte. Agora, você acabou de travar uma luta e tanto. Sei que você me odeia e tem o direito de me matar. Eu não te culparia se você o fizesse, mas antes você deveria me agradecer por toda a sua força e resistência, porque eu sou o filho da puta que te deu o nome de Sue.” No último ato, Sue sente-se realizado por confrontar seu pai, o perdoa e desiste de matá-lo, finalizando a música com uma reflexão sobre como ele batizaria seu filho: “E se algum dia, eu tiver um filho, acho que vou batizá-lo… De Biil ou George! Qualquer coisa que não seja Sue! Ainda odeio esse nome!” Tudo isso em pouco mais de 3 minutos de música. Agora, vale prestar atenção na forma como Johnny Cash apresenta esses últimos versos: é só adiantar o vídeo para 3:23, ou clicar aqui se preferir. Ele esbraveja tanto, mas tanto, que parece engasgar ao final do vídeo. Eu disse que a entrega dele era impressionante, mas será mesmo que tudo isso é apenas performance? Um garoto chamado Johnny Se você também assistiu ao filme Johnny & June, provavelmente se lembra que Johnny Cash tinha uma relação bastante complicada com seu pai, Ray Cash. Para não prolongar muito a ponto de transformar o artigo em um texto biográfico, vamos dizer que seu pai era um veterano da Primeira Guerra Mundial, absurdamente conservador e trabalhador — um retrato típico do sulista norte-americano de 1920. Além de jamais ter incentivado a carreira na música de Johnny Cash, Ray claramente tinha um filho preferido: Jack Cash, que tinha tudo para se tornar um pastor e o filho bem-sucedido da família — pelas definições de seu pai, é claro. Porém, Jack não viveu o bastante para realizar os desejos de seu pai. Vítima de um acidente com uma serra de madeira, ele faleceu em 1944, quando Johnny tinha apenas 12 anos. Ray chegou a se entregar ao alcoolismo e se tornou tão amargurado que passou a ressentir seu filho sobrevivente. “Você não é o filho certo. Você deveria ter morrido” foram algumas palavras que marcaram a infância de Johnny. Ele cresceu sentindo-se desmerecedor de ser ele mesmo e sabia que, por mais que se esforçasse, jamais corresponderia ao que seu pai gostaria que ele fosse. Seu nome de batismo era comum, John, mas as marcas que seu pai deixou em sua infância o fizeram aprender o que era sofrimento, o que era se sentir perdido e deslocado. Ele se tornou o filho que devia ter morrido. A beleza de Johnny Cash é sua capacidade de levar isso para as músicas, provando seu valor não apenas para seu pai, mas para uma sociedade incapaz de aceitar pessoas oprimidas. Ele sempre cantou para aqueles que precisavam acreditar em algo para se reerguer e, por fim, construiu uma linda carreira como cantor por causa de Ray Cash, ou apesar
Admitir que não sabemos o que vai acontecer é o primeiro passo para encarar qualquer crise

Você se lembra como costumávamos frequentar bares e cafeterias? Ah, sim, antes de tudo isso… mas e depois? Apenas teorias e especulações. Nada muito sólido, além da certeza de que o mundo que conhecíamos até o início de março não existe mais.
E se você me perguntar, diria que o primeiro passo para crescermos diante diante de todo esse caos é justamente termos a humildade de admitir que não fazemos a menor ideia do que está por vir.
Sejamos amadores de novo

É hora de entender que tem algo acontecendo no mundo muito maior que você e seus negócios. De abaixar o megafone, guardar o diploma do MBA na gaveta, jogar fora os panfletos e, se não podemos estender a mão fisicamente, que seja virtualmente.
Começando do zero! 8 dicas para construir uma audiência no LinkedIn quando ninguém te conhece

A ideia para escrever este artigo surgiu da seguinte mensagem que recebi por email: Há pouco menos de dois anos, eu abria o LinkedIn para publicar meu primeiro artigo na plataforma. Tinha menos de 200 conexões, o alcance dele foi bem baixo e o engajamento menor ainda. Após publicá-lo, a sensação foi um misto de aceitação com decepção. Afinal, por ser meu primeiro artigo, me esforcei para não criar grandes expectativas, mas mantive uma certa esperança de que poderia me surpreender. Quem publica quer ser lido e o baixo engajamento era a certeza de que estava sendo ignorado. Na época, eu gostaria muito de encontrar um artigo como este para me orientar sobre os primeiros passos para construir uma audiência. Então, este texto será um misto de lições que aprendi na prática quando começava a publicar por aqui com algumas estratégias de divulgação que testei e funcionaram, e algumas dicas que gostaria de ter recebido quando comecei. E para superar a barreira de imaginar o leitor se perguntando quem diabos é você para falar sobre um assunto, nada melhor a se fazer do que começar respondendo essa pergunta. 1. Comece contando a sua história Meu primeiro artigo conta como mudei da Engenharia para o Marketing em 23 horas, sendo essas 23 horas o tempo de duração dos cursos online sobre marketing que fiz. Após publicá-lo, passei a ter uma apresentação pronta sobre minha trajetória e deixei esse artigo fixado como mídia no campo “Sobre” do meu perfil (recentemente atualizado para “Em destaque”) — onde hoje está o link para o curso de Escrita Criativa e Storytelling. Ah! Um detalhe importante é que não há necessidade de se apegar demais a esse texto. Não queira construir a introdução perfeita para você ou jamais vai publicá-lo. Caso ache necessário, sinta-se à vontade para revisitar sua história e contá-la novamente. Eu, por exemplo, revisitei meu momento de transição de carreira em outros dois artigos além do primeiro: De Tesla ao Google: como mudei da Engenharia Elétrica para o Marketing em 23 horas Mudar de carreira: o que fazer quando você não sabe o que fazer Quando minha vida se tornou uma vasta página em branco — e como isso me levou à lista dos Top Voices 2019 Cada um deles foi escrito num momento bem diferente e, por isso, trazem abordagens tão diferentes quanto. Resultado da excitação ao descobrir um universo novo; Quando enxerguei que minha fase no Marketing não seria passageira e que realmente havia me encontrado; No dia que saiu a lista dos Top Voices e senti a necessidade de relembrar que tudo começou antes das 23 horas — quando fui demitido de um estágio. Da mesma forma que eu jamais escreveria um texto como o primeiro hoje, por achá-lo bastante romantizado, eu não tinha a maturidade necessária para escrever o 3º texto quando publiquei o primeiro. Então, conte logo a sua história e nada de criar grandes expectativas. 2. Aprenda a ser ignorado Ao participar de um programa de TV ao vivo, o escritor e produtor de conteúdo Kalew Nicholas recebeu a seguinte pergunta num roteiro preparatório: Que coragem é necessária para publicar conteúdo na internet? Acabou que a pergunta não foi feita ao vivo, mas ele decidiu trazer sua resposta para o LinkedIn em um excelente artigo: “O fato é que você não precisa de coragem nenhuma pra publicar textos e vídeos na internet. Você precisa é aprender que, no meio de um mar de conteúdo, você provavelmente vai ser ignorado.” — Kalew Nicholas, Coragem? Não, na internet você precisa aprender a ser ignorado Pensar assim é uma excelente forma de mantermos as expectativas mais baixas. Qualquer engajamento que vier é lucro e, se você for consistente em sua estratégia de publicação, ele certamente virá. 3. Escolha um nicho Por que você quer escrever? Se além de querer que as pessoas leiam o que você escreve, vem uma justificativa à sua mente, já encontramos o seu nicho: quero ser autoridade em… quero ser conhecido como… quero ser procurado por… Agora, se para você a escrita não é o meio, mas o fim. Você também tem um nicho: a escrita. Seja muito bem-vindo. O próximo passo é começar a escrever sobre ele. Algumas sugestões de temas para esse momento são: como começar uma carreira em… lições aprendidas trabalhando como… dicas de pessoas que você considera referência nessa área aqui no LinkedIn. E conforme for publicando seus próximos artigos, não desperdice oportunidades de falar sobre seus textos anteriores quando o contexto permitir. 4. Não seja monotemático Ok, agora que você já tem um nicho, tome cuidado para não falar apenas sobre ele. Variar os temas que você irá abordar é saudável tanto para você, quanto para o seu público. Do seu lado, você acaba ficando bitolado ao abordar um único assunto e se torna cansativo. Do lado do seu público, você se torna muito previsível e fica difícil mantê-lo engajado. Então, traga assuntos para o LinkedIn que sejam interessantes para você em sua carreira profissional. Aqui, vale falar sobre carreira, cultura pop, livros e qualquer outro tema que julgar relevante. Se um assunto for relevante o bastante para você, escreva de forma a torná-lo relevante para outras pessoas. Outra vantagem de se fazer isso é que esses assuntos podem dialogar com um público maior. Então, falar sobre algo fora do seu nicho pode se tornar um cartão de visitas bem interessante. 5. Crie uma minibiografia para usar nos seus artigos Essa é a maneira mais simples de se manter relevante dentro da sua área de atuação em qualquer artigo que você escrever. Quando alguém chega ao final de um texto seu, é um momento bem propício para se apresentar, explicar ao leitor sobre sua área de atuação e como pode ajudá-lo. Basta dar uma olhada no final deste artigo que você terá um exemplo de como faço a minha. Para fechar, as próximas três dicas serão sobre divulgação. 6. Evite qualquer mensagem que faça você parecer spam Graças à televisão,
Parasita: o que tem de tão diferente no filme que fez história no Oscar 2020?

Parasita é uma experiência única: divertido, engraçado, perturbador e inesquecível. Digno de todos os prêmios que recebeu, ele fez história no Oscar 2020, é tudo o que você ouviu falar sobre o filme e um pouco mais.
Acabei de terminar o melhor livro sobre escrita que já li e essas foram as 11 principais lições

Meu primeiro artigo de 2020 é sobre o melhor livro de escrita que já li! Soa sensacionalista, eu sei, mas é a mais pura verdade. No recém-lançado Consider This, Chuck Palahniuk — o autor do Clube da Luta — traz inúmeras técnicas, conceitos e exemplos práticos para melhorar a escrita de qualquer pessoa disposta a aplicá-los.
Quando minha vida se tornou uma página em branco — e como isso me levou à lista dos Top Voices 2019

Com a divulgação da lista dos Top Voices, hoje é um dia daqueles em que é inevitável ter um filme passando na minha cabeça. E esse filme tem até frase de abertura: “Eu vi que minha vida era uma vasta e reluzente página em branco, e que eu poderia fazer qualquer coisa que eu quisesse.” — Jack Kerouac, The Dharma Bums — em português, Os vagabundos iluminados Foi no mês de janeiro de 2015 que li esse livro. Assim que bati o olho nessa frase, voltei imediatamente para a folha de rosto do livro e deixei-a registrada ali mesmo. Depois, fiz logo um post no Instagram para repassar a mensagem e, desde então, este curto trecho do Kerouac é o que venho ostentando como minha frase de efeito no perfil do Instagram. Logo de cara, ela teve um impacto muito forte em mim. Só não fazia ideia do tamanho da importância que ela teria em alguns anos, mas chegaremos lá. Antes, preciso te avisar que não pretendo transformar minha trajetória numa receita de bolo para o sucesso. Então, se você chegou até aqui esperando por uma lista de passos para se tornar Top Voice, tenho uma má notícia: você vai se decepcionar. Até porque isso nunca foi um plano — como você logo vai ver. Começando pelo sonho Embora eu ainda encarasse o LinkedIn como uma mera plataforma de currículos e vagas online, os meses de agosto e setembro de 2017 foram cruciais para que, hoje, eu esteja publicando este texto. Prestes a me formar em Engenharia Elétrica, comecei o oitavo mês de 2017 conquistando um estágio na minha área preferida: energia solar. Era o meu grande sonho como estudante. Enquanto contava os dias para receber meu diploma, iria trabalhar com o que mais gostava e, se tudo desse certo, seria efetivado na empresa. Ela contava apenas com dois funcionários — o dono e eu — e isso me animou ainda mais. Era uma oportunidade de ouro para ter contato com todo o trabalho envolvido e adquirir uma experiência incrível. Então, apostei todas as minhas fichas nisso. E como um apostador de roleta em um dia de más escolhas, acompanhei a banca recolhendo cada uma dessas fichas. O sonho que ficou no papel Na prática, eu sequer vi ou toquei em algum projeto de energia solar. Trabalhei apenas com tarefas extremamente repetitivas — como ligar para vários fornecedores até encontrar o melhor preço de uma arruela. Meu chefe também não facilitava: me pedia A, cobrava B e, por fim, exigia C. Por mais que eu encarasse o estágio como uma oportunidade para aprender e chegar no mercado de trabalho, para o meu chefe, era nítido que eu era apenas mão-de-obra barata. Com pouco mais de um mês, decidi que não havia futuro ali. Porém, o medo de me formar desempregado impediu que eu tomasse qualquer atitude. Embora tenha me faltado a coragem para pedir o desligamento, graças à minha insatisfação, acabei dispensado com menos de dois meses de trabalho. Meu plano perfeito para me formar empregado não passou de um grande devaneio e, agora, o medo do desemprego era gigantesco. O pavor da página em branco Sempre encarei uma formação acadêmica como o grande passo garantido para uma carreira de sucesso. De repente, isso desmoronou e minha vida se tornou uma vasta página em branco. Não fazia a menor ideia do que estaria fazendo em alguns meses, além de ter visto um lado da engenharia e do universo corporativo para o qual não estava disposto a voltar. Desde então, passei a admirar ainda mais as startups e cheguei a criar uma meta pessoal de trabalhar em uma após me formar, mesmo que fora da minha área profissional. Era quase fim de setembro e eu continuava contando os dias para me formar, só que desempregado. O diploma não importava mais e, para ocupar minha mente, criei um compromisso comigo mesmo: Eu continuaria dedicando, no mínimo, as mesmas seis horas diárias que estava comprometendo ao estágio de forma produtiva. Assim, comecei a fazer uma infinidade de cursos online e dos mais variados temas: energia solar, logística, lean manufacturing, lean six sigma… Até que uma amiga, a Mariana Albertini, me sugeriu um curso gratuito que a empresa onde ela trabalhava havia lançado: Outbound Marketing & Sales. No final de outubro, eu comecei o curso e preciso confessar: não foi amor à primeira vista. Os primeiros módulos foram maçantes demais para mim, porque existem muitos termos específicos no marketing, que eu — como um leigo caindo de paraquedas na área — não fazia a menor ideia do que se tratavam. As cinco horas de duração do curso acabaram se estendendo por alguns dias, devido às inúmeras pausas e anotações que precisei fazer para compreender tudo. E quando concluí, gostei tanto que decidi pesquisar pelos cursos de outra empresa que o instrutor citava algumas vezes: uma tal de Rock Content. Na época, não fazia ideia da repercussão que pesquisar por “Rock Content cursos” no Google traria para minha vida. Fiz cada um dos cursos gratuitos como se estivesse maratonando uma série no Netflix. Quando terminei, acrescentei uma seção no meu currículo sobre Especializações em Marketing e passei a me apresentar como “entusiasta de marketing”. Nesse curto período, entre setembro e dezembro de 2017, acumulei 182 horas de aprendizados em cursos online e passei a enxergar o marketing como um possível diferencial para os próximos processos seletivos que participasse. Uma nova forma de encarar a página em branco Logo no começo de dezembro, vi um anúncio — aqui mesmo no LinkedIn — para uma vaga de analista de marketing digital na Rock Content. Ele não exigia formação acadêmica específica e os pré-requisitos eram justamente os cursos gratuitos que havia feito. Então, resolvi tentar a sorte. Passei pela entrevista por telefone, pelo teste técnico e fui chamado para a entrevista com os gestores, Luiza Drubscky e Renato “Hank” Mesquita. Nesse momento, já me senti extremamente realizado pelo simples fato de ser considerado para aquela vaga. Como
Para se destacar, não basta ser melhor que os outros. Você precisa ser diferente!

Nosso instinto é procurar identificar um líder no mercado, compreender as razões de seu sucesso e, então, tentar superá-lo em seu próprio jogo. Só que, enquanto nosso foco for fazer pequenas melhorias no trabalho de outra pessoa, não conseguimos nos destacar e ainda estamos fadados ao fracasso. Para te mostrar isso na prática, separei algumas histórias de erros e acertos do universo da música, do cinema e, claro, do marketing — com um exemplo que ficou marcado como um dos maiores fracassos do século XX
Quando a Jornada do Herói estraga o Storytelling: conheça a Jornada Estática e a Falácia do Super-herói

“A pessoa mais poderosa do mundo é o contador de histórias. O contador de histórias define a visão, os valores e a agenda de uma geração inteira que está por vir.” — Steve Jobs Diante de citações como essa do Steve Jobs — um contador de histórias exemplar, diga-se de passagem —, o Storytelling se tornou um grande desejo das empresas e empreendedores. E com razão. Afinal, o que nos leva a comprar novos produtos, bens ou serviços: nossas necessidades ou nossas vontades? No caso de fatores indispensáveis em nossas vidas, são as necessidades. Para os demais, são os desejos. Enquanto as compras essenciais são guiadas por um raciocínio prático e objetivo, as aquisições motivadas por nossas vontades são completamente subjetivas e irracionais. Ao descrever seu produto e seus benefícios, você atrai novos clientes por necessidade, mas ignora completamente os desejos. Agora, com o Storytelling, conseguimos dialogar com esses desejos. Porque, quando bem contadas e construídas, histórias são impactantes, memoráveis e capazes de inspirar mudanças. Então, após conhecer todo o potencial de contar histórias no universo corporativo, o próximo passo costuma ser encontrar o método mais rápido de colocar tudo logo em prática. Na grande maioria das vezes, esse método atende pelo nome de Jornada do Herói e, nesse momento, entram em cena os principais erros que costumamos cometer. A jornada estática É inegável que a Jornada do Herói funciona. Basta lembrar de toda a legião de fãs de Star Wars que temos uma prova bem clara disso. Ela surgiu no livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, em que ele analisa diversas histórias e encontra nelas uma espécie de técnica comum às lendas, mitos e fábulas antigas. A análise original continha 17 etapas e posteriormente foi adaptada por Christopher Vogler, em sua obra A Jornada do Escritor, quando foi condensada em 12 etapas — que tanto se popularizaram e ficaram conhecidas como Jornada do Herói. Fonte: interprete.me Essas 12 etapas, quando bem compreendidas e utilizadas, funcionam como uma excelente referência para a construção do roteiro de uma história. O problema é o que uma análise superficial dela pode causar. Ao procurar por um atalho na Jornada do Herói, os 12 passos são seguidos como uma receita culinária aprendida às pressas via YouTube. O storyteller executa tudo enquanto escuta o áudio, sem ao menos se dar o trabalho de ver o vídeo. Os ingredientes recomendados são substituídos pelo que tem na cozinha mesmo e, após levar a mistura ao forno, fica a expectativa de o resultado ser minimamente parecido com a foto mostrada na prévia do vídeo. O que devia ser uma história se torna um checklist de “coisas que precisam acontecer”. Os três atos são reduzidos meramente a início, meio e fim. O arco do personagem principal é completamente ignorado e não há transformação alguma. Sem essa transformação, temos uma Jornada Estática: um protagonista imutável que chega no último ato exatamente como começou e, portanto, é incapaz de inspirar qualquer mudança por parte do público. “Seja lá o que você fizer, não deixe sua história ficar estática — os personagens devem mudar. Caso contrário, sua história perderá força e seu público rapidamente perderá o interesse. Como disse Will Rogers: ‘Mesmo se você estiver no caminho certo, você será atropelado se ficar apenas sentado lá’.” — Matthew Luhn, The Best Story Wins: How to Leverage Hollywood Storytelling in Business and Beyond O arco do protagonista, resumido em três etapas, deve conter: O início da história em um dia comum, nos apresentando a rotina do personagem principal; Um incidente incitante lança nosso protagonista em uma jornada que proporciona obstáculos e conflitos, desafiando nosso herói fisicamente, psicologicamente e espiritualmente; O retorno do personagem principal ao ponto de partida — agora completamente transformado. Outra forma de encarar o arco é: o que o protagonista era, o que ele aprende e, por fim, em quem ele se transforma. A Jornada do Herói fornece o contexto necessário para que tudo isso aconteça, desde que as etapas sejam compreendidas — não apenas replicadas. Mais importante do que decorar e reproduzir a Jornada do Herói, é entender lógica por trás dela e de suas 12, ou 17, etapas. E compreendendo disso, chegamos ao próximo erro. A falácia do super-herói Primeiro, precisamos diferenciar a aplicação do storytelling na ficção e na realidade. Se a história não é fictícia, é preciso tomar bastante cuidado com a Jornada do Herói para não romantizá-la a ponto de enfeitar a vida como se fosse um grande épico. Lembre-se: a Jornada do Herói surgiu da análise de lendas, mitos e fábulas. Ao utilizá-la para não ficção, é crucial enxergá-la apenas como uma sugestão de tópicos para começar a construir o seu roteiro — a menos que você queira criar uma fanfic corporativa. Porém, acredite: a principal falácia do super-herói não é essa. Mas sim quem costuma ser retratado como herói nas histórias de empresas e empreendedores. Ou seja, a verdadeira falácia do super-herói no storytelling corporativo é querer posar como protagonista das histórias que você conta. Um erro grave e extremamente sedutor de se cometer, porque ele infla o ego do autor e pode trazer resultados a curto prazo. Mas, a longo prazo, não se constrói marcas confiáveis dessa forma. Porque as pessoas vão desconfiar das suas histórias e, assim que isso acontecer, a desconfiança será transferida para a marca e para a empresa. Então, caso você não esteja disposto a renovar constantemente sua audiência, esqueça essa história de posar como herói. A menos que você esteja contando como começou na carreira ou como fundou sua empresa, o protagonista das suas narrativas deve sempre ser o seu público — ou melhor ainda, o seu cliente. Com essa abordagem, deixamos o ego de lado e, em vez de insistirmos em gritar para o mundo o quão bons e altruístas somos, nos colocamos na posição de um aliado na jornada do cliente. Somente dessa forma, é possível tirar o foco da tentativa de vender algo — seja um produto, serviço ou sua
Coringa e o Storytelling: as principais técnicas de narrativa que justificam toda a obsessão pelo filme

Grande filme de 2019 até então, Coringa é um estudo de personagem focado em um dos vilões mais icônicos e imprevisíveis dos quadrinhos. Só que dessa vez, a fantasia se mistura com realidade. O personagem não enlouquece após cair no ácido, ele descende lentamente até a loucura. De uma forma tão bem trabalhada que nos faz desenvolver compaixão, empatia e até mesmo identificação com um vilão — algo que não é tão comum no cinema. A produção do diretor Todd Phillips também fez questão de não entregar nada muito mastigado nas mãos da audiência, além de deixar várias questões em aberto intencionalmente. Tudo isso incita a discussão em torno do filme e justifica tanto seu sucesso, quanto a obsessão criada em torno de Coringa desde seu lançamento. E faz também com que a obra se torne uma excelente fonte de estudo sobre Storytelling. Desconstruindo o filme e analisando as principais técnicas de narrativa utilizadas, podemos entender melhor o por quê de toda a repercussão. Show, don’t tell e a atenção aos detalhes No momento em que os trailers se encerram e as luzes do cinema se apagam em definitivo, é possível notar a preocupação com os detalhes em Coringa. Em vez do atual logo da Warner Bros, vemos o que a produtora utilizava nas décadas de 70 e 80 — para assegurar, logo de cara, a ambientação do filme no ano de 1981. Na transição para a primeira cena, enquanto Joaquin Phoenix surge, o rádio aparece para nos contextualizar: 18.º dia da greve dos lixeiros de Gotham; 10 mil toneladas de lixo se acumulam todos os dias e mesmo as principais regiões da cidade estão parecendo pântanos; pela primeira vez em dez anos, o comissário de saúde declara estado de emergência. Enquanto isso, temos nosso primeiro contato com Arthur Fleck. Isolado das demais pessoas que conversam na sala, ele finaliza sua maquiagem e ensaia um sorriso. Por mais que se esforce e force, o sorriso não vem natural. E a lágrima que escorre pelo seu rosto, enquanto ele estica a própria boca com os dedos indicadores, já diz muito. Socialmente deslocado, Arthur acredita que sua missão é trazer alegria ao mundo, mas não consegue manter um sorriso no próprio rosto. Isso é o Show, don’t tell na essência. Em vez de apenas falar — como no rádio — o filme mostra e aposta nos detalhes para que possamos construir nossa própria percepção. Basta lembrar da forma com que somos apresentados à risada patológica do protagonista e temos outro exemplo dessa técnica. Na sessão de terapia, temos uma breve amostra, que soa como um desabafo, ou uma forma de descarregar as dores acumuladas. Em seguida, na cena do ônibus, vemos a risada incontrolável se manifestando pela primeira vez — num momento em que Arthur se sentiu reprimido, constrangido e desconfortável. Não acompanhamos nenhuma conversa ou diagnóstico sobre a risada. Apenas acompanhamos ela surgindo e tiramos nossas próprias conclusões. A técnica se repete na primeira fantasia de Arthur, quando ele se imagina participando do show de Murray Franklin. E está presente em todo o filme. Dessa forma, Coringa ultrapassa o que um mero entretenimento ofereceria e se transforma numa experiência de imersão na vida do protagonista. Importância da música e da dança A trilha sonora é um elemento que poderia ser apenas um detalhe no filme, mas com o cuidado recebido, ganha a importância de um personagem. Todas as músicas originais do filme foram compostas e gravadas pela islandesa Hildur Guðnadóttir antes da filmagem, tomando o roteiro como base. Todd Phillips queria que a música tivesse uma participação ativa no set de Coringa e o resultado foi exatamente esse. Na dança, Arthur encontra um ato de libertação. Ele não se relaciona tão bem com nenhum outro personagem da trama, quanto se relaciona com a música. Compaixão, identificação e fascínio pelo vilão Sou apenas eu ou o mesmo está ficando mais louco? Acompanhamos Arthur de perto em toda a história — algumas vezes como um observador e outras, pela perspectiva dele próprio. Estamos imersos na rotina e na mente do protagonista. Quando ele é espancado, testemunhamos de perto a ponto de sentirmos a sua dor. Quando ele ri, nos sentimos igualmente deslocados e desconfortáveis. E quando ele delira, deliramos junto. Essa narrativa pela perspectiva de um protagonista delirante remete ainda ao narrador não confiável da literatura. Ou seja, não conseguimos ter certeza do que realmente aconteceu e do que foi apenas fantasia de um paciente psiquiátrico. Além de nos iludir, essa proximidade facilita nossa conexão com Arthur Fleck. Sentimos compaixão por ele e, em diversos momentos, também nos identificamos com o personagem. Em qualquer contexto e situação, Arthur é um outsider — ele ri nas horas erradas, não consegue se encaixar na sociedade e está sempre deslocado. Com o desconforto dessas ocasiões, nos identificamos. Com sua não realização profissional, também. Porque são situações que todos vivenciamos. Em alguns momentos, a linha entre a identificação e a compaixão se torna tênue. Em outros, ela é mais clara. Após assassinar os dois primeiros rapazes no metrô — ainda em legítima defesa — Arthur persegue o terceiro e, nesta hora, não há identificação. Apenas compaixão. Nós até entendemos a escolha dele, mas não nos vemos em seu lugar. Nesse ponto, entra o fascínio pelo vilão. Nós abrimos mão dos nossos instintos por convenções sociais e por um esforço civilizatório, mas o vilão não. Ele vive conforme suas próprias regras e, por isso, se torna tão fascinante. Quando vemos Arthur perseguir o 3.º rapaz, estamos, ao mesmo tempo, aterrorizados e fascinados. Depois de cometer os assassinatos e fugir, o protagonista se tranca em um banheiro público e… dança. Naquele momento, ele começa a abraçar as consequências de suas atrocidades como algo natural. “Às vezes, não sei o que fazer. Na última vez, acabei descontando isso em algumas pessoas. Eu pensei que isso iria me incomodar, mas realmente não me incomodou.” O conflito como foco principal Quando vamos ver Coringa, já temos em mente qual será seu